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      Edição 224 - Setembro de 2006
 

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Sem buscar créditos mirabolantes dentro ou fora do país e nem cobiçar aportes do mercado de capitais, algumas empresas optam por se desenvolver sozinhas – reinvestem lucros e mantêm o controle de tudo

Andréia Barros e Guilherme Damo

Buscar dinheiro fora da empresa para crescer de forma agressiva, ampliar a participação de mercado e aniquilar a concorrência. A atual lógica corporativa aponta para o caminho da superação e do desenvolvimento contínuos como se fossem a única alternativa de sobrevivência de um negócio. Algumas companhias, no entanto, fazem a escolha inversa: optam pelo crescimento com capital próprio e se desenvolvem de forma discreta, consistente e longeva. Resistem há décadas às ondas de fusões e aquisições e também ao flerte do mercado de capitais.

Analistas e consultores têm denominado essa opção estratégica empresarial como “Síndrome de Peter Pan” – o garoto que não quer se tornar adulto. Na prática, ficar na Terra do Nunca significa crescer em um ritmo mais lento e seguro do que se houvesse a entrada de recursos através de empréstimos ou a abertura de capital em bolsa de valores. O fato é que, apesar dessa escolha ou até por causa dela, essas empresas Peter Pan não passam despercebidas. Ao analisar seus resultados, os investidores enchem os olhos de cobiça. “Esse perfil de empresa recebe visitas constantes dos grandes bancos. Se decidissem abrir capital, seriam os chamados cases de sucesso”, comenta Ivanor Torres, analista da Corretora Geral.

Só para ficar na Região Sul, podem ser citadas nesta categoria empresas como Grupo Positivo, O Boticário (PR) e SLC (RS). Sem contar aquelas tão ensimesmadas no negócio que, apesar de procuradas, preferem não dar entrevistas sobre este assunto: Zaffari, Tramontina, Reichert, Paquetá, Baldo, Bettanin e Todeschini. Mesmo com a opção pela discrição absoluta, essas companhias dão o que falar entre analistas e investidores que acompanham seus resultados de perto e com expectativa: não querem ficar de fora, caso surja uma boa oportunidade de investimento.

A rede de supermercados Zaffari, criada em 1935, é a típica empresa que conquista mercado pelas beiradas só com recursos do próprio caixa – pelo menos até hoje. Esse estilo low profile não impediu a rede gaúcha de conquistar a quarta posição entre as maiores redes de varejo do Brasil – atrás de Wal-Mart, Carrefour e Pão de Açúcar. Enquanto os três primeiros disputam o pódio, o Zaffari corre por fora e cresce com calma e consistência. Nos últimos cinco anos, a rede inaugurou nove empreendimentos no Rio Grande do Sul e constrói uma nova unidade em São Paulo, que deve ficar pronta em 2007. “Esse perfil de empresa monta sua própria escala. O objetivo é o ganho e não necessariamente o faturamento”, explica Mirian Palmeira, professora de Administração da UFPR. “Se a margem de lucro cair, essas companhias preferem deter o crescimento”, completa Admir Roque Teló, consultor e doutor em finanças de empresas familiares.

A trajetória estratégica das empresas Peter Pan exclui a abertura de capital, mas – em alguns casos – não de forma definitiva. De tempos em tempos, surgem rumores de que esta e aquela estariam tentadas a ingressar na Bolsa de Valores. Com a discrição habitual, as especulações são desmentidas. Sem, no entanto, a veemência necessária para calar o burburinho do mercado. “É viável que o Zaffari, por exemplo, capte dinheiro na Bolsa para financiar seus novos empreendimentos. A demanda por ações de empresas brasileiras ainda é elevada”, afirma Débora Morsch, presidente da Associação dos Analistas do Mercado de Capitais. Assim como a rede de supermercados, a Tramontina e O Boticário não saem da mira dos analistas. “A exemplo do que aconteceu com a Natura, que foi muito bem-sucedida ao ingressar na bolsa, O Boticário também poderia tomar essa iniciativa”, ambiciona Torres.

Dispensar o poderoso aporte financeiro dos acionistas e abdicar das cartilhas de gestão corporativa do velho e do novo mercado de capitais – por enquanto – parece não ter prejudicado a capacidade de voar dessas empresas. A Tramontina é uma prova disso. Fundada em 1911 como uma pequena ferraria em Carlos Barbosa (RS), o negócio se tornou uma potência em utilidades domésticas e ferramentas. São dez fábricas no Brasil, além de escritórios de vendas e centros de distribuição nos Estados Unidos, México, Colômbia, Chile, Alemanha, França, Peru e Emirados Árabes para comercializar mais de 16 mil produtos com a marca Tramontina. Em maio deste ano, Clóvis Tramontina, presidente da empresa, assegurou em uma entrevista a AMANHÃ que jamais construirá uma fábrica no exterior. “O objetivo é aumentar as exportações e manter a geração de empregos dentro do Brasil”, apregoou. Em 2005, a Tramontina atingiu um faturamento de R$ 1,4 bilhão e teve rentabilidade de 5,7% sobre a receita líquida. “Para este ano, esperamos crescer cerca de 15%”, disse Clóvis naquela entrevista.

De fato, alguns empresários franzem a testa só ao imaginar seu negócio com ações listadas em bolsa. Eles estão habituados a reinvestir os lucros para crescer, mas, em compensação, são donos do próprio nariz. “Quem abre capital tem de estar disposto a mudar seu estilo de gestão. Os acionistas cobram informações. E acho que ainda cobram pouco: deveriam cobrar muito mais”, aponta Carlos Biedermann, diretor da PricewaterhouseCoopers na Região Sul.

 

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