| Buscar dinheiro fora da empresa para crescer de
forma agressiva, ampliar a participação de mercado e aniquilar
a concorrência. A atual lógica corporativa aponta para
o caminho da superação e do desenvolvimento contínuos
como se fossem a única alternativa de sobrevivência de
um negócio. Algumas companhias, no entanto, fazem a escolha inversa:
optam pelo crescimento com capital próprio e se desenvolvem de
forma discreta, consistente e longeva. Resistem há décadas
às ondas de fusões e aquisições e também
ao flerte do mercado de capitais.
Analistas e consultores têm denominado essa opção
estratégica empresarial como “Síndrome de Peter
Pan” – o garoto que não quer se tornar adulto. Na
prática, ficar na Terra do Nunca significa crescer em
um ritmo mais lento e seguro do que se houvesse a entrada de recursos
através de empréstimos ou a abertura de capital em bolsa
de valores. O fato é que, apesar dessa escolha ou até
por causa dela, essas empresas Peter Pan não passam despercebidas.
Ao analisar seus resultados, os investidores enchem os olhos de cobiça.
“Esse perfil de empresa recebe visitas constantes dos grandes
bancos. Se decidissem abrir capital, seriam os chamados cases de sucesso”,
comenta Ivanor Torres, analista da Corretora Geral.
Só para ficar na Região Sul, podem ser citadas nesta
categoria empresas como Grupo Positivo, O Boticário (PR) e SLC
(RS). Sem contar aquelas tão ensimesmadas no negócio que,
apesar de procuradas, preferem não dar entrevistas sobre este
assunto: Zaffari, Tramontina, Reichert, Paquetá, Baldo, Bettanin
e Todeschini. Mesmo com a opção pela discrição
absoluta, essas companhias dão o que falar entre analistas e
investidores que acompanham seus resultados de perto e com expectativa:
não querem ficar de fora, caso surja uma boa oportunidade de
investimento.
A rede de supermercados Zaffari, criada em 1935, é a típica
empresa que conquista mercado pelas beiradas só com recursos
do próprio caixa – pelo menos até hoje. Esse estilo
low profile não impediu a rede gaúcha de conquistar
a quarta posição entre as maiores redes de varejo do Brasil
– atrás de Wal-Mart, Carrefour e Pão de Açúcar.
Enquanto os três primeiros disputam o pódio, o Zaffari
corre por fora e cresce com calma e consistência. Nos últimos
cinco anos, a rede inaugurou nove empreendimentos no Rio Grande do Sul
e constrói uma nova unidade em São Paulo, que deve ficar
pronta em 2007. “Esse perfil de empresa monta sua própria
escala. O objetivo é o ganho e não necessariamente o faturamento”,
explica Mirian Palmeira, professora de Administração da
UFPR. “Se a margem de lucro cair, essas companhias preferem deter
o crescimento”, completa Admir Roque Teló, consultor e
doutor em finanças de empresas familiares.
A trajetória estratégica das empresas Peter Pan exclui
a abertura de capital, mas – em alguns casos – não
de forma definitiva. De tempos em tempos, surgem rumores de que esta
e aquela estariam tentadas a ingressar na Bolsa de Valores. Com a discrição
habitual, as especulações são desmentidas. Sem,
no entanto, a veemência necessária para calar o burburinho
do mercado. “É viável que o Zaffari, por exemplo,
capte dinheiro na Bolsa para financiar seus novos empreendimentos. A
demanda por ações de empresas brasileiras ainda é
elevada”, afirma Débora Morsch, presidente da Associação
dos Analistas do Mercado de Capitais. Assim como a rede de supermercados,
a Tramontina e O Boticário não saem da mira dos analistas.
“A exemplo do que aconteceu com a Natura, que foi muito bem-sucedida
ao ingressar na bolsa, O Boticário também poderia tomar
essa iniciativa”, ambiciona Torres.
Dispensar o poderoso aporte financeiro dos acionistas e abdicar das
cartilhas de gestão corporativa do velho e do novo mercado de
capitais – por enquanto – parece não ter prejudicado
a capacidade de voar dessas empresas. A Tramontina é uma prova
disso. Fundada em 1911 como uma pequena ferraria em Carlos Barbosa (RS),
o negócio se tornou uma potência em utilidades domésticas
e ferramentas. São dez fábricas no Brasil, além
de escritórios de vendas e centros de distribuição
nos Estados Unidos, México, Colômbia, Chile, Alemanha,
França, Peru e Emirados Árabes para comercializar mais
de 16 mil produtos com a marca Tramontina. Em maio deste ano, Clóvis
Tramontina, presidente da empresa, assegurou em uma entrevista a AMANHÃ
que jamais construirá uma fábrica no exterior. “O
objetivo é aumentar as exportações e manter a geração
de empregos dentro do Brasil”, apregoou. Em 2005, a Tramontina
atingiu um faturamento de R$ 1,4 bilhão e teve rentabilidade
de 5,7% sobre a receita líquida. “Para este ano, esperamos
crescer cerca de 15%”, disse Clóvis naquela entrevista.
De fato, alguns empresários franzem a testa só ao imaginar
seu negócio com ações listadas em bolsa. Eles estão
habituados a reinvestir os lucros para crescer, mas, em compensação,
são donos do próprio nariz. “Quem abre capital tem
de estar disposto a mudar seu estilo de gestão. Os acionistas
cobram informações. E acho que ainda cobram pouco: deveriam
cobrar muito mais”, aponta Carlos Biedermann, diretor da PricewaterhouseCoopers
na Região Sul.
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