Voltar para página inicial
      Edição 220 - Maio de 2006
 

    Matéria de Capa
    Especial
    Entrevista
Capa da edição



 
Quer receber notícias exclusivas da revista Amanhã?

(digite seu email)

 
Imprima esta matéria Dê sua opinião Indique este texto

Cobiçado por funcionários, mas renegado pela maioria das empresas,
o home-office ainda está longe de se popularizar no Brasil


Daniele Alves

Acordar e conectar-se à internet. Trabalhar até 12 horas em um único dia sem sair de casa. Entre um e-mail e o fechamento de um relatório, dar atenção aos filhos e à esposa. Quando adotou essa rotina, há pouco mais de seis anos, o paulista Maurício Gaudêncio imaginava estar em linha com uma tendência irreversível: a do trabalho a distância. Gerente de desenvolvimento de negócios da Cisco Systems – uma multinacional na qual todos os funcionários estão autorizados a realizar suas tarefas em casa –, Gaudêncio logo sentiu os benefícios do chamado home-office. “Ainda hoje, minha produção chega a ser três vezes maior”, garante. E ele não foi o único. No final dos anos 90, com a popularização da rede mundial de computadores, milhares de empresas passaram pela experiência de mandar suas equipes para casa. “Chegou-se a prever que os edifícios comerciais ficariam vazios, pois a maior parte das pessoas iria realizar suas tarefas a distância“, relembra o analista Francisco de Assis Gonçalves, da Teleoffice Consultoria, de São Paulo. Hoje, porém, passados seis anos, Gaudêncio e os demais entusiastas do home-office formam um grupo pequeno. O método é utilizado, basicamente, por grandes multinacionais – como a Cisco –, que trazem para o Brasil o método aplicado em outros países. “São companhias cujos processos de trabalho são mais flexíveis”, comenta Ligia Nery da Silveira, diretora da DCO Consultoria e Outplacement, de Porto Alegre.

Os escassos dados disponíveis revelam que o trabalho a distância ainda não deslanchou no Brasil. O que se sabe, de acordo com estimativas da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividade (Sobratt), é que 3 milhões de funcionários no país cumprem jornada fora da empresa. Mas é preciso dar um desconto: a estatística abrange profissionais que, de uma forma ou de outra, acabam trabalhando longe da empresa de vez em quando – como vendedores, distribuidores etc. Defensor do teletrabalho, o assistente executivo da Sobratt, José Luís de França Neto, afirma que é cedo para se concluir se o conceito ainda tem chances de se popularizar no Brasil. “É uma estimativa. Ainda não há dados oficiais a respeito”, informa. Proporcionalmente, porém, não há como negar que o Brasil está longe de alcançar países como os Estados Unidos, onde 45 milhões de pessoas trabalham no aconchego do próprio lar, segundo a estimativa da Associação e Conselho Internacional de Teletrabalho (ITAC, na sigla em inglês).

Notebook: ferramentas como o PC portátil permite o trabalho a distância

Diversos fatores impedem a popularização do trabalho a distância no Brasil. A começar pela cultura de desconfiança que impera entre patrão e empregado. Em muitas empresas, persiste a visão de que funcionário ausente não produz. “Muitos chefes precisam ter vários empregados sob a ‘asa’. Do contrário, na hora em que ficam sozinhos, se sentem privados de poder, de autonomia”, explica. Não por acaso, a maioria das organizações controla o desempenho de seus funcionários de acordo com a quantidade de horas trabalhadas e a pontualidade – e não conforme o resultado que apresentam. “Temos de aprender a valorizar o profissional que gera idéias, que é criativo e apresenta resultados trabalhando tanto dez minutos quanto dez horas por dia”, opina Ligia Silveira, da DCO. Nas multinacionais habituadas a esse sistema, existem métodos de gestão que acompanham a produtividade de cada um. Atualizado com freqüência, esse monitoramento impede que um ou outro funcionário confunda home-office com mamata. “Quem se julga esperto e fica um tempão sem produzir nada conseguirá resistir por, no máximo, três meses. No quarto mês, ao prestar contas sobre os resultados, vai acabar dançando”, destaca Gaudêncio, da Cisco.

 
   

Gaudêncio, da Cisco Systems: ir para a empresa é opcional

 
   

Hora extra – Para viabilizar o trabalho remoto, não basta mandar o funcionário para casa. É preciso investir no seu treinamento e educar a família – que deve entender por que a casa se transformará em um local de trabalho. Além disso, é importante manter um diálogo aberto com os funcionários que não recebem a oportunidade de sair da empresa. “Caso não haja uma preparação, todos os ganhos de produtividade vão por água abaixo”, avisa França Neto. Um dos riscos é o de sujeitar a empresa a processos judiciais. A rigor, quem trabalha a distância não cumpre um expediente definido – ao contrário, fica à disposição da empresa praticamente “a qualquer hora, em qualquer lugar”. Isso abre brechas para empregados descontentes buscarem na Justiça uma compensação por eventuais horas extras e despesas como luz, água e telefone, entre outras. De acordo com França Neto, muitas companhias fornecem um notebook ao funcionário e o mandam para casa. Mantêm vínculo empregatício, mas não adicionam nenhuma cláusula específica no contrato de trabalho. E aí dão margem a reclamações futuras. “Esse empecilho pode ser resolvido com regras esclarecidas no documento assinado por ambas as partes”, sintetiza Gonçalves, da Teleoffice.

Outro foco de preocupação é a segurança. As grandes corporações temem que senhas e arquivos confidenciais se tornem mais vulneráveis no vaivém entre o escritório e a residência. “Os empresários consideram que, em casa, o indivíduo toma menos cuidados com os dados. Além disso, é difícil gerenciar o nível de segurança do computador que está longe das instalações da companhia”, argumenta João Pedro Albino, doutor em Tecnologia da Informação Aplicada à Gestão do Conhecimento pela Universidade de São Paulo (USP). Um estudo da consultoria norte-americana SonicWall, realizado em março de 2006, dá uma idéia de como o teletrabalho deixa a informação vulnerável. Nove a cada dez entrevistados admitem que estão pouco ligando para a proteção de senhas enquanto estão em casa. E apenas 12% trocam arquivos com a sua empresa, utilizando ferramentas de encriptação de dados – que utilizam um algoritmo para tornar o documento ilegível a eventuais hackers.

Você trabalharia nu?
Pesquisa revela como o funcionário se porta durante o “expediente” em casa* (clique para ampliar o gráfico)

*Em % sobre a amostra pesquisada. Fonte: SonicWall

 


Copyright © Revista Amanhã - Conectt Marketing Interativo