| Quem acompanha o publicitário Roberto
Justus, 51 anos completados em abril, no programa “O Aprendiz”,
da Rede Record, surpreende-se com seu modo áspero. O apresentador,
formado em Administração de Empresas pela Universidade
Mackenzie, assume o personagem carrasco na hora de demitir um
funcionário, pelo menos, na eliminação de
um integrante do reality show. Nesta entrevista, concedida para
AMANHÃ de seu escritório em São Paulo, Justus
revela que a percepção do público é
equivocada. “Costumo dizer que no programa estou um tom
que fica pouco acima do normal”, conta. Em menos de meia
hora de conversa, de forma rápida, mas sem perder o humor,
Justus mostra que transparência é a palavra-chave
na hora de o patrão dispensar um trabalhador. “Você
tem de ser justo na hora de explicar o porquê de estar fazendo
aquilo.” Com 25 anos de experiência no mercado publicitário,
Justus é sócio da Young & Rubicam. Ele também
acumula o cargo de CEO do grupo Newcomm, que engloba a mesma Y&R
e faz parte de um dos gigantes mundiais da comunicação,
a WPP. Pode ser difícil de acreditar, mas Justus, bem-sucedido
empresário, administrador de pelo menos seis empresas,
já pensou muitas vezes em se demitir algumas vezes. Acompanhe
o relato ao longo desta entrevista.
O que você traz de “O Aprendiz” para
os negócios?
Acho que é o inverso. Eu aprendi mais na vida real e trago
para “O Aprendiz” mais do que o contrário.
E, na verdade, hoje em dia, na posição de presidente
e CEO do meu grupo, eu não faço demissões
de pessoas daquela forma. Muito menos demitir 16 pessoas em dois
meses. Na vida real, isso já não acontece comigo
mais, mas já aconteceu no passado. Na verdade, aquilo é
um laboratório de relações humanas fantástico.
Eu tenho na minha frente a condição de fazer uma
avaliação de candidato que na vida real não
teria. Se você vai analisar candidatos a um emprego, vai
olhar currículo, vai fazer algumas dinâmicas de RH,
vai aplicar alguns testes para definir vocação e
estilo, mas não vai utilizar testes reais. Com os meus
aprendizes, eu tenho testes reais. Então, é um grande
aprendizado ver como as pessoas reagem às mais inusitadas
situações – quando são lideradas, quando
têm de liderar um processo, quando vão para a rua
com a surpresa de uma tarefa que não tinham idéia
de que viria. Então, tudo isso é muito rico como
avaliação de RH, e não é comum na
vida real. Não estou recomendando que as empresas façam
assim, mas, já que eu tenho essa oportunidade, acho que
é muito bacana. E o público acompanha e entende
quais os requisitos que você precisa ter para ser um grande
executivo.
Quais características deve ter a pessoa que está
comunicando a demissão?
É preciso ser muito objetivo, muito claro, fundamentar
muito bem a sua decisão. Porque, ao mesmo tempo em que
você está sendo um carrasco, naquele momento você
tem de ser humano. Você tem de entender que a pessoa está
perdendo o emprego, está perdendo o chão, a base
de sustentação dela e da sua família. Então
é muito difícil comunicar uma notícia dessas
para alguém. No meu caso, há a atenuante de não
ser perda de emprego, mas da oportunidade de ter um emprego comigo.
Mesmo assim, esse momento é muito difícil e, apesar
de ser bastante duro, eu procuro ser muito íntegro com
essas pessoas – justificando, dando base de sustentação
à minha decisão, para eles entenderem onde foi que
erraram, por que um pequeno detalhe fez com que perdessem o emprego
para outro candidato que está à minha frente. Portanto,
a maneira de demitir é ser muito transparente, muito justo
e ser muito eficaz na hora de explicar por que você está
fazendo aquilo. É não deixar nenhuma dúvida
no ar.
E, na hora da contratação, quais são
os valores que você prioriza?
Infelizmente, neste programa só tive dois momentos de contratação,
contra 28 de demissão. O que eu tento sinalizar é
que – além de ter uma formação acadêmica
boa, de demonstrar interesse em aprender seu ofício –
é muito importante a pessoa ser determinada. Eu gosto muito
da pessoa que demonstra paixão por aquilo que faz, que
demonstra capacidade de trabalho, liderança. Que tem talento,
visão. Valorizo aquele que enxerga mais do que um palmo
à frente do nariz. Acho que qualquer grande realização
é antecedida por uma grande visão. Por mais jovens
que os aprendizes sejam, eu preciso ver que eles têm visão.
Dentro do caso que o aprendiz teve de resolver, ele tem de mostrar
que possui visão. E muita ética. São as qualidades
que eu vejo, e fico observando as reações entre
eles, comigo na sala... as capacidades de se defender, de ter
personalidade para me enfrentar. E, no final, ganha aquele que
reúne mais dessas qualidades que eu mencionei.
Você leva em conta a aparência do candidato
na contratação?
Acho que aparência, compostura e estilo pessoal fazem parte
da formação de uma pessoa. O que não pode
é você exagerar na valorização desses
itens, em contrapartida aos itens mais importantes, que são
o conteúdo do candidato. Eu acho que um ser humano é
composto de várias coisas, e o importante é aplicar
um percentual de avaliação correto em relação
a cada uma delas. Eu acho que uma pessoa que trabalha numa empresa
de comunicação como a nossa tem de ser muito comunicativo,
tem de ser extrovertido num certo ponto, tem de ser um bom vendedor
– porque a gente vende a coisa mais intangível do
mundo, que são idéias. Então, vender uma
idéia, contar uma história é mais complicado
do que mostrar e vender um produto que está na sua mão.
E, para aquele que vai vender alguma coisa, é bom ter uma
aparência adequada. Você não precisa ser bonito,
precisa ter um bom cuidado. Não vai chegar um cara desdentado,
com cabelo todo imundo, barbudo, desleixado, de tênis em
vez de sapato. Isso não condiz com certas situações
do mundo dos negócios. De modo que a aparência tem
importância sim, principalmente na primeira impressão.
Quando uma pessoa entra numa sala para fazer uma apresentação,
para pedir um emprego, para fazer qualquer coisa, se estiver bem
apresentada vai causar uma impressão muito melhor. Vai
facilitar ser ouvida. O mundo dos negócios se abre mais
facilmente para as pessoas que estão adequadas. É
a mesma coisa que você ser convidado para um casamento,
onde todo mundo vai de terno e você vai de short. Não
cabe. Existe um sistema na nossa sociedade que exige um certo
grau de respeito. O mundo dos negócios não muda.
Você já foi demitido alguma vez?
Eu já tive vontade de me demitir algumas vezes, por algumas
decisões erradas que eu tomei na vida. Mas, como fui meu
próprio patrão, eu me poupei disso. Acabei não
me demitindo. Eu fui empregado só uma vez na minha vida.
Fui empregado do meu pai, no início da carreira. Estagiei
na empresa de construção dele. E, em 1981, aos 25
anos, montei a minha primeira agência de publicidade. Até
hoje, estou nesse ramo. Então, não fui demitido,
mas algumas vezes talvez eu tenha merecido. No entanto, depois
eu acabei fazendo um trabalho razoável que me trouxe até
aqui.
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