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      Edição 220 - Maio de 2006
 

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O publicitário Roberto Justus diz que não é exatamente aquele chefe durão do reality show “O Aprendiz” e recomenda aos líderes:
reconheçam logo seus erros, por piores que sejam

 
Andreas Müller e Marcos Graciani

Quem acompanha o publicitário Roberto Justus, 51 anos completados em abril, no programa “O Aprendiz”, da Rede Record, surpreende-se com seu modo áspero. O apresentador, formado em Administração de Empresas pela Universidade Mackenzie, assume o personagem carrasco na hora de demitir um funcionário, pelo menos, na eliminação de um integrante do reality show. Nesta entrevista, concedida para AMANHÃ de seu escritório em São Paulo, Justus revela que a percepção do público é equivocada. “Costumo dizer que no programa estou um tom que fica pouco acima do normal”, conta. Em menos de meia hora de conversa, de forma rápida, mas sem perder o humor, Justus mostra que transparência é a palavra-chave na hora de o patrão dispensar um trabalhador. “Você tem de ser justo na hora de explicar o porquê de estar fazendo aquilo.” Com 25 anos de experiência no mercado publicitário, Justus é sócio da Young & Rubicam. Ele também acumula o cargo de CEO do grupo Newcomm, que engloba a mesma Y&R e faz parte de um dos gigantes mundiais da comunicação, a WPP. Pode ser difícil de acreditar, mas Justus, bem-sucedido empresário, administrador de pelo menos seis empresas, já pensou muitas vezes em se demitir algumas vezes. Acompanhe o relato ao longo desta entrevista.

O que você traz de “O Aprendiz” para os negócios?
Acho que é o inverso. Eu aprendi mais na vida real e trago para “O Aprendiz” mais do que o contrário. E, na verdade, hoje em dia, na posição de presidente e CEO do meu grupo, eu não faço demissões de pessoas daquela forma. Muito menos demitir 16 pessoas em dois meses. Na vida real, isso já não acontece comigo mais, mas já aconteceu no passado. Na verdade, aquilo é um laboratório de relações humanas fantástico. Eu tenho na minha frente a condição de fazer uma avaliação de candidato que na vida real não teria. Se você vai analisar candidatos a um emprego, vai olhar currículo, vai fazer algumas dinâmicas de RH, vai aplicar alguns testes para definir vocação e estilo, mas não vai utilizar testes reais. Com os meus aprendizes, eu tenho testes reais. Então, é um grande aprendizado ver como as pessoas reagem às mais inusitadas situações – quando são lideradas, quando têm de liderar um processo, quando vão para a rua com a surpresa de uma tarefa que não tinham idéia de que viria. Então, tudo isso é muito rico como avaliação de RH, e não é comum na vida real. Não estou recomendando que as empresas façam assim, mas, já que eu tenho essa oportunidade, acho que é muito bacana. E o público acompanha e entende quais os requisitos que você precisa ter para ser um grande executivo.

Quais características deve ter a pessoa que está comunicando a demissão?
É preciso ser muito objetivo, muito claro, fundamentar muito bem a sua decisão. Porque, ao mesmo tempo em que você está sendo um carrasco, naquele momento você tem de ser humano. Você tem de entender que a pessoa está perdendo o emprego, está perdendo o chão, a base de sustentação dela e da sua família. Então é muito difícil comunicar uma notícia dessas para alguém. No meu caso, há a atenuante de não ser perda de emprego, mas da oportunidade de ter um emprego comigo. Mesmo assim, esse momento é muito difícil e, apesar de ser bastante duro, eu procuro ser muito íntegro com essas pessoas – justificando, dando base de sustentação à minha decisão, para eles entenderem onde foi que erraram, por que um pequeno detalhe fez com que perdessem o emprego para outro candidato que está à minha frente. Portanto, a maneira de demitir é ser muito transparente, muito justo e ser muito eficaz na hora de explicar por que você está fazendo aquilo. É não deixar nenhuma dúvida no ar.

E, na hora da contratação, quais são os valores que você prioriza?
Infelizmente, neste programa só tive dois momentos de contratação, contra 28 de demissão. O que eu tento sinalizar é que – além de ter uma formação acadêmica boa, de demonstrar interesse em aprender seu ofício – é muito importante a pessoa ser determinada. Eu gosto muito da pessoa que demonstra paixão por aquilo que faz, que demonstra capacidade de trabalho, liderança. Que tem talento, visão. Valorizo aquele que enxerga mais do que um palmo à frente do nariz. Acho que qualquer grande realização é antecedida por uma grande visão. Por mais jovens que os aprendizes sejam, eu preciso ver que eles têm visão. Dentro do caso que o aprendiz teve de resolver, ele tem de mostrar que possui visão. E muita ética. São as qualidades que eu vejo, e fico observando as reações entre eles, comigo na sala... as capacidades de se defender, de ter personalidade para me enfrentar. E, no final, ganha aquele que reúne mais dessas qualidades que eu mencionei.

Você leva em conta a aparência do candidato na contratação?
Acho que aparência, compostura e estilo pessoal fazem parte da formação de uma pessoa. O que não pode é você exagerar na valorização desses itens, em contrapartida aos itens mais importantes, que são o conteúdo do candidato. Eu acho que um ser humano é composto de várias coisas, e o importante é aplicar um percentual de avaliação correto em relação a cada uma delas. Eu acho que uma pessoa que trabalha numa empresa de comunicação como a nossa tem de ser muito comunicativo, tem de ser extrovertido num certo ponto, tem de ser um bom vendedor – porque a gente vende a coisa mais intangível do mundo, que são idéias. Então, vender uma idéia, contar uma história é mais complicado do que mostrar e vender um produto que está na sua mão. E, para aquele que vai vender alguma coisa, é bom ter uma aparência adequada. Você não precisa ser bonito, precisa ter um bom cuidado. Não vai chegar um cara desdentado, com cabelo todo imundo, barbudo, desleixado, de tênis em vez de sapato. Isso não condiz com certas situações do mundo dos negócios. De modo que a aparência tem importância sim, principalmente na primeira impressão. Quando uma pessoa entra numa sala para fazer uma apresentação, para pedir um emprego, para fazer qualquer coisa, se estiver bem apresentada vai causar uma impressão muito melhor. Vai facilitar ser ouvida. O mundo dos negócios se abre mais facilmente para as pessoas que estão adequadas. É a mesma coisa que você ser convidado para um casamento, onde todo mundo vai de terno e você vai de short. Não cabe. Existe um sistema na nossa sociedade que exige um certo grau de respeito. O mundo dos negócios não muda.

Você já foi demitido alguma vez?
Eu já tive vontade de me demitir algumas vezes, por algumas decisões erradas que eu tomei na vida. Mas, como fui meu próprio patrão, eu me poupei disso. Acabei não me demitindo. Eu fui empregado só uma vez na minha vida. Fui empregado do meu pai, no início da carreira. Estagiei na empresa de construção dele. E, em 1981, aos 25 anos, montei a minha primeira agência de publicidade. Até hoje, estou nesse ramo. Então, não fui demitido, mas algumas vezes talvez eu tenha merecido. No entanto, depois eu acabei fazendo um trabalho razoável que me trouxe até aqui.

 

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