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A China tem mais de 1,3 bilhão de habitantes,
a maior população do mundo – logo, o que não
falta lá é gente disposta a trabalhar, certo? Não
é bem assim. Embora tenha uma força de trabalho potencial
estimada em 780 milhões de pessoas, o país encontra dificuldades
para atender à demanda por mão-de-obra das empresas. A
maior parte (60%) dos chineses vive em zonas rurais, distante dos principais
centros de formação técnica e das universidades
do país. E longe, muito longe das empresas que buscam na China
a chance de produzir barato. “Muitas multinacionais encontram
problemas para contratar profissionais lá”, constata Thomaz
Machado, sócio da China Invest, consultoria que aproxima empresários
brasileiros e chineses.
Por enquanto, o problema é mais crítico
nas empresas que precisam contratar gerentes para departamentos estratégicos,
como o financeiro e o administrativo. Hoje, pouco mais de 1% da população
chinesa tem curso superior. No Brasil, onde a falta de qualificação
da mão-de-obra ainda é considerada um gargalo para o desenvolvimento,
o índice é de 3,4%. Nos países desenvolvidos, chega
a 30%. A consultoria McKinsey estima que existam na China menos de 5
mil administradores com cacife para trabalhar nas multinacionais. É
quase nada comparado à demanda local. A própria McKinsey
projeta que, nos próximos cinco anos, 75 mil vagas serão
abertas no país para esses profissionais. “As multinacionais
são obrigadas a levar executivos de seus países de origem
para ocupar cargos estratégicos na China”, explica Rodrigo
Maciel, sócio da Veirano Advogados e especialista no mercado
chinês.
Aos
poucos, porém, começa a faltar funcionários também
no “chão de fábrica”. A demanda é tão
grande que muitas indústrias não conseguem mais encontrar
operários para a linha de produção. O setor da
construção civil é um dos que mais sofrem. No início
deste ano, a província de Guangdong, ao sul do país, foi
obrigada a interromper a construção de algumas estradas
simplesmente porque faltaram pedreiros para dar conta do recado. O governo
local teve de treinar pessoas às pressas e recrutar trabalhadores
em outras regiões.
Combinada com a superoferta de empregos, a escassez
de profissionais está inflacionando os salários –
que, até agora, eram o grande atrativo para as empresas que abrem
as portas na China. No ano passado, para atrair bons profissionais,
as companhias aceitaram aumentar a remuneração dos trabalhadores
em até 8,4%, segundo a consultoria Hewitt Associates. O reajuste
supera a média anual de 6% registrada no país ao longo
da última década. “Com um mercado aquecido, já
começa a haver uma ‘guerra’ por funcionários”,
diz Machado, da China Invest.

Nas ruas de Beijing, para qualquer lado que se olhe,
lá estão elas: as gruas. No topo de cada prédio
em construção, elas formam a paisagem de um dos países
que mais investem em infra-estrutura no mundo. Ao todo, 5% do PIB é
aplicado em novas estradas, portos e outras obras que ajudam a pavimentar
o desenvolvimento da China. À primeira vista, o cenário
leva a crer que o país está longe de enfrentar gargalos
como os que existem no Brasil – onde faltam estradas até
mesmo para escoar a produção agrícola. Engano:
mesmo com investimentos pesados, os chineses já não conseguem
mais prover infra-estrutura suficiente para uma economia que cresce
quase 10% ao ano.
O gargalo mais preocupante é energético.
Em Xangai, um dos principais centros industriais do país, algumas
fábricas são obrigadas a reduzir sua produção
nos horários de pico para poupar energia. Outras precisam transferir
as atividades para os finais de semana ou produzir durante a madrugada,
quando o consumo é mais baixo. “O crescimento da China
pode ficar ameaçado caso não sejam erguidas novas geradoras
em breve”, alerta Durval de Noronha, diretor da Noronha Advogados
e especialista em comércio internacional. A conta para evitar
um apagão é salgada: o governo de lá estima que
será necessário construir 30 novas usinas nucleares até
2016 para sustentar a expansão de sua economia. Se cada uma delas
custar o mesmo que Angra III, o polêmico projeto que o governo
brasileiro tenta erguer no Rio de Janeiro, a China irá desembolsar
US$ 75 bilhões em energia em apenas dez anos.
Outro
fator que atrapalha quem busca negócios no gigante asiático
são as péssimas condições de infra-estrutura
nas zonas rurais, onde vive 60% da população. Em algumas
cidades dessas regiões, como Chengdu e Chongqing, localizadas
no centro-oeste do país, a precariedade das estradas e as péssimas
condições de comunicação e armazenagem afugentam
os investidores. Além disso, a China enfrenta problemas no seu
aparelhamento logístico. O controle das mercadorias que chegam
pelas rodovias para serem embarcadas nos portos e aeroportos, por exemplo,
ainda é realizado manualmente. Nos países desenvolvidos,
o processo é feito por softwares e leitores de códigos
de barras – muito mais produtivos. As conseqüências
são velhas conhecidas dos brasileiros: filas quilométricas
de caminhões nas estradas. E aviões que passam horas no
chão, esperando a liberação das suas cargas. “Um
dos grandes desafios da China para manter o atual nível de crescimento
é adequar sua infra-estrutura à forte atividade industrial”,
entende Nilson de Paula, professor de Economia da Universidade Federal
do Paraná.

É verdade que a China está de portas abertas
para as multinacionais que produzem manufaturados de exportação
– como têxteis, brinquedos, calçados e eletrodomésticos.
É justamente nesses mercados, aliás, que o dragão
asiático tem mostrado suas garras. Mas isso não significa
que o país seja um oásis no qual todos os negócios
florescem facilmente. Ao contrário: em alguns setores considerados
“estratégicos” pelo governo chinês, os investidores
não têm a menor folga. Qualquer empreendimento que visa
a atender o mercado interno da China tem de ser feito necessariamente
em sociedade com o Estado – cujos processos de negociação
costumam ser extremamente burocráticos. Um exemplo é o
setor de aviação. A Aeromot, fabricante de pequenos aviões
agrícolas, tenta negociar há quatro anos a criação
de uma joint venture com os chineses. O negócio nem é
tão ousado: na prática, a Aeromot deterá apenas
25% do empreendimento. “Nós não entraremos com nenhum
capital. Só com a nossa tecnologia”, explica Cláudio
Viana, diretor-presidente da empresa. Mesmo assim, o andamento do projeto
é complicado. Viana relata que os chineses costumam ir às
reuniões em grupos de até dez pessoas. E todos, sem exceção,
discutem cada ponto do contrato. “Quando o negócio envolve
mais de um setor, eles mandam um representante de cada área”,
conta. No caso da Aeromot, os pequenos aviões serão usados
em treinamentos militares. A China está interessada em aprender
como fabricá-los – e faz questão de controlar a
operação produtiva.
Mesmo as empresas que desejam somente vender produtos
na China têm de se submeter aos seus rituais de negócios.
Para entrar nos supermercados chineses, por exemplo, a Perdigão
tem de passar constantemente por várias inspeções
em suas plantas produtivas no Brasil. Além disso, precisa se
adaptar ao jeito asiático de fechar acordos –baseado na
confiança e na empatia entre as partes. “As negociações
são longas. Para chegar ao conhecimento mútuo, se passa
por várias e longas refeições e muitas visitas
para a troca de informações”, relata Marta Ikeda,
gerente de vendas externas da Perdigão. Para Ricardo Carvalho,
sócio da área de Corporate Finance da Deloitte, a chave
para o sucesso está no “guanxi” – que pode
ser traduzido como “conexões pessoais fortes”. Para
os chineses, as relações de amizade e a formação
de um “grupo” são de extrema importância. “É
uma questão de cultura. Tudo acontece na base do relacionamento”,
considera Carvalho.
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