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      Edição 220 - Maio de 2006
 

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A China tem mais de 1,3 bilhão de habitantes, a maior população do mundo – logo, o que não falta lá é gente disposta a trabalhar, certo? Não é bem assim. Embora tenha uma força de trabalho potencial estimada em 780 milhões de pessoas, o país encontra dificuldades para atender à demanda por mão-de-obra das empresas. A maior parte (60%) dos chineses vive em zonas rurais, distante dos principais centros de formação técnica e das universidades do país. E longe, muito longe das empresas que buscam na China a chance de produzir barato. “Muitas multinacionais encontram problemas para contratar profissionais lá”, constata Thomaz Machado, sócio da China Invest, consultoria que aproxima empresários brasileiros e chineses.

Por enquanto, o problema é mais crítico nas empresas que precisam contratar gerentes para departamentos estratégicos, como o financeiro e o administrativo. Hoje, pouco mais de 1% da população chinesa tem curso superior. No Brasil, onde a falta de qualificação da mão-de-obra ainda é considerada um gargalo para o desenvolvimento, o índice é de 3,4%. Nos países desenvolvidos, chega a 30%. A consultoria McKinsey estima que existam na China menos de 5 mil administradores com cacife para trabalhar nas multinacionais. É quase nada comparado à demanda local. A própria McKinsey projeta que, nos próximos cinco anos, 75 mil vagas serão abertas no país para esses profissionais. “As multinacionais são obrigadas a levar executivos de seus países de origem para ocupar cargos estratégicos na China”, explica Rodrigo Maciel, sócio da Veirano Advogados e especialista no mercado chinês.

Aos poucos, porém, começa a faltar funcionários também no “chão de fábrica”. A demanda é tão grande que muitas indústrias não conseguem mais encontrar operários para a linha de produção. O setor da construção civil é um dos que mais sofrem. No início deste ano, a província de Guangdong, ao sul do país, foi obrigada a interromper a construção de algumas estradas simplesmente porque faltaram pedreiros para dar conta do recado. O governo local teve de treinar pessoas às pressas e recrutar trabalhadores em outras regiões.

Combinada com a superoferta de empregos, a escassez de profissionais está inflacionando os salários – que, até agora, eram o grande atrativo para as empresas que abrem as portas na China. No ano passado, para atrair bons profissionais, as companhias aceitaram aumentar a remuneração dos trabalhadores em até 8,4%, segundo a consultoria Hewitt Associates. O reajuste supera a média anual de 6% registrada no país ao longo da última década. “Com um mercado aquecido, já começa a haver uma ‘guerra’ por funcionários”, diz Machado, da China Invest.

Nas ruas de Beijing, para qualquer lado que se olhe, lá estão elas: as gruas. No topo de cada prédio em construção, elas formam a paisagem de um dos países que mais investem em infra-estrutura no mundo. Ao todo, 5% do PIB é aplicado em novas estradas, portos e outras obras que ajudam a pavimentar o desenvolvimento da China. À primeira vista, o cenário leva a crer que o país está longe de enfrentar gargalos como os que existem no Brasil – onde faltam estradas até mesmo para escoar a produção agrícola. Engano: mesmo com investimentos pesados, os chineses já não conseguem mais prover infra-estrutura suficiente para uma economia que cresce quase 10% ao ano.

O gargalo mais preocupante é energético. Em Xangai, um dos principais centros industriais do país, algumas fábricas são obrigadas a reduzir sua produção nos horários de pico para poupar energia. Outras precisam transferir as atividades para os finais de semana ou produzir durante a madrugada, quando o consumo é mais baixo. “O crescimento da China pode ficar ameaçado caso não sejam erguidas novas geradoras em breve”, alerta Durval de Noronha, diretor da Noronha Advogados e especialista em comércio internacional. A conta para evitar um apagão é salgada: o governo de lá estima que será necessário construir 30 novas usinas nucleares até 2016 para sustentar a expansão de sua economia. Se cada uma delas custar o mesmo que Angra III, o polêmico projeto que o governo brasileiro tenta erguer no Rio de Janeiro, a China irá desembolsar US$ 75 bilhões em energia em apenas dez anos.

Outro fator que atrapalha quem busca negócios no gigante asiático são as péssimas condições de infra-estrutura nas zonas rurais, onde vive 60% da população. Em algumas cidades dessas regiões, como Chengdu e Chongqing, localizadas no centro-oeste do país, a precariedade das estradas e as péssimas condições de comunicação e armazenagem afugentam os investidores. Além disso, a China enfrenta problemas no seu aparelhamento logístico. O controle das mercadorias que chegam pelas rodovias para serem embarcadas nos portos e aeroportos, por exemplo, ainda é realizado manualmente. Nos países desenvolvidos, o processo é feito por softwares e leitores de códigos de barras – muito mais produtivos. As conseqüências são velhas conhecidas dos brasileiros: filas quilométricas de caminhões nas estradas. E aviões que passam horas no chão, esperando a liberação das suas cargas. “Um dos grandes desafios da China para manter o atual nível de crescimento é adequar sua infra-estrutura à forte atividade industrial”, entende Nilson de Paula, professor de Economia da Universidade Federal do Paraná.

É verdade que a China está de portas abertas para as multinacionais que produzem manufaturados de exportação – como têxteis, brinquedos, calçados e eletrodomésticos. É justamente nesses mercados, aliás, que o dragão asiático tem mostrado suas garras. Mas isso não significa que o país seja um oásis no qual todos os negócios florescem facilmente. Ao contrário: em alguns setores considerados “estratégicos” pelo governo chinês, os investidores não têm a menor folga. Qualquer empreendimento que visa a atender o mercado interno da China tem de ser feito necessariamente em sociedade com o Estado – cujos processos de negociação costumam ser extremamente burocráticos. Um exemplo é o setor de aviação. A Aeromot, fabricante de pequenos aviões agrícolas, tenta negociar há quatro anos a criação de uma joint venture com os chineses. O negócio nem é tão ousado: na prática, a Aeromot deterá apenas 25% do empreendimento. “Nós não entraremos com nenhum capital. Só com a nossa tecnologia”, explica Cláudio Viana, diretor-presidente da empresa. Mesmo assim, o andamento do projeto é complicado. Viana relata que os chineses costumam ir às reuniões em grupos de até dez pessoas. E todos, sem exceção, discutem cada ponto do contrato. “Quando o negócio envolve mais de um setor, eles mandam um representante de cada área”, conta. No caso da Aeromot, os pequenos aviões serão usados em treinamentos militares. A China está interessada em aprender como fabricá-los – e faz questão de controlar a operação produtiva.

Mesmo as empresas que desejam somente vender produtos na China têm de se submeter aos seus rituais de negócios. Para entrar nos supermercados chineses, por exemplo, a Perdigão tem de passar constantemente por várias inspeções em suas plantas produtivas no Brasil. Além disso, precisa se adaptar ao jeito asiático de fechar acordos –baseado na confiança e na empatia entre as partes. “As negociações são longas. Para chegar ao conhecimento mútuo, se passa por várias e longas refeições e muitas visitas para a troca de informações”, relata Marta Ikeda, gerente de vendas externas da Perdigão. Para Ricardo Carvalho, sócio da área de Corporate Finance da Deloitte, a chave para o sucesso está no “guanxi” – que pode ser traduzido como “conexões pessoais fortes”. Para os chineses, as relações de amizade e a formação de um “grupo” são de extrema importância. “É uma questão de cultura. Tudo acontece na base do relacionamento”, considera Carvalho.

 

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