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      Edição 220 - Maio de 2006
 

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Uma análise cuidadosa revela que ainda se imagina muito – mas se sabe pouco – a respeito da maior potência emergente do planeta

Erik Farina e Simone Fernandes

Quando adquiriu a divisão de PCs da IBM por US$ 1,75 bilhão, em dezembro de 2004, a Lenovo não só fechou um grande negócio como também mostrou ao mundo um aspecto menos visível da China – o lado empreendedor. Numa única manobra, os chineses fizeram despontar por trás de suas muralhas a terceira maior fabricante de computadores do planeta, com uma receita anual de aproximadamente US$ 12 bilhões e uma tropa de 19 mil funcionários. Está certo que o país já vinha assombrando o mundo com seu crescimento anual de 9% ao ano. Mas o fato é que, até então, muita gente pensava que o dragão asiático era tão somente uma imensa linha de produção na qual Nike, GAP, Nokia e outras grifes iam buscar mão-de-obra barata. Estavam enganados. Mais do que nunca, a China também está disposta a crescer com suas próprias marcas em mercados tão disputados quanto os de hardware, de eletrodomésticos e até de automóveis.

O episódio da Lenovo também deixou uma lição: qualquer tipo de generalização é perigosa a respeito de um país com mais de 1,3 bilhão de habitantes e que, em apenas duas décadas, tornou-se a maior potência emergente do planeta. Hoje, parte do que se fala a respeito da China não passa de mito ou, na melhor das hipóteses, uma meia verdade. Exemplo disso são as condições de trabalho. De Xangai, na costa mais desenvolvida do país, até Lhasa, no interior da região autônoma do Tibet, encontra-se de tudo. Desde trabalhadores que costuram bolas de futebol em troca de um salário de subsistência até executivos de alta renda, que cumprem expediente em companhias de atuação internacional. “A China é um fenômeno. Seu crescimento não decorre de um planejamento claro, baseado em teorias econômicas conhecidas, mas de uma experiência milenar de ensaio e erro”, explica Henrique Altemani de Oliveira, economista da PUC-SP.

É claro que, hoje, comparar a China com qualquer outro país é um despropósito. Tudo que tem a ver com o mercado chinês está fora da medida. Só no ano passado, o país recebeu US$ 60 bilhões em investimentos estrangeiros diretos – quatro vezes mais do que o Brasil. Desde 1984, o crescimento econômico tirou da linha da pobreza cerca de 400 milhões de chineses, mais do que toda a população da América do Sul. Não por acaso, um estudo do banco norte-americano Goldman Sachs projeta que, até 2040, a China deverá ultrapassar os Estados Unidos e se tornar o principal motor econômico do mundo. O prognóstico, diga-se de passagem, não é dos mais otimistas – leva em conta a possibilidade de o crescimento chinês se reduzir à metade no período. Tudo isso em um Estado que ainda preserva traços da velha China de Mao: que se recusa a adotar eleições diretas para presidente; que censura jornais e bloqueia até pesquisas na internet sobre termos como “democracia” e “Praça da Paz Celestial”.

O cenário assusta e, ao mesmo tempo, enriquece a galeria de mitos em torno da China. A questão da censura é exemplar. Que o Estado viola direitos básicos da sociedade chinesa, ninguém discute. Mas, como se pode ver nas próximas páginas, é errado pensar que não existem vestígios de democracia no terceiro maior país do mundo. “Mesmo sem uma democracia aberta, eles conseguem criar um ambiente muito favorável aos negócios”, relata a AMANHÃ o economista indiano Oded Shenkar, autor de O Século da China, editado no Brasil pela Bookman. Nesta reportagem especial, AMANHÃ apresenta oito mitos já amplamente difundidos sobre a economia chinesa e algumas de suas princiais características. E mostra que, no final das contas, ainda é cedo para superestimar (e também subestimar) o poderio do milenar dragão asiático.

 

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