| Quando adquiriu a divisão de PCs da IBM por
US$ 1,75 bilhão, em dezembro de 2004, a Lenovo não só
fechou um grande negócio como também mostrou ao mundo
um aspecto menos visível da China – o lado empreendedor.
Numa única manobra, os chineses fizeram despontar por trás
de suas muralhas a terceira maior fabricante de computadores do planeta,
com uma receita anual de aproximadamente US$ 12 bilhões e uma
tropa de 19 mil funcionários. Está certo que o país
já vinha assombrando o mundo com seu crescimento anual de 9%
ao ano. Mas o fato é que, até então, muita gente
pensava que o dragão asiático era tão somente uma
imensa linha de produção na qual Nike, GAP, Nokia e outras
grifes iam buscar mão-de-obra barata. Estavam enganados. Mais
do que nunca, a China também está disposta a crescer com
suas próprias marcas em mercados tão disputados quanto
os de hardware, de eletrodomésticos e até de
automóveis.
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O episódio da Lenovo também deixou uma
lição: qualquer tipo de generalização é
perigosa a respeito de um país com mais de 1,3 bilhão
de habitantes e que, em apenas duas décadas, tornou-se a maior
potência emergente do planeta. Hoje, parte do que se fala a respeito
da China não passa de mito ou, na melhor das hipóteses,
uma meia verdade. Exemplo disso são as condições
de trabalho. De Xangai, na costa mais desenvolvida do país, até
Lhasa, no interior da região autônoma do Tibet, encontra-se
de tudo. Desde trabalhadores que costuram bolas de futebol em troca
de um salário de subsistência até executivos de
alta renda, que cumprem expediente em companhias de atuação
internacional. “A China é um fenômeno. Seu crescimento
não decorre de um planejamento claro, baseado em teorias econômicas
conhecidas, mas de uma experiência milenar de ensaio e erro”,
explica Henrique Altemani de Oliveira, economista da PUC-SP.
É claro que, hoje, comparar a China com qualquer
outro país é um despropósito. Tudo que tem a ver
com o mercado chinês está fora da medida. Só no
ano passado, o país recebeu US$ 60 bilhões em investimentos
estrangeiros diretos – quatro vezes mais do que o Brasil. Desde
1984, o crescimento econômico tirou da linha da pobreza cerca
de 400 milhões de chineses, mais do que toda a população
da América do Sul. Não por acaso, um estudo do banco norte-americano
Goldman Sachs projeta que, até 2040, a China deverá ultrapassar
os Estados Unidos e se tornar o principal motor econômico do mundo.
O prognóstico, diga-se de passagem, não é dos mais
otimistas – leva em conta a possibilidade de o crescimento chinês
se reduzir à metade no período. Tudo isso em um Estado
que ainda preserva traços da velha China de Mao: que se recusa
a adotar eleições diretas para presidente; que censura
jornais e bloqueia até pesquisas na internet sobre termos como
“democracia” e “Praça da Paz Celestial”.
O cenário assusta e, ao mesmo tempo, enriquece
a galeria de mitos em torno da China. A questão da censura é
exemplar. Que o Estado viola direitos básicos da sociedade chinesa,
ninguém discute. Mas, como se pode ver nas próximas páginas,
é errado pensar que não existem vestígios de democracia
no terceiro maior país do mundo. “Mesmo sem uma democracia
aberta, eles conseguem criar um ambiente muito favorável aos
negócios”, relata a AMANHÃ o economista indiano
Oded Shenkar, autor de O Século da China, editado no
Brasil pela Bookman. Nesta reportagem especial, AMANHÃ apresenta
oito mitos já amplamente difundidos sobre a economia chinesa
e algumas de suas princiais características. E mostra que, no
final das contas, ainda é cedo para superestimar (e também
subestimar) o poderio do milenar dragão asiático.
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