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      Edição 216 - Dezembro de 2005
 

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A rede norte-americana confirma a aquisição das unidades
do Sonae e causa rebuliço entre os varejistas do Sul


Marcos Graciani

No início de novembro, os rumores se confirmaram: a maior empresa de varejo do mundo está mesmo chegando ao Rio Grande do Sul – e, além disso, tem planos de aportar em Santa Catarina, nos próximos anos. Desde julho, circulavam boatos de que o colosso norte-americano Wal-Mart compraria as 141 unidades da portuguesa Sonae no Brasil. Com isso, a multinacional fincaria sua bandeira em diversas cidades gaúchas e catarinenses, além de fortalecer sua presença no Paraná, onde já atua desde o final da década de 90. Por meses, muito se comentou sobre a possível negociação. Mas a concretização do acordo só ocorreu na metade de dezembro, em uma reunião realizada em São Paulo. Por cerca de 700 milhões de euros – o equivalente a R$ 1,89 bilhão –, as lojas do Sonae passaram definitivamente às mãos do Wal-Mart. Trata-se de uma notícia de impacto. Graças a seu extraordinário poder de barganha, a multinacional norte-americana deve quebrar paradigmas e causar comoção no mercado gaúcho e catarinense, tal como aconteceu no Paraná.

 
  Trius: plano era começar por Santa Catarina
   

Durante o anúncio, Vicente Trius, diretor-presidente da rede no país, afirmou que a multinacional está comprando terrenos em Canoas, Novo Hamburgo e em uma terceira cidade não identificada – todas na Região Metropolitana de Porto Alegre. Em cada uma delas, deveria ser inaugurado um hipermercado da marca Supercenter – uma das bandeiras controladas pelo Wal-Mart no Brasil. Houve quem colocasse em dúvida as afirmações de Trius. “Quando a multinacional resolver, de fato, construir uma loja em Canoas, nós saberemos, pois o projeto tem de passar pela prefeitura”, opina João Pierotto, titular da Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Canoas. Além do mais, a compra desses terrenos seria desnecessária, já que a negociação com a Sonae foi concretizada. Na opinião de alguns membros do setor, os anúncios de Trius seriam apenas uma maneira de desviar a atenção do acordo com a rede portuguesa.

Segundo uma corretora ligada ao varejo no Sul, o projeto inicial do Wal-Mart era investir em Florianópolis e Joinville. Já em 2004, a rede estaria estudando a possibilidade de abrir unidades nos dois municípios. O avanço teria sido travado por uma disparada nos preços dos terrenos catarinenses, causada por um vazamento de informações: ao descobrir que o comprador era o poderoso Wal-Mart, o proprietário de uma das áreas passou a exigir extraordinários R$ 32 milhões – o valor original era de R$ 7 milhões. Com o fracasso da investida em Santa Catarina, a rede teria optado pelo mercado gaúcho. Procurado por AMANHÃ, o Wal-Mart negou essas informações, mas admitiu que o mercado catarinense está nos seus planos.

Supercenter na Vila Guilherme, em São Paulo: agora, prioridade é a expansão na Região Sul

Lei Zaffari – Determinar com exatidão quais as intenções do Wal-Mart não é tarefa fácil – afinal de contas, o conglomerado é conhecido por manter discrição total em relação às suas estratégias. No entanto, uma coisa se pode dizer com certeza: mesmo assumindo os ativos do Sonae, a rede teria bons motivos para procurar terrenos na zona metropolitana de Porto Alegre em vez de adquiri-los dentro da capital. Isso porque a cidade conta com uma lei que limita a construção de novos supermercados a 2,5 mil metros quadrados – um quarto do espaço necessário para se abrir uma loja da bandeira Supercenter, por exemplo.

 
   

"O bicho não é tão feio assim. Mas cada vez mais temos de atender bem os clientes para não entregar a rapadura"

Adelino Colombo,
presidente da Lojas Colombo

 
   

Criada em 2001, pelo vereador João Motta (PT), a lei tinha o objetivo de defender o comércio porto-alegrense contra grandes empresas. Na prática, a regra favorece qualquer rede tradicional de varejo da capital gaúcha, dificultando a entrada de concorrentes de peso. Tanto é que, entre os varejistas locais, a medida ganhou o apelido de “Lei Zaffari” – referência à célebre rede familiar de supermercados de Porto Alegre. Motta inspirou-se em experiências feitas na França, Espanha e Argentina, onde alguns municípios restringiram a entrada de grandes companhias nos espaços urbanos. “A lei é protecionista, sim. A grande pauta da OMC (Organização Mundial do Comércio) não é proteger o comércio? Pois é exatamente o que fizemos em Porto Alegre”, assume Motta.

Logo, para entrar na capital gaúcha sem se enredar na Lei Zaffari, a única opção do Wal-Mart é, precisamente, adquirir unidades que já existem – pois a diretriz diz respeito apenas à construção de novas lojas. Isso explica o interesse na compra do Sonae. Os terrenos na Grande Porto Alegre seriam apenas um “complemento”.


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