| Marcos
Graciani

No início de novembro, os
rumores se confirmaram: a maior empresa de varejo
do mundo está mesmo chegando ao Rio Grande
do Sul – e, além disso, tem planos
de aportar em Santa Catarina, nos próximos
anos. Desde julho, circulavam boatos de que o
colosso norte-americano Wal-Mart compraria as
141 unidades da portuguesa Sonae no Brasil. Com
isso, a multinacional fincaria sua bandeira em
diversas cidades gaúchas e catarinenses,
além de fortalecer sua presença
no Paraná, onde já atua desde o
final da década de 90. Por meses, muito
se comentou sobre a possível negociação.
Mas a concretização do acordo só
ocorreu na metade de dezembro, em uma reunião
realizada em São Paulo. Por cerca de 700
milhões de euros – o equivalente
a R$ 1,89 bilhão –, as lojas do Sonae
passaram definitivamente às mãos
do Wal-Mart. Trata-se de uma notícia de
impacto. Graças a seu extraordinário
poder de barganha, a multinacional norte-americana
deve quebrar paradigmas e causar comoção
no mercado gaúcho e catarinense, tal como
aconteceu no Paraná.
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Trius: plano
era começar por Santa Catarina |
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Durante o anúncio, Vicente Trius, diretor-presidente
da rede no país, afirmou que a multinacional está
comprando terrenos em Canoas, Novo Hamburgo e em uma terceira
cidade não identificada – todas na Região
Metropolitana de Porto Alegre. Em cada uma delas, deveria ser
inaugurado um hipermercado da marca Supercenter – uma das
bandeiras controladas pelo Wal-Mart no Brasil. Houve quem colocasse
em dúvida as afirmações de Trius. “Quando
a multinacional resolver, de fato, construir uma loja em Canoas,
nós saberemos, pois o projeto tem de passar pela prefeitura”,
opina João Pierotto, titular da Secretaria de Desenvolvimento
Econômico de Canoas. Além do mais, a compra desses
terrenos seria desnecessária, já que a negociação
com a Sonae foi concretizada. Na opinião de alguns membros
do setor, os anúncios de Trius seriam apenas uma maneira
de desviar a atenção do acordo com a rede portuguesa.
Segundo uma corretora ligada ao
varejo no Sul, o projeto inicial do Wal-Mart era
investir em Florianópolis e Joinville.
Já em 2004, a rede estaria estudando a
possibilidade de abrir unidades nos dois municípios.
O avanço teria sido travado por uma disparada
nos preços dos terrenos catarinenses, causada
por um vazamento de informações:
ao descobrir que o comprador era o poderoso Wal-Mart,
o proprietário de uma das áreas
passou a exigir extraordinários R$ 32 milhões
– o valor original era de R$ 7 milhões.
Com o fracasso da investida em Santa Catarina,
a rede teria optado pelo mercado gaúcho.
Procurado por AMANHÃ, o Wal-Mart negou
essas informações, mas admitiu que
o mercado catarinense está nos seus planos.
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| Supercenter na Vila Guilherme,
em São Paulo: agora, prioridade é
a expansão na Região Sul |
Lei Zaffari – Determinar
com exatidão quais as intenções
do Wal-Mart não é tarefa fácil
– afinal de contas, o conglomerado é
conhecido por manter discrição total
em relação às suas estratégias.
No entanto, uma coisa se pode dizer com certeza:
mesmo assumindo os ativos do Sonae, a rede teria
bons motivos para procurar terrenos na zona metropolitana
de Porto Alegre em vez de adquiri-los dentro da
capital. Isso porque a cidade conta com uma lei
que limita a construção de novos
supermercados a 2,5 mil metros quadrados –
um quarto do espaço necessário para
se abrir uma loja da bandeira Supercenter, por
exemplo.
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"O bicho não
é tão feio assim. Mas cada
vez mais temos de atender bem os clientes
para não entregar a rapadura"
Adelino Colombo,
presidente da Lojas Colombo |
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Criada em 2001, pelo vereador João
Motta (PT), a lei tinha o objetivo de defender
o comércio porto-alegrense contra grandes
empresas. Na prática, a regra favorece
qualquer rede tradicional de varejo da capital
gaúcha, dificultando a entrada de concorrentes
de peso. Tanto é que, entre os varejistas
locais, a medida ganhou o apelido de “Lei
Zaffari” – referência à
célebre rede familiar de supermercados
de Porto Alegre. Motta inspirou-se em experiências
feitas na França, Espanha e Argentina,
onde alguns municípios restringiram a entrada
de grandes companhias nos espaços urbanos.
“A lei é protecionista, sim. A grande
pauta da OMC (Organização Mundial
do Comércio) não é proteger
o comércio? Pois é exatamente o
que fizemos em Porto Alegre”, assume Motta.
Logo, para entrar na capital gaúcha
sem se enredar na Lei Zaffari, a única
opção do Wal-Mart é, precisamente,
adquirir unidades que já existem –
pois a diretriz diz respeito apenas à construção
de novas lojas. Isso explica o interesse na compra
do Sonae. Os terrenos na Grande Porto Alegre seriam
apenas um “complemento”.
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