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      Edição 216 - Dezembro de 2005
 

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Criador de um conceito que adota o Balanced Scorecard na gestão de carreiras, Hubert Rampersad garante: no novo mundo do trabalho, a competência mais importante é a autodisciplina

 
Andreas Müller

Atualmente vivendo na Holanda, o consultor Hubert Rampersad vem fazendo sucesso no mundo todo com seu conceito de Total Performance Scorecard, mais conhecido como TPS. Trata-se de uma “evolução” do Balanced Scorecard. Para Rampersad, a consagrada ferramenta de planejamento estratégico pecava por deixar de fora, em suas perspectivas de monitoramento, a preocupação com o capital humano. “É um negócio chato. É blablablá”, dispara ele. Autor de Scorecard para Performance Total, lançado no Brasil pela Elsevier, Rampersad recebeu AMANHÃ durante uma visita à Escola Superior de Administração, Direito e Economia (Esade), em Porto Alegre. E revelou como o seu conceito está ajudando a “salvar casamentos”.

Um dos grandes desafios do mundo corporativo é aliar a carreira a uma vida saudável. Qual é a sua receita para evitar que o trabalho afete a vida pessoal?
Primeiramente, é preciso estabelecer uma regra: se você está feliz em casa, você estará feliz na sua empresa – e sua performance será melhor. Para que isso seja colocado em prática, não se deve pensar separadamente a “vida pessoal” da “vida profissional”. As duas esferas se referem ao mesmo indivíduo. Se você está infeliz em casa, você não conseguirá se sair bem no trabalho. E vice-versa. Os dois lados devem trazer realização.

Como o Total Perfomance Scorecard (TPS), a ferramenta que você criou, ajuda a equilibrar essa equação?
Recentemente, em Amsterdã, eu conheci um consultor de empresas, chamado Jack Johnson, em um dos seminários que promovemos por lá. Ele tinha problemas em casa: não dispunha mais de tempo para ficar com os filhos, e a esposa já começava a reclamar de suas ausências prolongadas. Ao mesmo tempo, seus negócios não iam bem – e tampouco sua saúde. Ele começou a engordar e ter problemas de ansiedade. Até que ele decidiu organizar esse caos, e fez isso utilizando o TPS. Tal como uma empresa que elabora o seu Balanced Scorecard, ele formulou sua missão, sua visão e os valores de sua vida pessoal. E depois elaborou uma tabela bastante complexa para monitorar os pontos cruciais na busca de sua missão, visão e valores.

Mas nas empresas o Balanced Scorecard é utilizado para monitorar coisas tangíveis: a produtividade, a quantidade de insumos utilizados etc. O que se pode medir em um BSC da vida pessoal? Seria algo como “quantos beijos dei na minha esposa hoje”?
Tudo que você faz e que ajuda a aproximá-lo de sua visão e missão pode ser colocado no papel. O acompanhamento deve ser diário e exige muita disciplina. Você precisa ser muito pró-ativo para gerenciar a si próprio. No caso de Jack Johnson, o objetivo era o de se reaproximar da família. Então ele começou a medir uma série de fatores: o tempo que dedicava à esposa e aos filhos, o número de conversas diárias com a esposa, o número de abraços dados nos filhos etc. Em resumo, ele começou a avaliar como se saía em fatores que o levavam a ser um bom pai e um bom marido.

Cada vez mais pessoas trabalham em casa ou com o chamado horário flexível. Você acredita que isso ajuda a melhorar a qualidade de vida?
Esse é um fenômeno interessante. Por causa da internet, você pode trabalhar dia e noite de forma ininterrupta, mas sem se distanciar fisicamente de sua família. No entanto, é preciso ter controle. Quando os limites entre trabalho e família se apagam, só conseguem se sobressair aqueles que têm capacidade de auto-gerenciamento. Para trabalhar em casa, você não pode esperar que alguém chegue e diga o que deve ser feito. A tarefa é mais ampla: você mesmo é que precisa ter essa disciplina. Veja o meu caso: eu vôo pelo mundo inteiro todas as semanas. Daqui do Brasil, irei para Portugal, depois para a Rússia, depois Romênia e, posteriormente, terei de retornar à Rússia. Mas eu estou controlando meu tempo. Não preciso de um chefe me dizendo o que fazer ou deixar de fazer. Eu preciso apenas da minha própria capacidade de auto-gerenciamento. De resto, tudo que os outros podem me oferecer é um bom e honesto feedback.

Sua esposa não reclama de suas viagens e das semanas que você fica fora de casa?
Minha mulher entende perfeitamente a minha missão. Pois é a atividade que amo. É o meu sonho. Eu faço isso porque quero ver as pessoas mais felizes. Além disso, minha mulher também aceita a minha missão porque, convenhamos, estou fazendo dinheiro com isso... (risos).

Uma planilha pode mesmo ter um efeito tão positivo no cotidiano das pessoas?
Não se trata apenas de preencher uma planilha. A planilha, sozinha, não tem efeito. Você precisa utilizá-la como um meio de obter mais energia. Como um meio de gerenciar seu tempo com maior clareza e buscar seus objetivos pessoais. O TPS é um método, não uma panacéia. Quando bem utilizada, produz resultados impressionantes. Do contrário, não funciona.

Qual o pecado mais comum que as pessoas cometem no gerenciamento de suas carreiras?
As pessoas perdem muito tempo. Elas não gerenciam seu tempo de maneira inteligente, pois é difícil se gerenciar aquilo que não se enxerga. É preciso usar o tempo com inteligência. Em vez de assistir a TV, ficar com a família, dedicar tempo às coisas que são realmente importantes. Eu costumo dizer que estou salvando casamentos...

Não é estranho esperar que uma ferramenta de negócios objetiva e complexa como o Balanced Scorecard ajude a salvar casamentos?
De fato, o BSC tem esse problema: trata apenas da parte “inanimada” dos negócios. Quando falamos em Balanced Scorecard, pensamos em algo muito chato. Números, planejamento, contabilidade... Isso é chato. É frio. Precisávamos integrar o fator humano a essa ferramenta. E é o que venho tentando fazer.

“Quando falamos em Balanced Scorecard, pensamos em algo muito chato: números, contabilidade...
Eu tento agregar fatores mais humanos ao método”

Quer dizer que o Balanced Scorecard é uma ferramenta incompleta?
O método tem qualidades. Eu aprendi muito com o BSC. Aprendi com Stephen Covey, com Kaplan Norton, com Peter Senge... Eu aprendi muito com esses caras. Mas, depois que eu li os livros deles, eu pensei: “Não, está faltando alguma coisa aqui”. Para mim, aquilo não era concreto. Era nebuloso. Era blablablá. Não havia vínculo com meus anseios pessoais. E esse foi o meu achado. Eu vi que não havia integração entre o BSC e minha vida pessoal. E desde então essa tem sido a minha paixão, a minha obsessão: encontrar o equilíbrio. Minha missão é tornar as empresas e as pessoas mais felizes.

 

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