| Atualmente vivendo na Holanda,
o consultor Hubert Rampersad vem fazendo sucesso
no mundo todo com seu conceito de Total Performance
Scorecard, mais conhecido como TPS. Trata-se de
uma “evolução” do Balanced
Scorecard. Para Rampersad, a consagrada ferramenta
de planejamento estratégico pecava por
deixar de fora, em suas perspectivas de monitoramento,
a preocupação com o capital humano.
“É um negócio chato. É
blablablá”, dispara ele. Autor de
Scorecard para Performance Total, lançado
no Brasil pela Elsevier, Rampersad recebeu AMANHÃ
durante uma visita à Escola Superior de
Administração, Direito e Economia
(Esade), em Porto Alegre. E revelou como o seu
conceito está ajudando a “salvar
casamentos”.
Um dos grandes desafios do mundo corporativo
é aliar a carreira a uma vida saudável.
Qual é a sua receita para evitar que o
trabalho afete a vida pessoal?
Primeiramente, é preciso estabelecer
uma regra: se você está feliz em
casa, você estará feliz na sua empresa
– e sua performance será melhor.
Para que isso seja colocado em prática,
não se deve pensar separadamente a “vida
pessoal” da “vida profissional”.
As duas esferas se referem ao mesmo indivíduo.
Se você está infeliz em casa, você
não conseguirá se sair bem no trabalho.
E vice-versa. Os dois lados devem trazer realização.
Como o Total Perfomance Scorecard (TPS),
a ferramenta que você criou, ajuda a equilibrar
essa equação?
Recentemente, em Amsterdã, eu conheci um
consultor de empresas, chamado Jack Johnson, em
um dos seminários que promovemos por lá.
Ele tinha problemas em casa: não dispunha
mais de tempo para ficar com os filhos, e a esposa
já começava a reclamar de suas ausências
prolongadas. Ao mesmo tempo, seus negócios
não iam bem – e tampouco sua saúde.
Ele começou a engordar e ter problemas
de ansiedade. Até que ele decidiu organizar
esse caos, e fez isso utilizando o TPS. Tal como
uma empresa que elabora o seu Balanced Scorecard,
ele formulou sua missão, sua visão
e os valores de sua vida pessoal. E depois elaborou
uma tabela bastante complexa para monitorar os
pontos cruciais na busca de sua missão,
visão e valores.
Mas nas empresas o Balanced Scorecard
é utilizado para monitorar coisas tangíveis:
a produtividade, a quantidade de insumos utilizados
etc. O que se pode medir em um BSC da vida pessoal?
Seria algo como “quantos beijos dei na minha
esposa hoje”?
Tudo que você faz e que ajuda a aproximá-lo
de sua visão e missão pode ser colocado
no papel. O acompanhamento deve ser diário
e exige muita disciplina. Você precisa ser
muito pró-ativo para gerenciar a si próprio.
No caso de Jack Johnson, o objetivo era o de se
reaproximar da família. Então ele
começou a medir uma série de fatores:
o tempo que dedicava à esposa e aos filhos,
o número de conversas diárias com
a esposa, o número de abraços dados
nos filhos etc. Em resumo, ele começou
a avaliar como se saía em fatores que o
levavam a ser um bom pai e um bom marido.
Cada vez mais pessoas trabalham em casa
ou com o chamado horário flexível.
Você acredita que isso ajuda a melhorar
a qualidade de vida?
Esse é um fenômeno interessante.
Por causa da internet, você pode trabalhar
dia e noite de forma ininterrupta, mas sem se
distanciar fisicamente de sua família.
No entanto, é preciso ter controle. Quando
os limites entre trabalho e família se
apagam, só conseguem se sobressair aqueles
que têm capacidade de auto-gerenciamento.
Para trabalhar em casa, você não
pode esperar que alguém chegue e diga o
que deve ser feito. A tarefa é mais ampla:
você mesmo é que precisa ter essa
disciplina. Veja o meu caso: eu vôo pelo
mundo inteiro todas as semanas. Daqui do Brasil,
irei para Portugal, depois para a Rússia,
depois Romênia e, posteriormente, terei
de retornar à Rússia. Mas eu estou
controlando meu tempo. Não preciso de um
chefe me dizendo o que fazer ou deixar de fazer.
Eu preciso apenas da minha própria capacidade
de auto-gerenciamento. De resto, tudo que os outros
podem me oferecer é um bom e honesto feedback.
Sua esposa não reclama de suas
viagens e das semanas que você fica fora
de casa?
Minha mulher entende perfeitamente a minha missão.
Pois é a atividade que amo. É o
meu sonho. Eu faço isso porque quero ver
as pessoas mais felizes. Além disso, minha
mulher também aceita a minha missão
porque, convenhamos, estou fazendo dinheiro com
isso... (risos).
Uma planilha pode mesmo ter um efeito
tão positivo no cotidiano das pessoas?
Não se trata apenas de preencher uma planilha.
A planilha, sozinha, não tem efeito. Você
precisa utilizá-la como um meio de obter
mais energia. Como um meio de gerenciar seu tempo
com maior clareza e buscar seus objetivos pessoais.
O TPS é um método, não uma
panacéia. Quando bem utilizada, produz
resultados impressionantes. Do contrário,
não funciona.
Qual o pecado mais comum que as pessoas
cometem no gerenciamento de suas carreiras?
As pessoas perdem muito tempo. Elas não
gerenciam seu tempo de maneira inteligente, pois
é difícil se gerenciar aquilo que
não se enxerga. É preciso usar o
tempo com inteligência. Em vez de assistir
a TV, ficar com a família, dedicar tempo
às coisas que são realmente importantes.
Eu costumo dizer que estou salvando casamentos...
Não é estranho esperar
que uma ferramenta de negócios objetiva
e complexa como o Balanced Scorecard ajude a salvar
casamentos?
De fato, o BSC tem esse problema: trata apenas
da parte “inanimada” dos negócios.
Quando falamos em Balanced Scorecard, pensamos
em algo muito chato. Números, planejamento,
contabilidade... Isso é chato. É
frio. Precisávamos integrar o fator humano
a essa ferramenta. E é o que venho tentando
fazer.
“Quando falamos
em Balanced Scorecard, pensamos em algo
muito chato: números, contabilidade...
Eu tento agregar fatores mais humanos
ao método”
|
Quer dizer que o Balanced Scorecard é
uma ferramenta incompleta?
O método tem qualidades. Eu aprendi muito
com o BSC. Aprendi com Stephen Covey, com Kaplan
Norton, com Peter Senge... Eu aprendi muito com
esses caras. Mas, depois que eu li os livros deles,
eu pensei: “Não, está faltando
alguma coisa aqui”. Para mim, aquilo não
era concreto. Era nebuloso. Era blablablá.
Não havia vínculo com meus anseios
pessoais. E esse foi o meu achado. Eu vi que não
havia integração entre o BSC e minha
vida pessoal. E desde então essa tem sido
a minha paixão, a minha obsessão:
encontrar o equilíbrio. Minha missão
é tornar as empresas e as pessoas mais
felizes.
|