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Ao lado do batom e do creme hidrante,
as mulheres começam a carregar um novo
acessório: a carteira de ações.
Investimento de risco, até pouco, era assunto
exclusivo das rodas masculinas. Entre um charuto
e um uísque importado, investidores mais
requisitados se acostumaram a discutir seus portfolios
como se falassem de futebol, acreditando que fortaleciam
os laços de amizade em um universo tipicamente
masculino. Mas, como vem acontecendo no futebol
e em todas as atividades supostamente “para
homens”, as mulheres estão implodindo
mais este clube do bolinha. Conforme dados da
Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa),
o número de contas registradas por mulheres
na Companhia Brasileira de Liquidação
e Custódia (CBLC) não chegava a
10 mil há cinco anos. Hoje, são
mais de 28 mil – o que equivale a 16,5%
do total de quase 168 mil carteiras de ações.
Se em alguns casos as mulheres
invadem o universo masculino apenas para mostrar
que são capazes de desempenhar as mesmas
atividades, na bolsa de valores a motivação
é mais audaciosa: lucrar. Pouco a pouco,
as investidoras vêm mostrando excelente
faro para multiplicar rendimentos. A porto-alegrense
Valéria Stangherlin da Rosa, por exemplo,
procurou nos livros a porta de entrada do mercado
de capitais. Há cerca de um ano, a farmacêutica
bioquímica estudou minuciosamente o assunto.
“Tudo começou quando eu e meu marido
fizemos um curso de análise gráfica.
Ficamos muito entusiasmados com a possibilidade
de aumentar nossa rentabilidade”, revela
a neoinvestidora, que até então
depositava as economias apenas na velha e desgastada
poupança. Hoje, por meio de operações
no mercado financeiro, Valéria tira um
rendimento mensal de 3% a 5% sobre o total poupado.
“É possível fazer isso com
segurança”, garante. A tranqüilidade
no jogo de altos e baixos do pregão surge
em toques bem femininos. Na hora de tomar as decisões
mais difíceis, Valéria se inspira
em um diário pessoal, no qual anota todas
as movimentações na bolsa de valores.
“Eu registro tudo, inclusive o que eu estava
sentindo na hora em que realizei as operações.”
Não se trata de mero capricho. “O
mercado mexe com os nossos sentimentos. Os homens
não gostam de olhar para trás, mas
é essencial fazer esse feedback
para agir com a razão”, opina a investidora.
São estes cuidados –
e talvez alguma influência do onipresente
sexto sentido – que fazem as neófitas
se saírem tão bem no mercado de
ações. Segundo um relatório
do site financeiro britânico digitallook.com,
as mulheres são mais “cerebrais”
para cuidar do dinheiro e, assim, conseguem elaborar
carteiras melhores que a dos homens. Após
analisar 100 mil portfolios da Bolsa de Valores
de Londres, a pesquisa constatou que a média
de rendimento dos investimentos femininos é
maior do que a dos papéis masculinos. As
carteiras administradas por elas cresceram, em
média, mais de 10% entre julho de 2003
e julho de 2004. O resultado é superior
aos 7% obtidos pelo principal índice do
pregão britânico – o FSTE-100
– e aos 6% alcançados, na média,
pelos homens.
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| Valéria: renda
de até 5% ao ano e diário com
anotações do que sentiu na hora
de aplicar |
Segurança e família
– Rita Isabel Rocha, administradora
de empresas de Florianópolis (SC) é
outro exemplo de uma nova atitude feminina. Com
os olhos no futuro da família, ela passou
a diversificar os investimentos há 15 anos.
“Meus pais passaram aquela cultura de fazer
uma poupança para os filhos. Mas eu vi
que a poupança não era a melhor
alternativa”, explica. Rita cogitou a hipótese
de comprar imóveis no nome dos filhos.
“Logo desisti dessa possibilidade. Além
das questões burocráticas de imposto
de renda, depois seria difícil vender os
imóveis”, conta. “Prefiro a
possibilidade de uma desvalorização
à insignificância da poupança”,
resume.
O bom desempenho das mulheres no
mercado de ações parece enraizado
no instinto maternal, de proteção
dos bens familiares. Entre corretoras, é
unânime a opinião de que a mulher
busca segurança no investimento antes de
tudo. “Elas são mais protecionistas
e se preocupam com a família”, destaca
Altemir Farinhas, sócio-diretor da Global
Invest. A farmacêutica Valéria, a
mesma do diário financeiro, adotou o caderninho
justamente para se precaver e evitar escolhas
baseadas em impulso. “Não gosto de
arriscar muito. Meu objetivo é garantir
uma boa rentabilidade sem colocar em risco meu
patrimônio”, conta. Um dos mecanismos
de proteção que Valéria utiliza
é o stop. Através dele,
é possível preestabelecer uma ordem
automática de venda caso a ação
passe do limite de desvalorização
desejado. Assim, o investidor pode estipular o
quanto está disposto a perder e reduzir
seu risco.
O conservadorismo feminino para
investimentos aparece no perfil dos papéis
escolhidos. Geralmente, elas optam por ações
tradicionais, garante Clodoir Gabriel Vieira,
analista de investimentos da Souza Barros. “Elas
vão direto a grandes empresas, como Vale
do Rio Doce, Petrobras e Gerdau”, explica.
Outra característica das investidoras vem
dos tempos da escola: elas são alunas mais
aplicadas. “As mulheres não têm
vergonha de perguntar”, percebe Farinhas,
da Global Invest. Em contraste, homens desfilam
o habitual ar de auto-suficiência. “Eles
ouvem uma vez e já acham que entenderam”,
compara Farinhas. Com informação
e determinação, as mulheres parecem
ser também investidoras mais entusiasmadas
pelos papéis nos quais apostam, o que se
reflete diretamente na rentabilidade das decisões.
“A mulher vai ao supermercado e repara se
os produtos da empresa em que ela quer investir
estão bem posicionados. Se ela investe
em uma petroquímica, ela faz questão
de abastecer o carro no posto de gasolina dessa
empresa”, destaca Robert Dannenberg, presidente
da Tradenetwork, empresa que organizou a feira
de investimentos Expo Money entre 29 de setembro
e 1º de outubro, em São Paulo. Ao
montar o evento, Dannenberg sentiu a necessidade
de criar um espaço exclusivo para as mulheres.
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