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      Edição 214 - Outubro de 2005
 

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Embora avessas ao risco, as mulheres começam a ocupar
espaço no mercado de capitais – e com carteiras que
já superam a rentabilidade obtida pelos homens


Ao lado do batom e do creme hidrante, as mulheres começam a carregar um novo acessório: a carteira de ações. Investimento de risco, até pouco, era assunto exclusivo das rodas masculinas. Entre um charuto e um uísque importado, investidores mais requisitados se acostumaram a discutir seus portfolios como se falassem de futebol, acreditando que fortaleciam os laços de amizade em um universo tipicamente masculino. Mas, como vem acontecendo no futebol e em todas as atividades supostamente “para homens”, as mulheres estão implodindo mais este clube do bolinha. Conforme dados da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), o número de contas registradas por mulheres na Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC) não chegava a 10 mil há cinco anos. Hoje, são mais de 28 mil – o que equivale a 16,5% do total de quase 168 mil carteiras de ações.

Se em alguns casos as mulheres invadem o universo masculino apenas para mostrar que são capazes de desempenhar as mesmas atividades, na bolsa de valores a motivação é mais audaciosa: lucrar. Pouco a pouco, as investidoras vêm mostrando excelente faro para multiplicar rendimentos. A porto-alegrense Valéria Stangherlin da Rosa, por exemplo, procurou nos livros a porta de entrada do mercado de capitais. Há cerca de um ano, a farmacêutica bioquímica estudou minuciosamente o assunto. “Tudo começou quando eu e meu marido fizemos um curso de análise gráfica. Ficamos muito entusiasmados com a possibilidade de aumentar nossa rentabilidade”, revela a neoinvestidora, que até então depositava as economias apenas na velha e desgastada poupança. Hoje, por meio de operações no mercado financeiro, Valéria tira um rendimento mensal de 3% a 5% sobre o total poupado. “É possível fazer isso com segurança”, garante. A tranqüilidade no jogo de altos e baixos do pregão surge em toques bem femininos. Na hora de tomar as decisões mais difíceis, Valéria se inspira em um diário pessoal, no qual anota todas as movimentações na bolsa de valores. “Eu registro tudo, inclusive o que eu estava sentindo na hora em que realizei as operações.” Não se trata de mero capricho. “O mercado mexe com os nossos sentimentos. Os homens não gostam de olhar para trás, mas é essencial fazer esse feedback para agir com a razão”, opina a investidora.

São estes cuidados – e talvez alguma influência do onipresente sexto sentido – que fazem as neófitas se saírem tão bem no mercado de ações. Segundo um relatório do site financeiro britânico digitallook.com, as mulheres são mais “cerebrais” para cuidar do dinheiro e, assim, conseguem elaborar carteiras melhores que a dos homens. Após analisar 100 mil portfolios da Bolsa de Valores de Londres, a pesquisa constatou que a média de rendimento dos investimentos femininos é maior do que a dos papéis masculinos. As carteiras administradas por elas cresceram, em média, mais de 10% entre julho de 2003 e julho de 2004. O resultado é superior aos 7% obtidos pelo principal índice do pregão britânico – o FSTE-100 – e aos 6% alcançados, na média, pelos homens.

Valéria: renda de até 5% ao ano e diário com anotações do que sentiu na hora de aplicar

Segurança e família – Rita Isabel Rocha, administradora de empresas de Florianópolis (SC) é outro exemplo de uma nova atitude feminina. Com os olhos no futuro da família, ela passou a diversificar os investimentos há 15 anos. “Meus pais passaram aquela cultura de fazer uma poupança para os filhos. Mas eu vi que a poupança não era a melhor alternativa”, explica. Rita cogitou a hipótese de comprar imóveis no nome dos filhos. “Logo desisti dessa possibilidade. Além das questões burocráticas de imposto de renda, depois seria difícil vender os imóveis”, conta. “Prefiro a possibilidade de uma desvalorização à insignificância da poupança”, resume.

O bom desempenho das mulheres no mercado de ações parece enraizado no instinto maternal, de proteção dos bens familiares. Entre corretoras, é unânime a opinião de que a mulher busca segurança no investimento antes de tudo. “Elas são mais protecionistas e se preocupam com a família”, destaca Altemir Farinhas, sócio-diretor da Global Invest. A farmacêutica Valéria, a mesma do diário financeiro, adotou o caderninho justamente para se precaver e evitar escolhas baseadas em impulso. “Não gosto de arriscar muito. Meu objetivo é garantir uma boa rentabilidade sem colocar em risco meu patrimônio”, conta. Um dos mecanismos de proteção que Valéria utiliza é o stop. Através dele, é possível preestabelecer uma ordem automática de venda caso a ação passe do limite de desvalorização desejado. Assim, o investidor pode estipular o quanto está disposto a perder e reduzir seu risco.

O conservadorismo feminino para investimentos aparece no perfil dos papéis escolhidos. Geralmente, elas optam por ações tradicionais, garante Clodoir Gabriel Vieira, analista de investimentos da Souza Barros. “Elas vão direto a grandes empresas, como Vale do Rio Doce, Petrobras e Gerdau”, explica. Outra característica das investidoras vem dos tempos da escola: elas são alunas mais aplicadas. “As mulheres não têm vergonha de perguntar”, percebe Farinhas, da Global Invest. Em contraste, homens desfilam o habitual ar de auto-suficiência. “Eles ouvem uma vez e já acham que entenderam”, compara Farinhas. Com informação e determinação, as mulheres parecem ser também investidoras mais entusiasmadas pelos papéis nos quais apostam, o que se reflete diretamente na rentabilidade das decisões. “A mulher vai ao supermercado e repara se os produtos da empresa em que ela quer investir estão bem posicionados. Se ela investe em uma petroquímica, ela faz questão de abastecer o carro no posto de gasolina dessa empresa”, destaca Robert Dannenberg, presidente da Tradenetwork, empresa que organizou a feira de investimentos Expo Money entre 29 de setembro e 1º de outubro, em São Paulo. Ao montar o evento, Dannenberg sentiu a necessidade de criar um espaço exclusivo para as mulheres.

 


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