| Em Porto Alegre, pouco antes
de dar uma palestra na sede da Federação
das Associações Comerciais e de
Serviços do Rio Grande do Sul (Federasul),
o professor Flaviano Celaschi repetiu diversas
vezes: design é mais do que desenhar produtos.
Fundador do curso de Design da Universidade Politécnica
de Milão, Celaschi está empenhado
em fazer com que essa disciplina permeie todas
as esferas dos negócios. “O design
deve ser um fluído que atravessa as organizações
e seus processos”, defende ele, numa mistura
simpática de espanhol com italiano. No
Brasil, ele presta assessoria ao Centro de Design
da Unisinos, de São Leopoldo (RS). Lá,
tem a oportunidade de avaliar o nível de
competitividade do design brasileiro, como demonstrou
na seguinte entrevista a AMANHÃ.
Você é fundador de um curso
de design na Politécnica de Milão,
uma universidade que baseia todo o seu trabalho
na interdisciplinaridade. Existe alguma relação
entre o design e a administração
de empresas, a economia e outras disciplinas de
negócio?
Sim. É preciso compreender que o design
é um movimento complexo. Não é
somente um desenho de produto, o estilo de uma
mercadoria. O desenho é uma componente
pequena, diria até que pouco essencial
na cultura do design. Disseminar esse
conceito é um desafio importante, pois
na maior parte do mundo o design ainda
é visto apenas como a disciplina que dá
forma ao produto. Por conseqüência,
o designer é geralmente chamado
no final do processo produtivo, quando é
hora de dar a forma. Eis aí o maior erro
da inovação. Se o designer
chega apenas ao fim do processo, ele fica de mãos
atadas, não pode inovar. O design deve
fazer parte de todo o processo produtivo. Deve
ser a base da inovação.
Qual deve ser o papel do design
na estratégia de negócios de uma
empresa?
É por meio do design que a empresa
se manifesta – independentemente do que
ela produz. Marca, estilo de vida... todas essas
mensagens devem ser coerentes com o produto que
a empresa oferece ao mercado. Antigamente, uma
opinião tinha de ser retoricamente comunicada:
era preciso “subir no púlpito”
e defender a opinião literalmente. Hoje,
é possível representar uma opinião
com o produto que defendo, com o produto que eu
compro, com o produto que coloco na vitrina. O
design comunica isso.
Você defende a adoção
de um design para processos produtivos,
um design de serviços etc. Mas
em boa parte das empresas o design ainda
é visto como algo restrito ao mero aspecto
visual.
O designer pode atuar em todas as fases
de desenvolvimento de um produto. Veja o caso
do setor de telefonia móvel. Na Itália,
o designer ajuda as operadoras a elaborar
planos de tarifas. Ele observa o comportamento
do consumidor, tenta compreender seus desejos
– e desenvolve propostas coerentes com essas
percepções. Por exemplo: nós
(da Poli.Design) projetamos uma tarifa
chamada Happy Hour para uma operadora italiana.
Compreendemos que existem momentos em que o usuário
tem vontade de se comunicar, um desejo de falar
com um amigo íntimo, de interagir com uma
pequena comunidade etc. Para muitos jovens, esse
momento ocorre no happy-hour. A partir dessa percepção,
estruturamos um plano de tarifas específico:
das seis da tarde até o começo da
noite, os usuários fazem chamadas gratuitas.
Todos os outros horários, é claro,
compensam esta gratuidade. Isso é design
operacional. É o design do processo.
As empresas estão preparadas para
adotar o design com esse tipo de abordagem?
O mundo dos serviços, onde não existe
a materialização concreta da mercadoria,
ainda está muito distante da cultura do
design. Mas são esses setores
que deverão absorver o conceito com mais
velocidade e mudar radicalmente a sua funcionalidade.
Como você avalia a qualidade do
design brasileiro?
Tecnicamente, não há muito o que
melhorar no design brasileiro. A carência
técnica não chega a ser uma dificuldade:
é ínfima e pode ser compensada rapidamente.
O verdadeiro problema é a falta de uma
cultura de inovação contínua.
Hoje, muito dos resultados que as empresas brasileiras
obtêm em design decorre da sensibilidade
e intuição do empresário,
aquilo que chamo de um “sonho noturno”.
A inovação em design não
pode depender de um sonho noturno. Deve ser um
processo organizado, com investimentos, com técnicos
e criadores atuando de maneira sistemática.
Este modelo está muito atrasado no Brasil.
A pesquisa ainda depende da sensibilidade daquele
empreendedor que vai para o exterior, estuda,
mete o nariz e acorda dizendo: “Tive uma
idéia”.
O design brasileiro sofre influência
direta da escola norte-americana. Mas também
explora elementos da escola européia. Que
diferenças você percebe entre essas
duas linhas de influência?
A diferença principal está na maneira
como o design interage com os meios de
produção. O sistema americano é
massificado. Conta com grandes aportes de capital,
estrutura produtiva e financiadora muito ampla.
Conseqüentemente, funciona bem em grandes
empresas. Já a estrutura produtiva italiana,
ou européia em geral, é menor. Ela
se baseia em um modelo distrital, de pequenas
empresas ou de arranjos produtivos locais. Essa
dimensão favoreceu o nascimento de um design
mais sintonizado com a produção
e com o cotidiano dos empreendedores. Incentivou
a experimentação e também
conferiu ao designer europeu uma profunda
cultura humanística. Já o modelo
norte-americano é mais técnico,
mais especializado. Não é tão
transversal. |