| Recentemente, o empresário João
Farina Neto foi obrigado a tomar uma decisão difícil.
Presidente da Todeschini, uma das maiores fabricantes de móveis
da serra gaúcha, Farina mandou 16 funcionários
para a rua de uma só vez. A medida teve um propósito
declarado: afastar os “reclamões”, aquelas
pessoas que distribuíam críticas anonimamente
pelos corredores da empresa, muitas vezes alimentando intrigas
e colocando a sinergia da equipe em risco. As demissões,
porém, causaram um tenso desconforto nos demais empregados
da Todeschini – que sempre foi conhecida pela baixa
rotatividade e por um clima organizacional impecável.
Seria um recado subliminar de que as críticas não
seriam mais aceitas? Para evitar mal-entendidos, Farina agiu
rápido. Convocou uma reunião geral e explicou
que, na verdade, a medida fora tomada para preservar a boa
convivência entre os funcionários. E aproveitou
para reiterar uma regra: todas as críticas seriam bem-vindas,
desde que feitas pelos canais formais instituídos na
Todeschini. “Os demitidos eram aqueles que vinham fazendo
críticas fora desses canais. Para evitar que o hábito
de ‘falar por debaixo dos panos’ se disseminasse
e afetasse o andamento dos trabalhos, colocamos todos na rua”,
conta o empresário.
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Farina Neto, presidente
da Todeschini:16 demissões para conter as intrigas
e picuinhas que se espalhavam pelos corredores da empresa |
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Recorrer à demissão para solucionar esse problema
pode parecer exagero aos olhos de muita gente. Mas os fatos
comprovam que o presidente da Todeschini utilizou uma medida
adequada. O poder das críticas, quando fora de controle,
adquire um potencial imensamente destrutivo. Funcionários
ou gerentes que utilizam os corredores para desafogar as mágoas
abrem espaço para intrigas, boatos e até conflitos
que podem arruinar carreiras e empresas. São verdadeiras
sementes da discórdia. Como se sabe, as pessoas tendem
a retransmitir o que ouvem, muitas vezes com pitadas exageradas
de emotividade. Cortar o mal pela raiz é uma decisão
dura, porém necessária – ainda que isso
signifique eliminar todo o clube da fofoca. “Quando
os mecanismos formais de feedback não são utilizados,
as chamadas ‘zonas de sombra’ se multiplicam.
Ou seja, muitas coisas acontecem, mas não são
ditas. Isso contamina o ambiente de qualquer organização”,
adverte José Schemidt, gerente de recursos humanos
da Unidade Six, braço de processamento de xisto da
Petrobras no Paraná.
Evidentemente, manter o poder das críticas sob controle
não significa sujeitar a equipe a um regime de silêncio.
Até porque não são apenas funcionários
reclamões que ameaçam a paz do ambiente de trabalho.
Chefes autoritários, que não sabem separar crítica
de truculência, também são altamente nocivos.
Em ambos os casos, o problema surge quando as reclamações
são feitas apenas para “desabafar” –
hábito que, na verdade, só aumenta o estresse
dos demais colegas. O remédio para esse mal é
criar um método capaz de processar as críticas
formalmente. Quem tiver algo a dizer poderá contribuir
(e muito) para o crescimento de uma empresa e dos profissionais
que a integram. “Se você fizer uma avaliação
construtiva e com um enfoque positivo, ela também será
recebida da maneira positiva”, sustenta o diretor de
novos negócios do Citibank, Rogério Vargas,
que é considerado por colegas um expert na arte de
dar e receber feedback.
A fábrica de revestimentos cerâmicos Cecrisa,
de Criciúma (SC), deu início, em abril deste
ano, a um programa de gestão de competências
que abrange um sistema formal de feedback. Inicialmente, estão
sendo definidas as competências de cada um dos quase
2 mil trabalhadores da empresa. Simples: depois de estabelecer
objetivamente as metas que cada um tem a cumprir, torna-se
mais fácil afirmar se alguém desempenhou bem
a sua função ou não. Simultaneamente,
um grupo de 103 gerentes e supervisores está sendo
treinado para dar e receber críticas. “A melhora
tem de começar pelas chefias”, explica Elena
Medeiros, supervisora de desenvolvimento de pessoas da Cecrisa.
Logo depois, serão treinados também todos os
outros funcionários da companhia. A última fase
do programa será a implantação de um
concurso permanente de idéias premiadas. Melhorias
sugeridas pelos funcionários (e implantadas com sucesso)
receberão recompensas polpudas.
Mensagem à
Garcia

Crítica sem orientação é inútil
– só serve para minar o moral da equipe. Indique
o caminho que possa levar ao resultado desejado
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