| Texto:
José Francisco Botelho
Ilustrações: Odyr Bernardi

"Gafe: ação
ou palavra impensada, indiscreta e desastrada.”
Ler a definição do dicionário
pode não ser o suficiente para aprender
a evitá-la – mas certamente ajuda
a entender o que provoca essas situações
embaraçosas e, muitas vezes, comprometedoras.
No dia-a-dia, elas são motivo de riso.
Nos negócios, porém, esses deslizes
não têm graça nenhuma –
especialmente para quem faz negócios internacionais,
um campo minado para executivos inexperientes
ou desatentos.
Até época bem recente,
os empresários brasileiros não precisavam
esquentar a cabeça com os perigos de cometer
uma gafe “internacional”. Embora tenha
dado seus primeiros passos no mercado externo
já na época do pau-brasil, o país
só escancarou as portas para o mundo a
partir do ano 2000. “Foi no início
deste século que as empresas brasileiras
passaram a investir pesado nas vendas externas
e na internacionalização”,
explica José Augusto de Castro, vice-presidente
da Associação Brasileira de Comércio
Exterior (AEB). Ao entrar na arena global, os
brasileiros logo perceberam que a cultura da informalidade,
tão popular em sua terra natal, nem sempre
funciona lá fora. “Nossos negociadores
ainda têm pouca experiência, mas estão
evoluindo rápido”, pondera Castro.
Um tropeço aqui e outro ali, portanto,
é mais do que normal. Mas sempre é
possível evitar – e um caminho natural
para isso é aprender com quem já
passou por algumas situações embaraçosas,
como as relatadas a seguir.
Água
morna e tinta preta
Lição nº 1
para evitar gafes internacionais: é preciso
fazer o dever de casa. Antes de ir a uma reunião,
não custa nada pesquisar um pouquinho sobre
o interlocutor e seu background cultural.
Assim, pode-se escapar de situações
como a vivida por Wilson Andersen Ballão,
presidente da unidade curitibana da Câmara
de Comércio e Indústria Brasil–Alemanha.
“Estávamos esperando três empresários
da Malásia para discutir uma joint
venture. Era uma transação
que envolvia milhões de dólares”,
conta ele. Quando os malaios apareceram, os brasileiros,
como de hábito, ofereceram cafezinho. Mas
os recém-chegados responderam, em inglês,
que preferiam beber “água morna”.
Os brasileiros ficaram um tanto confusos. Sem
saber direito o que os estrangeiros queriam, eles
trocaram o café por três xícaras
de chá. De novo, os asiáticos recusaram.
E, dessa vez, foram mais explícitos: na
região de onde vinham, era mesmo costume
beber água morna – e pura.
E a confusão não
acabou aí. Na hora de assinar o contrato,
os brasileiros usaram canetas de tinta azul. Os
visitantes foram categóricos: o documento
teria de ser refeito. Por quê? Muito simples:
na Malásia, acordos importantes só
podem ser assinados com tinta preta. “Nossos
deslizes naquele dia poderiam ter enterrado o
acordo. A sorte é que os malaios estavam
tão interessados em fechar o negócio
quanto nós”, lembra o empresário.
A transação acabou sobrevivendo
às gafes – e a companhia malaia,
cujo nome Ballão prefere não revelar,
abriu sua fábrica no país.
Cartões
e cabeças de peixe
Desde que abriu suas portas ao
capital estrangeiro, no final dos anos 80, a economia
chinesa cresceu mais do que qualquer outra no
planeta. Para se ter uma idéia do ritmo
alucinante dessa expansão, basta dizer
que metade do concreto utilizado no mundo em 2003
foi parar em arranha-céus e condomínios
chineses. Hoje, o país é o segundo
maior importador de produtos fabricados no Brasil,
perdendo apenas para os Estados Unidos. Por isso,
os empresários brasileiros estão
cada vez mais interessados em truques e dicas
para agradar a negociadores chineses. Mas domar
esse dragão não é tarefa
fácil: poucas culturas no mundo são
tão obcecadas com o cumprimento de protocolos.
A rigorosa e temida etiqueta chinesa remonta a
mais de 3 mil anos e abrange regras que, aos olhos
de outros povos, podem parecer absurdas.
Os chineses dão muita atenção
a pequenos detalhes. E, para fazer sucesso entre
eles, é preciso respeitar esses costumes,
por minúsculos que pareçam”,
explica Valdir Vianna, gerente de tecnologia da
informação da norte-americana Blount
Industrial, que tem filiais na China. Vianna cita
um exemplo bem prático da importância
que os chineses dão às minúcias:
entre eles, é costume entregar cartões
comerciais com as duas mãos. Esse gesto
é visto como uma forma de denotar confiança
e expressar credibilidade. Se um executivo estrangeiro
entregar seu cartão com uma única
mão – ou, pior ainda, largá-lo
em cima da mesa –, estará correndo
o risco de transformar o encontro em um fiasco.
Outro detalhe fundamental é
o comportamento à mesa. Banquetes comerciais
são levados muito a sério e a distribuição
de assentos para anfitriões e visitantes
segue uma hierarquia bem definida. Quem ocupar
a cadeira errada pode ser polidamente convidado
a se retirar. Além disso, os chineses têm
o costume de oferecer cabeças de peixe
para os convidados mais importantes – e
recusar essa desagradável honraria é
uma ofensa gravíssima. “O pior de
tudo é que, na maior parte das vezes, os
chineses não demonstram estar irritados
com os deslizes dos convidados”, conta Vianna.
“Continuam sorrindo e conversando amavelmente.
Mas, no fundo, já estão preparando
o troco contra o autor da gafe. Deixarão
de responder e-mails, não atenderão
telefonemas, enviarão subalternos para
os próximos encontros e cancelarão
acordos sem maiores explicações.”
Na China, até a vingança é
uma arte sutil.
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