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      Edição 213 - Agosto de 2005
 

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Para o diretor executivo da ONG Transparência Brasil, a onda de corrupção que varre o governo não se deve à desonestidade dos políticos – e sim ao fato de que é fácil fazer farra com o dinheiro público

 
Andreas Müller e Marcos Graciani

No dia em que concedeu entrevista a AMANHÃ, Cláudio Weber Abramo acabara de despachar documentos que já repousavam em sua mesa havia quatro meses. “Não tinha tempo mental para cuidar disso antes”, explicou ele. Desde maio, Abramo dedica quase toda sua rotina a monitorar os desdobramentos da crise política. Como diretor executivo da Transparência Brasil – uma ONG que busca meios de combater a corrupção –, ele não pode deixar escapar uma vírgula das revelações que surgem nas CPIs dos Correios e do Mensalão. A trabalheira compensa. Abramo tem sido cada vez mais requisitado para palestrar, e já pleiteia a presidência da Transparência Internacional, a maior ONG de combate à corrupção do mundo. O problema é que a tarefa é cansativa. “Só penso em mensalão. Fiquei monomaníaco”, brinca. Nesta entrevista, Abramo usa adjetivos ainda menos honrosos para criticar a maneira como o governo vem gerenciando a crise. Confira:

Como a crise está afetando a imagem do Brasil lá fora?
Depende. Se estivermos falando dos investimentos de curto prazo, esses que o Brasil vive captando com elevadas taxas de juros, aí não tem nenhum efeito. O cara decide comprar uns títulos e, no dia seguinte, ele vende. Os escândalos não exercem nenhuma influência, é efeito-zero. A corrupção só afeta os investimentos de longo prazo. Mesmo assim, não dá para chegar em uma multinacional e perguntar: “Você deixaria de investir num país cuja percepção de corrupção é alta?”. Antes de responder isso, o cara calcularia os riscos de se fazer o tal investimento. Ele avaliaria se a percepção de corrupção poderia aumentar seus custos de operação, ou fazer com que um contrato deixasse de ser honrado etc. Isso sim, é um problema.

O Brasil vinha evoluindo no Índice de Percepção de Corrupção, o CPI. Depois dos episódios deflagrados em Brasília, quanto o país deverá recuar?
Olha, na verdade, não se deve levar excessivamente a sério esse índice de corrupção.

Não?
Não, simplesmente porque é impossível distinguir os países desta maneira. O ranking da Transparência Internacional é feito a partir de percepções, de opiniões subjetivas a respeito da corrupção em certos países. Essas opiniões são dadas por pessoas ligadas aos negócios internacionais. Mas não há uma medição objetiva. Não é possível ter uma lista com a discriminação de quem é mais corrupto. Como você vai saber se o Brasil é mais corrupto do que a República do Congo, por exemplo?

De qualquer forma, você percebe alguma mudança nos níveis de corrupção do Brasil? Estamos piorando?
O Brasil tem permanecido no mesmo nível nos últimos seis anos, não mudou nada. Não melhorou e nem piorou: ficou no mesmo nível. A corrupção é uma característica definida. Os países não ficam mais corruptos ou menos corruptos de um ano para o outro.

Nos últimos anos, tivemos uma overdose de escândalos políticos e CPIs. Isso não acaba banalizando a corrupção?
De forma alguma. Todas as pesquisas a respeito da maneira como o brasileiro encara a corrupção resultam em rejeição. O brasileiro não aceita isso. Ele considera que é um mal a ser combatido. Para o empresário, é mais um fator de custo. Em qualquer um dos casos, a corrupção é rejeitada.

Mas sempre se falou que o Brasil é o país do “jeitinho”. A corrupção não poderia ser considerada um problema intrínseco, ou cultural?
Essa concepção é muito deletéria para a compreensão do problema e sua resolução. Se a corrupção fosse cultural, as pessoas aceitariam, certo? Elas considerariam isso normal. Mas não é o que constatamos. O brasileiro não gosta de corrupção, essa é a verdade. A idéia de que é um problema cultural se baseia numa noção equivocada: a de que corrupção é causada por uma falha moral. As pessoas pensam que isso só acontece porque existem pessoas “más” na política brasileira. É o que ouvimos: que precisamos de uma liderança, de um choque ético etc. Ocorre que essa perspectiva é meramente moral. Nesse raciocínio, a corrupção só acontece quando há pessoas desonestas. É meio trivial, não?

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