| No dia em que concedeu entrevista
a AMANHÃ, Cláudio Weber Abramo acabara
de despachar documentos que já repousavam
em sua mesa havia quatro meses. “Não
tinha tempo mental para cuidar disso antes”,
explicou ele. Desde maio, Abramo dedica quase
toda sua rotina a monitorar os desdobramentos
da crise política. Como diretor executivo
da Transparência Brasil – uma ONG
que busca meios de combater a corrupção
–, ele não pode deixar escapar uma
vírgula das revelações que
surgem nas CPIs dos Correios e do Mensalão.
A trabalheira compensa. Abramo tem sido cada vez
mais requisitado para palestrar, e já pleiteia
a presidência da Transparência Internacional,
a maior ONG de combate à corrupção
do mundo. O problema é que a tarefa é
cansativa. “Só penso em mensalão.
Fiquei monomaníaco”, brinca. Nesta
entrevista, Abramo usa adjetivos ainda menos honrosos
para criticar a maneira como o governo vem gerenciando
a crise. Confira:
Como a crise está afetando a imagem
do Brasil lá fora?
Depende. Se estivermos falando dos investimentos
de curto prazo, esses que o Brasil vive captando
com elevadas taxas de juros, aí não
tem nenhum efeito. O cara decide comprar uns títulos
e, no dia seguinte, ele vende. Os escândalos
não exercem nenhuma influência, é
efeito-zero. A corrupção só
afeta os investimentos de longo prazo. Mesmo assim,
não dá para chegar em uma multinacional
e perguntar: “Você deixaria de investir
num país cuja percepção de
corrupção é alta?”.
Antes de responder isso, o cara calcularia os
riscos de se fazer o tal investimento. Ele avaliaria
se a percepção de corrupção
poderia aumentar seus custos de operação,
ou fazer com que um contrato deixasse de ser honrado
etc. Isso sim, é um problema.
O Brasil vinha evoluindo no Índice
de Percepção de Corrupção,
o CPI. Depois dos episódios deflagrados
em Brasília, quanto o país deverá
recuar?
Olha, na verdade, não se deve levar excessivamente
a sério esse índice de corrupção.
Não?
Não, simplesmente porque é impossível
distinguir os países desta maneira. O ranking
da Transparência Internacional é
feito a partir de percepções, de
opiniões subjetivas a respeito da corrupção
em certos países. Essas opiniões
são dadas por pessoas ligadas aos negócios
internacionais. Mas não há uma medição
objetiva. Não é possível
ter uma lista com a discriminação
de quem é mais corrupto. Como você
vai saber se o Brasil é mais corrupto do
que a República do Congo, por exemplo?
De qualquer forma, você percebe
alguma mudança nos níveis de corrupção
do Brasil? Estamos piorando?
O Brasil tem permanecido no mesmo nível
nos últimos seis anos, não mudou
nada. Não melhorou e nem piorou: ficou
no mesmo nível. A corrupção
é uma característica definida. Os
países não ficam mais corruptos
ou menos corruptos de um ano para o outro.
Nos últimos anos, tivemos uma
overdose de escândalos políticos
e CPIs. Isso não acaba banalizando a corrupção?
De forma alguma. Todas as pesquisas a respeito
da maneira como o brasileiro encara a corrupção
resultam em rejeição. O brasileiro
não aceita isso. Ele considera que é
um mal a ser combatido. Para o empresário,
é mais um fator de custo. Em qualquer um
dos casos, a corrupção é
rejeitada.
Mas sempre se falou que o Brasil é
o país do “jeitinho”. A corrupção
não poderia ser considerada um problema
intrínseco, ou cultural?
Essa concepção é muito deletéria
para a compreensão do problema e sua resolução.
Se a corrupção fosse cultural, as
pessoas aceitariam, certo? Elas considerariam
isso normal. Mas não é o que constatamos.
O brasileiro não gosta de corrupção,
essa é a verdade. A idéia de que
é um problema cultural se baseia numa noção
equivocada: a de que corrupção é
causada por uma falha moral. As pessoas pensam
que isso só acontece porque existem pessoas
“más” na política brasileira.
É o que ouvimos: que precisamos de uma
liderança, de um choque ético etc.
Ocorre que essa perspectiva é meramente
moral. Nesse raciocínio, a corrupção
só acontece quando há pessoas desonestas.
É meio trivial, não? |