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      Edição 213 - Agosto de 2005
 

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Como uma elite de empresas transformou a sustentabilidade em filosofia de negócio – e sepultou os tempos em que era possível prosperar às custas do meio ambiente


Marcos Graciani

Não faltam argumentos para explicar por que a sustentabilidade se tornou tão importante no mundo dos negócios. Um dos mais recentes é “sumiço” do inverno no Sul. Só na primeira quinzena de agosto, por exemplo, temperaturas de até 28 graus abafaram Porto Alegre e Curitiba, segundo o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC). Um calor maluco para ambas as capitais, que tradicionalmente registravam temperaturas entre 8 e 15 graus nessa época. Para os meteorologistas, é um sinal claro de que a poluição da atmosfera e o desperdício de recursos naturais começaram a afetar o equilíbrio climático. As conseqüências são sentidas na economia da região. No Paraná, o calor fora de hora arruinou os planos dos lojistas, que esperavam um aumento de 10% nas vendas de inverno – e terão de se contentar com um avanço de apenas 4,5%. No Rio Grande do Sul, agravou as perdas do agronegócio, que já vinha sofrendo com outra anormalidade climática: a seca. O que tudo isso tem a ver com sustentabilidade? Simples: se as empresas continuarem produzindo de maneira irresponsável, a tendência é de que o clima se torne cada vez mais inclemente – o que pode arruinar alguns negócios.

No Sul do Brasil ou em qualquer outra parte do planeta, há sinais cada vez mais claros de que degradar o meio ambiente é uma maneira de jogar dinheiro fora. A constatação não diz respeito somente ao fato de que poluir agrava o aquecimento global, responsável pelas maluquices do clima nos últimos meses. Hoje, ignorar as demandas da natureza é, também, uma armadilha para a reputação e para o marketing das empresas. Além de causar uma péssima impressão junto aos acionistas, é claro. “Uma empresa que começa a acumular resíduos, por exemplo, poderá ter grandes prejuízos no futuro”, exemplifica Diógenes Del Bel, diretor-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre). “Chega uma hora que ela não sabe mais o que fazer com esse lixo. E aí vai formando uma grande passivo ambiental, que pode inclusive inviabilizar sua fusão com outra companhia.

Há outro fator que pesa nas contas: nunca o consumidor esteve tão vigilante. Prova disso é uma pesquisa feita pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser). O levantamento concluiu que 81% dos consumidores brasileiros se sentem mais motivados a comprar produtos fabricados por meios ambientalmente corretos. O trabalho, vale dizer, foi realizado em 2001 – e a tendência é de que o percentual tenha aumentado desde então. “Em um horizonte de três a cinco anos, vai ser muito difícil as empresas sobreviverem sem esse paradigma”, projeta Hugo Springer, da Springer Consultoria em Gestão, Tecnologia e Desenvolvimento Sustentável.

A planta da Aracruz nos dias de hoje (acima) e no tempo em que pertencia à Borregaard (abaixo): de vilã a referência em produção limpa

O curioso é que, até duas décadas atrás, muita gente achava que sustentabilidade era apenas mais uma palavra no dicionário dos ambientalistas. Essa filosofia só começou a ser levada a sério no final dos anos 80, quando o governo federal fechou o cerco em torno das empresas que prosperavam às custas do meio ambiente. Em 1989, com a criação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), agredir a natureza passou a ser crime. Desde então, os órgãos de fiscalização estão cada vez mais exigentes – a ponto de paralisar alguns empreendimentos bilionários, tal como diagnosticou AMANHÃ em sua edição de maio de 2002 (“Os investimentos pedem licença”, ed. 177). Hoje, evitar que os negócios tenham maior impacto no meio ambiente é questão de competitividade. Sem uma licença ambiental, por exemplo, as companhias sequer podem se candidatar às linhas de financiamento do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o principal agente de fomento do país. “Procuramos identificar o potencial poluidor de todo e qualquer projeto que entra no banco. Quando necessário, damos dicas quanto à obtenção das licenças ambientais”, explica Eduardo Bandeira de Mello, chefe do Departamento de Meio Ambiente do BNDES.

 

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