| Não faltam argumentos para explicar
por que a sustentabilidade se tornou tão importante
no mundo dos negócios. Um dos mais recentes é
“sumiço” do inverno no Sul. Só na
primeira quinzena de agosto, por exemplo, temperaturas de
até 28 graus abafaram Porto Alegre e Curitiba, segundo
o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos
(CPTEC). Um calor maluco para ambas as capitais, que tradicionalmente
registravam temperaturas entre 8 e 15 graus nessa época.
Para os meteorologistas, é um sinal claro de que a
poluição da atmosfera e o desperdício
de recursos naturais começaram a afetar o equilíbrio
climático. As conseqüências são sentidas
na economia da região. No Paraná, o calor fora
de hora arruinou os planos dos lojistas, que esperavam um
aumento de 10% nas vendas de inverno – e terão
de se contentar com um avanço de apenas 4,5%. No Rio
Grande do Sul, agravou as perdas do agronegócio, que
já vinha sofrendo com outra anormalidade climática:
a seca. O que tudo isso tem a ver com sustentabilidade? Simples:
se as empresas continuarem produzindo de maneira irresponsável,
a tendência é de que o clima se torne cada vez
mais inclemente – o que pode arruinar alguns negócios.
No Sul do Brasil ou em qualquer outra parte do planeta, há
sinais cada vez mais claros de que degradar o meio ambiente
é uma maneira de jogar dinheiro fora. A constatação
não diz respeito somente ao fato de que poluir agrava
o aquecimento global, responsável pelas maluquices
do clima nos últimos meses. Hoje, ignorar as demandas
da natureza é, também, uma armadilha para a
reputação e para o marketing das empresas. Além
de causar uma péssima impressão junto aos acionistas,
é claro. “Uma empresa que começa a acumular
resíduos, por exemplo, poderá ter grandes prejuízos
no futuro”, exemplifica Diógenes Del Bel, diretor-presidente
da Associação Brasileira das Empresas de Tratamento
de Resíduos (Abetre). “Chega uma hora que ela
não sabe mais o que fazer com esse lixo. E aí
vai formando uma grande passivo ambiental, que pode inclusive
inviabilizar sua fusão com outra companhia.
Há outro fator que pesa nas contas: nunca o consumidor
esteve tão vigilante. Prova disso é uma pesquisa
feita pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Instituto
de Estudos da Religião (Iser). O levantamento concluiu
que 81% dos consumidores brasileiros se sentem mais motivados
a comprar produtos fabricados por meios ambientalmente corretos.
O trabalho, vale dizer, foi realizado em 2001 – e a
tendência é de que o percentual tenha aumentado
desde então. “Em um horizonte de três a
cinco anos, vai ser muito difícil as empresas sobreviverem
sem esse paradigma”, projeta Hugo Springer, da Springer
Consultoria em Gestão, Tecnologia e Desenvolvimento
Sustentável.
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| A planta da Aracruz nos dias de hoje
(acima) e no tempo em que pertencia à
Borregaard (abaixo): de vilã a referência
em produção limpa |
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O curioso é que, até duas décadas atrás,
muita gente achava que sustentabilidade era apenas mais uma
palavra no dicionário dos ambientalistas. Essa filosofia
só começou a ser levada a sério no final
dos anos 80, quando o governo federal fechou o cerco em torno
das empresas que prosperavam às custas do meio ambiente.
Em 1989, com a criação do Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama), agredir a natureza passou a ser crime. Desde então,
os órgãos de fiscalização estão
cada vez mais exigentes – a ponto de paralisar alguns
empreendimentos bilionários, tal como diagnosticou
AMANHÃ em sua edição de maio de 2002
(“Os
investimentos pedem licença”, ed. 177).
Hoje, evitar que os negócios tenham maior impacto no
meio ambiente é questão de competitividade.
Sem uma licença ambiental, por exemplo, as companhias
sequer podem se candidatar às linhas de financiamento
do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES),
o principal agente de fomento do país. “Procuramos
identificar o potencial poluidor de todo e qualquer projeto
que entra no banco. Quando necessário, damos dicas
quanto à obtenção das licenças
ambientais”, explica Eduardo Bandeira de Mello, chefe
do Departamento de Meio Ambiente do BNDES.
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