| Foi às pressas que
Heitor Klein conversou com AMANHÃ na primeira
semana de abril. Diretor executivo da Associação
Brasileira das Indústrias de Calçados
(Abicalçados), Klein embarcaria já
no dia seguinte para a Europa. O roteiro incluía
Londres, onde visitaria um grupo de varejistas,
e depois Bruxelas – local de um congresso
de calçadistas do mundo inteiro. “Fui
convidado a fazer uma palestra sobre a perspectiva
do setor na América Latina”, disse.
Certamente, a apresentação que Klein
preparou não foi das mais otimistas. Acuada
pela persistente valorização do
real, a indústria brasileira de calçados
se vê diante de uma encruzilhada: ou reajusta
os preços dos pares exportados –
e nesse caso cede terreno para os chineses –
ou mantém o preço como está
e amarga pesados prejuízos. Na dúvida,
Klein, que já comanda a Abicalçados
há 13 anos, não recomenda nenhum
dos dois caminhos. Antes, quer “espernear,
xingar e alertar” o governo em busca de
uma solução alternativa para o câmbio.
Foi o que acabou fazendo nesta entrevista.
Câmbio desfavorável, concorrência
com a China... Como você define o atual
momento da indústria calçadista?
É de apreensão. Estamos inquietos.
A indústria vinha de um excelente momento,
crescendo bastante no mercado. Só no ano
passado, tivemos uma expansão de 17% nas
exportações. E havia, em 2005, uma
série de fatores que mostravam uma condição
ainda mais favorável para o crescimento.
Mas, a partir de dezembro, com a forte queda do
dólar, as empresas começaram a amargar
prejuízo ao exportar.
A quanto chega essa perda?
O sapato que nós embarcamos até
março de 2005 foi negociado em setembro
e outubro do ano passado, quando o dólar
estava a R$ 3,00. Agora, no momento do embarque,
estávamos conseguindo receber entre R$
2,60 ou R$ 2,70 pelo dólar. Isso significa
uma perda de R$ 0,30 ou R$ 0,40 por dólar
negociado. Ou seja, estamos perdendo toda a margem
de resultado da venda – e até um
pouco mais.
Como a desvalorização do
dólar afeta os contratos que estão
sendo fechados agora?
O setor calçadista está com dificuldade
de formar preço. Precisaríamos repassar
a defasagem cambial para os preços, mas
o nosso comprador lá fora não aceita.
Com isso, metade das vendas está caindo.
Quem tinha um programa de 1 milhão de pares
para comprar do Brasil, por exemplo, está
levando só 400 mil ou 500 mil pares.
E quais são as conseqüências?
Muitas companhias estão dando férias
coletivas aos funcionários, outras já
estão sendo obrigadas a demitir ou desativar
unidades de produção. Algumas empresas
já fecharam as portas.
A indústria vinha de um momento
bom. Não há gordura para resistir
por mais tempo?
Seja qual for a reação do câmbio
ou do mercado daqui para frente, nós já
perdemos US$ 300 milhões. Esse cálculo
é feito considerando o tempo do ciclo de
desenvolvimento do produto, negociação
de venda, suprimento de materiais e embarque da
mercadoria. Além disso, precisamos encarar
a entrada em massa de produtos estrangeiros no
país. Hoje, a defasagem cambial compensa
o imposto de importação de sapato.
Se isso continuar, em breve nós vamos ver
sapatos chineses nas nossas prateleiras.
Por que a indústria calçadista
sofre todo esse abalo em função
de uma variável meramente conjuntural,
como câmbio?
Porque nosso setor tem uma das concorrências
mais perfeitas no mercado mundial. Há um
grande número de ofertantes e compradores.
Veja o exemplo da China, que é um dos nossos
principais concorrentes. Os chineses jogam numa
posição extremamente favorecida,
porque lá o câmbio está congelado.
Isso dá uma condição extraordinária
de competição no mercado internacional.
Espanha e Portugal já perderam completamente
seu próprio mercado em função
disso. |