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      Edição 209 - Abril de 2005
 

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Embora seja uma das principais forças econômicas da Região Sul,
a indústria calçadista ameaça jogar a toalha se o dólar continuar desvalorizado. Heitor Klein, diretor da Abicalçados, explica por quê

 
Andreas Müller

Foi às pressas que Heitor Klein conversou com AMANHÃ na primeira semana de abril. Diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Klein embarcaria já no dia seguinte para a Europa. O roteiro incluía Londres, onde visitaria um grupo de varejistas, e depois Bruxelas – local de um congresso de calçadistas do mundo inteiro. “Fui convidado a fazer uma palestra sobre a perspectiva do setor na América Latina”, disse. Certamente, a apresentação que Klein preparou não foi das mais otimistas. Acuada pela persistente valorização do real, a indústria brasileira de calçados se vê diante de uma encruzilhada: ou reajusta os preços dos pares exportados – e nesse caso cede terreno para os chineses – ou mantém o preço como está e amarga pesados prejuízos. Na dúvida, Klein, que já comanda a Abicalçados há 13 anos, não recomenda nenhum dos dois caminhos. Antes, quer “espernear, xingar e alertar” o governo em busca de uma solução alternativa para o câmbio. Foi o que acabou fazendo nesta entrevista.

Câmbio desfavorável, concorrência com a China... Como você define o atual momento da indústria calçadista?
É de apreensão. Estamos inquietos. A indústria vinha de um excelente momento, crescendo bastante no mercado. Só no ano passado, tivemos uma expansão de 17% nas exportações. E havia, em 2005, uma série de fatores que mostravam uma condição ainda mais favorável para o crescimento. Mas, a partir de dezembro, com a forte queda do dólar, as empresas começaram a amargar prejuízo ao exportar.

A quanto chega essa perda?
O sapato que nós embarcamos até março de 2005 foi negociado em setembro e outubro do ano passado, quando o dólar estava a R$ 3,00. Agora, no momento do embarque, estávamos conseguindo receber entre R$ 2,60 ou R$ 2,70 pelo dólar. Isso significa uma perda de R$ 0,30 ou R$ 0,40 por dólar negociado. Ou seja, estamos perdendo toda a margem de resultado da venda – e até um pouco mais.

Como a desvalorização do dólar afeta os contratos que estão sendo fechados agora?
O setor calçadista está com dificuldade de formar preço. Precisaríamos repassar a defasagem cambial para os preços, mas o nosso comprador lá fora não aceita. Com isso, metade das vendas está caindo. Quem tinha um programa de 1 milhão de pares para comprar do Brasil, por exemplo, está levando só 400 mil ou 500 mil pares.

E quais são as conseqüências?
Muitas companhias estão dando férias coletivas aos funcionários, outras já estão sendo obrigadas a demitir ou desativar unidades de produção. Algumas empresas já fecharam as portas.

A indústria vinha de um momento bom. Não há gordura para resistir por mais tempo?
Seja qual for a reação do câmbio ou do mercado daqui para frente, nós já perdemos US$ 300 milhões. Esse cálculo é feito considerando o tempo do ciclo de desenvolvimento do produto, negociação de venda, suprimento de materiais e embarque da mercadoria. Além disso, precisamos encarar a entrada em massa de produtos estrangeiros no país. Hoje, a defasagem cambial compensa o imposto de importação de sapato. Se isso continuar, em breve nós vamos ver sapatos chineses nas nossas prateleiras.

Por que a indústria calçadista sofre todo esse abalo em função de uma variável meramente conjuntural, como câmbio?
Porque nosso setor tem uma das concorrências mais perfeitas no mercado mundial. Há um grande número de ofertantes e compradores. Veja o exemplo da China, que é um dos nossos principais concorrentes. Os chineses jogam numa posição extremamente favorecida, porque lá o câmbio está congelado. Isso dá uma condição extraordinária de competição no mercado internacional. Espanha e Portugal já perderam completamente seu próprio mercado em função disso.

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