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      Edição 209 - Abril de 2005
 

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O potencial do Brasil no mercado de carbono pode não ser tão vasto como se imaginava. Mas alguns empreendedores mostram que o país ainda tem muito a ganhar com a indústria do ar limpo


Texto: Andreas Müller
Reportagem: Simone Fernandes e Guilherme Damo

A decisão de Vladimir Putin de incluir a Rússia no Protocolo de Kyoto, em novembro do ano passado, deve ter levado muitos investidores a sentir no ar poluído do planeta o cheiro de lucros. A adesão dos russos era tudo que faltava para que o acordo entrasse em vigor e inaugurasse oficialmente um mercado bilionário: o de créditos de carbono. Desde 1997, quando os primeiros 170 países assinaram o tratado, milhares de projetos de despoluição vinham sendo desenvolvidos em toda parte. Empresas dos mais variados portes e ramos de atividade passaram a investir em iniciativas de produção limpa. Queriam deixar tudo encaminhado para que, tão logo o protocolo começasse a valer, já pudessem ganhar algum dinheiro.

Como? Ora, vendendo aos países ricos (poluidores) os créditos de carbono obtidos com esses projetos.

Se está difícil de entender, vale lembrar que as regras de Kyoto prevêem uma redução na emissão de gases causadores do efeito estufa. A meta do tratado é tornar o volume de gases liberados na atmosfera 5,2% inferior ao registrado em 1990. E essa tarefa tem de ser concluída até 2012, no máximo. Para cumpri-la, porém, os países desenvolvidos teriam de reduzir bruscamente seu ritmo de atividade. Indústrias seriam obrigadas a desacelerar ou, ainda, a investir milhões em uma grande faxina em suas linhas de produção – e sabe-se lá que tipo de capotagem a economia mundial sofreria depois de uma freada dessas. Por isso, o Protocolo de Kyoto permite que as empresas dos países ricos comprem “créditos” para continuar poluindo. Uma companhia japonesa, por exemplo, pode investir em um projeto capaz de tirar da atmosfera uma determinada quantidade de dióxido de carbono (o maior dos vilões do efeito estufa). Nesse caso, terá direito a continuar emitindo a mesma quantidade desse gás em suas fábricas instaladas no Japão. Ou seja: ao assinar o tratado, Putin fez nascer um comércio gigantesco de títulos que autorizam empresas a emitir gases poluentes, e que são conhecidos como “créditos de carbono”. Entre os especialistas, ninguém tem a menor dúvida de que esse mercado ainda vai estourar.

O Brasil, é claro, tem muito a ganhar com esse sistema. O país já era considerado uma virtual potência da “economia verde” antes mesmo de o acordo ter sido firmado. Afinal, que outra região do planeta conta com uma natureza tão exuberante, florestas tão vastas e uma geografia favorável aos projetos de redução dos gases nocivos ao clima? Em 2001, estimava-se que, sozinho, o Brasil poderia movimentar até US$ 1 bilhão por ano com a compra e venda de seus créditos de carbono, especialmente a partir de programas de preservação de matas e reflorestamento. Não por acaso, o governo brasileiro sempre teve uma participação decisiva no Protocolo de Kyoto. Saiu de Brasília, por exemplo, a proposta que deu origem ao Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), procedimento que regula a comercialização de créditos com os países em desenvolvimento. Também é brasileiro o primeiro MDL aprovado no mundo conforme as exigências de Kyoto. Trata-se do Nova Gerar, um aterro sanitário localizado em Nova Iguaçu (RJ) que reutiliza o gás metano (liberado na decomposição do lixo) para produzir energia elétrica. E tudo leva a crer que a jornada verde-amarela ainda vai mais longe. “A previsão é de que vários outros projetos sejam julgados muito brevemente e de que a lista vá aumentando com rapidez”, indica Rui de Góes, diretor de qualidade ambiental do Ministério do Meio Ambiente.

Até aí, nenhuma surpresa. É de se esperar que o Brasil tenha uma participação destacada em qualquer acordo para salvar o clima global. Entretanto, desde o dia 16 de fevereiro, quando o tratado de Kyoto entrou oficialmente em vigor, um novo problema se tornou evidente para o país: é que o potencial brasileiro no mercado de carbono pode não ser tão grande quanto se imaginava. Quem acreditava que o protocolo faria jorrar investimentos do Oiapoque ao Chuí e transformaria as imensas florestas nacionais em uma espécie de “ouro verde” estava redondamente enganado. Isso porque as regras do tratado simplesmente proíbem a exploração de florestas e matas nativas já existentes para gerar investimentos, seja no Brasil ou em qualquer outro lugar. Amazônia, Mata Atlântica, Pantanal... Nada disso vale um único centavo de carbono. Subtraídas as florestas, aliás, o potencial brasileiro para atrair investimentos ambientais é menor que o da China e da Índia – que não têm um terço das reservas mantidas por aqui.

Pioneirismo premiado

É brasileiro o primeiro projeto de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) a ser colocado em prática no mundo. No final do ano passado, o Conselho Executivo de MDL da ONU deu aval para que o Nova Gerar acumulasse e comercializasse créditos de carbono. Localizado na cidade de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, o projeto consiste na produção de energia elétrica a partir do biogás liberado pelo lixo em decomposição de um aterro sanitário. A maior parte desse gás é constituída de metano, um dos vilões do efeito estufa. O material é drenado, canalizado e transformado em combustível – que, em breve, vai alimentar uma usina de energia elétrica. O objetivo é gerar 12 megawatts de energia. O investimento estimado para concretizar o plano é de US$ 7 milhões.

O empreendimento é uma parceria entre a empresa de consultoria britânica EcoSecurities e a administradora de resíduos sólidos S.A. Paulista. Há expectativa de que entre em operação na metade deste ano. Desde agora, porém, o Nova Gerar já está proporcionando negócios. O governo da Holanda, por exemplo, fechou um contrato para adquirir cerca de 2,5 milhões de toneladas de carbono até 2012. O preço estabelecido foi de 3,35 euros por tonelada. O negócio foi fechado por meio do Banco Mundial, que comprará os créditos em nome do governo holandês. O país tem todo o interesse em evitar o aquecimento global do planeta. Caso as calotas polares viessem a derreter, como alardeiam os ambientalistas, a Holanda seria uma das primeiras regiões a desaparecer debaixo do mar.

 
  Nova Gerar: o primeiro projeto de MDL aprovado no mundo

 

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