| A decisão de Vladimir Putin de incluir
a Rússia no Protocolo de Kyoto, em novembro do ano
passado, deve ter levado muitos investidores a sentir no ar
poluído do planeta o cheiro de lucros. A adesão
dos russos era tudo que faltava para que o acordo entrasse
em vigor e inaugurasse oficialmente um mercado bilionário:
o de créditos de carbono. Desde 1997, quando os primeiros
170 países assinaram o tratado, milhares de projetos
de despoluição vinham sendo desenvolvidos em
toda parte. Empresas dos mais variados portes e ramos de atividade
passaram a investir em iniciativas de produção
limpa. Queriam deixar tudo encaminhado para que, tão
logo o protocolo começasse a valer, já pudessem
ganhar algum dinheiro.
Como? Ora, vendendo aos países ricos (poluidores)
os créditos de carbono obtidos com esses projetos.
Se está difícil de entender, vale lembrar que
as regras de Kyoto prevêem uma redução
na emissão de gases causadores do efeito estufa. A
meta do tratado é tornar o volume de gases liberados
na atmosfera 5,2% inferior ao registrado em 1990. E essa tarefa
tem de ser concluída até 2012, no máximo.
Para cumpri-la, porém, os países desenvolvidos
teriam de reduzir bruscamente seu ritmo de atividade. Indústrias
seriam obrigadas a desacelerar ou, ainda, a investir milhões
em uma grande faxina em suas linhas de produção
– e sabe-se lá que tipo de capotagem a economia
mundial sofreria depois de uma freada dessas. Por isso, o
Protocolo de Kyoto permite que as empresas dos países
ricos comprem “créditos” para continuar
poluindo. Uma companhia japonesa, por exemplo, pode investir
em um projeto capaz de tirar da atmosfera uma determinada
quantidade de dióxido de carbono (o maior dos vilões
do efeito estufa). Nesse caso, terá direito a continuar
emitindo a mesma quantidade desse gás em suas fábricas
instaladas no Japão. Ou seja: ao assinar o tratado,
Putin fez nascer um comércio gigantesco de títulos
que autorizam empresas a emitir gases poluentes, e que são
conhecidos como “créditos de carbono”.
Entre os especialistas, ninguém tem a menor dúvida
de que esse mercado ainda vai estourar.
O Brasil, é claro, tem muito a ganhar com esse sistema.
O país já era considerado uma virtual potência
da “economia verde” antes mesmo de o acordo ter
sido firmado. Afinal, que outra região do planeta conta
com uma natureza tão exuberante, florestas tão
vastas e uma geografia favorável aos projetos de redução
dos gases nocivos ao clima? Em 2001, estimava-se que, sozinho,
o Brasil poderia movimentar até US$ 1 bilhão
por ano com a compra e venda de seus créditos de carbono,
especialmente a partir de programas de preservação
de matas e reflorestamento. Não por acaso, o governo
brasileiro sempre teve uma participação decisiva
no Protocolo de Kyoto. Saiu de Brasília, por exemplo,
a proposta que deu origem ao Mecanismo de Desenvolvimento
Limpo (MDL), procedimento que regula a comercialização
de créditos com os países em desenvolvimento.
Também é brasileiro o primeiro MDL aprovado
no mundo conforme as exigências de Kyoto. Trata-se do
Nova Gerar, um aterro sanitário localizado em Nova
Iguaçu (RJ) que reutiliza o gás metano (liberado
na decomposição do lixo) para produzir energia
elétrica. E tudo leva a crer que a jornada verde-amarela
ainda vai mais longe. “A previsão é de
que vários outros projetos sejam julgados muito brevemente
e de que a lista vá aumentando com rapidez”,
indica Rui de Góes, diretor de qualidade ambiental
do Ministério do Meio Ambiente.
Até aí, nenhuma surpresa. É de se esperar
que o Brasil tenha uma participação destacada
em qualquer acordo para salvar o clima global. Entretanto,
desde o dia 16 de fevereiro, quando o tratado de Kyoto entrou
oficialmente em vigor, um novo problema se tornou evidente
para o país: é que o potencial brasileiro no
mercado de carbono pode não ser tão grande quanto
se imaginava. Quem acreditava que o protocolo faria jorrar
investimentos do Oiapoque ao Chuí e transformaria as
imensas florestas nacionais em uma espécie de “ouro
verde” estava redondamente enganado. Isso porque as
regras do tratado simplesmente proíbem a exploração
de florestas e matas nativas já existentes para gerar
investimentos, seja no Brasil ou em qualquer outro lugar.
Amazônia, Mata Atlântica, Pantanal... Nada disso
vale um único centavo de carbono. Subtraídas
as florestas, aliás, o potencial brasileiro para atrair
investimentos ambientais é menor que o da China e da
Índia – que não têm um terço
das reservas mantidas por aqui.
Pioneirismo
premiado
É brasileiro o primeiro projeto de Mecanismo
de Desenvolvimento Limpo (MDL) a ser colocado em prática
no mundo. No final do ano passado, o Conselho Executivo
de MDL da ONU deu aval para que o Nova Gerar acumulasse
e comercializasse créditos de carbono. Localizado
na cidade de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, o projeto
consiste na produção de energia elétrica
a partir do biogás liberado pelo lixo em decomposição
de um aterro sanitário. A maior parte desse gás
é constituída de metano, um dos vilões
do efeito estufa. O material é drenado, canalizado
e transformado em combustível – que, em
breve, vai alimentar uma usina de energia elétrica.
O objetivo é gerar 12 megawatts de energia. O
investimento estimado para concretizar o plano é
de US$ 7 milhões.
O empreendimento é uma parceria entre a empresa
de consultoria britânica EcoSecurities e a administradora
de resíduos sólidos S.A. Paulista. Há
expectativa de que entre em operação na
metade deste ano. Desde agora, porém, o Nova
Gerar já está proporcionando negócios.
O governo da Holanda, por exemplo, fechou um contrato
para adquirir cerca de 2,5 milhões de toneladas
de carbono até 2012. O preço estabelecido
foi de 3,35 euros por tonelada. O negócio foi
fechado por meio do Banco Mundial, que comprará
os créditos em nome do governo holandês.
O país tem todo o interesse em evitar o aquecimento
global do planeta. Caso as calotas polares viessem a
derreter, como alardeiam os ambientalistas, a Holanda
seria uma das primeiras regiões a desaparecer
debaixo do mar.
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Nova Gerar: o primeiro projeto
de MDL aprovado no mundo |
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