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      Edição 207 - Janeiro/Fevereiro de 2005
 

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O ex-presidente do BNDES reclama da “timidez” dos empresários brasileiros e afirma que, na conjuntura atual, os argentinos é que são felizes. “Afinal, eles não têm mais nada a perder”

 
Eugênio Esber

O economista Carlos Lessa passou a maior parte de seus 67 anos ministrando aulas de Economia Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Como grande parte dos acadêmicos, sempre foi um crítico das políticas públicas adotadas no Brasil. E se tornou ainda mais cáustico nos anos de abertura econômica do país, sob o comando dos presidentes Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso – período que ele chama de “Fernandécada”. Quando foi nomeado presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Lessa finalmente vislumbrou a chance de concretizar as mudanças que defendia nos tempos de professor. Tinha a expectativa de que o Brasil experimentaria um revival do modelo desenvolvimentista de outras épocas. Não passou da expectativa. O Banco Central manteve o foco na política monetária, e em Brasília persistiu o receituário adotado pelos governos anteriores, que Lessa tanto criticava. Contrariado, não demorou a se tornar uma boca maldita na equipe de Lula e ser afastado do BNDES, em novembro do ano passado. Nesta entrevista, Lessa conta um pouco do que aprendeu nos 23 meses em que presidiu o banco, fustiga o presidente do BC e emprega o depoimento de um amigo para atacar a autonomia do comitê que fixa a taxa de juros. “Você votou neles? É claro que não. Mas eles comandam a tua vida. Teu filho não vai ter emprego e teu neto vai ter de tentar a sorte em Miami porque esses caras estão colocando dificuldades no teu caminho.”

Como é possível evitar que uma política industrial se desvirtue de seu objetivo estratégico e acabe degenerando para a proteção de setores ineficientes?
A expressão "política industrial" foi estigmatizada e exorcizada do vocabulário político brasileiro ao longo dos anos 90 pelo receituário liberal. Nessa visão, só há política industrial horizontal, ou seja, aquela que está ligada à ambiência geral, como taxas de juros civilizadas, menor carga tributária. A existência de instrumentos específicos de fomento para segmentos industriais seria uma “intrusão indevida” no funcionamento da economia de mercado. Na verdade, esta coisa de sepultar o conceito de política industrial é um corolário do discurso neoliberal, que foi hegemônico nos anos 90. Mas hoje esta hegemonia está abalada. O atual governo já assumiu explicitamente a necessidade de uma política industrial. De qualquer forma, eu acho que o Brasil demorou muito tempo para desmontar algumas cercas que mantinha em torno de setores que já estavam solidamente instalados no país e, por isso, não precisavam mais de proteção.

Que setores?
Toda a indústria tradicional brasileira dos anos 20, quando começaram a se instalar os parques farmacêutico, de cosméticos, de perfumaria, tecidos, confecções etc. Era de se supor que essas indústrias já estivessem absolutamente maduras. Mas elas continuam sendo protegidas, o que não é correto. O correto seria proteger a indústria de bens de capital, especialmente em um país que precisa crescer significativamente como o Brasil. A industrialização não avança por si só. Sempre existe uma relação importante e estratégica com o Estado. É o que ocorre nos EUA, na Europa e no Japão. Temos de ter uma política industrial, sim, e cada vez mais estruturada.

Quanto as taxas de juros atuais dificultam esse processo?
Eu acho um absurdo o nível de taxa de juros e o spread praticados no Brasil. Eles inibem o investimento privado e atrofiam de maneira dramática o investimento público. Pagar juros se tornou uma prioridade para o setor público no lugar de investimentos em infra-estrutura, gastos sociais etc. É uma coisa dramática. Não consigo entender. Eu não estou entendendo a atual atitude do Conselho de Política Monetária (Copom). O que eles querem é um país de cemitério. Bastou a economia brasileira fazer um pequeno vôo de galinha no ano passado, ter uma recuperação em 2004, e já se acenderam sinais de alarme por todos os lados.

O senhor ainda tem esperança de que, até o fim do atual mandato, Lula consiga legar ao país uma taxa de juros mais razoável?
Eu sou otimista por natureza. Hoje, no Brasil, eu não conheço uma única federação de indústria que aplauda essa política de juros. Não há uma única confederação de trabalhadores que aplauda essa política de juros. Agricultura e indústria são contra essa taxa de juros. A taxa só é festejada pelos bancos brasileiros e pelo mercado financeiro. Mais cedo ou mais tarde, o governo vai ter de ouvir o resto da multidão.

“O reajuste de preços, no Brasil, ocorre de maneira muito rápida. Se eu fosse do Copom, ficaria assustado. Qualquer ventozinho de recuperação faz os preços subirem imediatamente”.

E o senhor acha que a inflação brasileira tem uma componente da demanda?
Acho que sim. Mas não é só um problema de componente de demanda. O reajuste de preços no Brasil também é muito, muito rápido. Se eu estivesse no Copom, ficaria assustado. Qualquer ventozinho de recuperação faz os preços subirem imediatamente.

Então, o senhor entende, de certa forma, a postura conservadora do Banco Central...
Não é bem assim. Uma vez, um amigo me perguntou o seguinte: quais são os nomes dos oito diretores que definem a política monetária do país? Você votou neles? É claro que não. E entretanto eles comandam a tua vida. Teu filho não vai ter emprego e teu neto eventualmente vai ter de tentar a sorte em Miami porque esses caras estão colocando dificuldades no teu caminho. De onde emana essa autoridade? Pessoalmente, eu acho que o Copom devia ter protagonistas do setor privado e protagonistas sindicais. Devia ter pessoas que refletissem outras visões e outras percepções da vida social. É muito perigoso você fazer tudo isso no círculo extremamente fechado do atual Copom.

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