| O economista Carlos Lessa
passou a maior parte de seus 67 anos ministrando
aulas de Economia Brasileira na Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ). Como grande parte dos
acadêmicos, sempre foi um crítico
das políticas públicas adotadas
no Brasil. E se tornou ainda mais cáustico
nos anos de abertura econômica do país,
sob o comando dos presidentes Fernando Collor
e Fernando Henrique Cardoso – período
que ele chama de “Fernandécada”.
Quando foi nomeado presidente do Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES),
Lessa finalmente vislumbrou a chance de concretizar
as mudanças que defendia nos tempos de
professor. Tinha a expectativa de que o Brasil
experimentaria um revival do modelo desenvolvimentista
de outras épocas. Não passou da
expectativa. O Banco Central manteve o foco na
política monetária, e em Brasília
persistiu o receituário adotado pelos governos
anteriores, que Lessa tanto criticava. Contrariado,
não demorou a se tornar uma boca maldita
na equipe de Lula e ser afastado do BNDES, em
novembro do ano passado. Nesta entrevista, Lessa
conta um pouco do que aprendeu nos 23 meses em
que presidiu o banco, fustiga o presidente do
BC e emprega o depoimento de um amigo para atacar
a autonomia do comitê que fixa a taxa de
juros. “Você votou neles? É
claro que não. Mas eles comandam a tua
vida. Teu filho não vai ter emprego e teu
neto vai ter de tentar a sorte em Miami porque
esses caras estão colocando dificuldades
no teu caminho.”
Como é possível evitar
que uma política industrial se desvirtue
de seu objetivo estratégico e acabe degenerando
para a proteção de setores ineficientes?
A expressão "política industrial"
foi estigmatizada e exorcizada do vocabulário
político brasileiro ao longo dos anos 90
pelo receituário liberal. Nessa visão,
só há política industrial
horizontal, ou seja, aquela que está ligada
à ambiência geral, como taxas de
juros civilizadas, menor carga tributária.
A existência de instrumentos específicos
de fomento para segmentos industriais seria uma
“intrusão indevida” no funcionamento
da economia de mercado. Na verdade, esta coisa
de sepultar o conceito de política industrial
é um corolário do discurso neoliberal,
que foi hegemônico nos anos 90. Mas hoje
esta hegemonia está abalada. O atual governo
já assumiu explicitamente a necessidade
de uma política industrial. De qualquer
forma, eu acho que o Brasil demorou muito tempo
para desmontar algumas cercas que mantinha em
torno de setores que já estavam solidamente
instalados no país e, por isso, não
precisavam mais de proteção.
Que setores?
Toda a indústria tradicional brasileira
dos anos 20, quando começaram a se instalar
os parques farmacêutico, de cosméticos,
de perfumaria, tecidos, confecções
etc. Era de se supor que essas indústrias
já estivessem absolutamente maduras. Mas
elas continuam sendo protegidas, o que não
é correto. O correto seria proteger a indústria
de bens de capital, especialmente em um país
que precisa crescer significativamente como o
Brasil. A industrialização não
avança por si só. Sempre existe
uma relação importante e estratégica
com o Estado. É o que ocorre nos EUA, na
Europa e no Japão. Temos de ter uma política
industrial, sim, e cada vez mais estruturada.
Quanto as taxas de juros atuais dificultam
esse processo?
Eu acho um absurdo o nível de taxa de juros
e o spread praticados no Brasil. Eles
inibem o investimento privado e atrofiam de maneira
dramática o investimento público.
Pagar juros se tornou uma prioridade para o setor
público no lugar de investimentos em infra-estrutura,
gastos sociais etc. É uma coisa dramática.
Não consigo entender. Eu não estou
entendendo a atual atitude do Conselho de Política
Monetária (Copom). O que eles querem é
um país de cemitério. Bastou a economia
brasileira fazer um pequeno vôo de galinha
no ano passado, ter uma recuperação
em 2004, e já se acenderam sinais de alarme
por todos os lados.
O senhor ainda tem esperança de
que, até o fim do atual mandato, Lula consiga
legar ao país uma taxa de juros mais razoável?
Eu sou otimista por natureza. Hoje, no Brasil,
eu não conheço uma única
federação de indústria que
aplauda essa política de juros. Não
há uma única confederação
de trabalhadores que aplauda essa política
de juros. Agricultura e indústria são
contra essa taxa de juros. A taxa só é
festejada pelos bancos brasileiros e pelo mercado
financeiro. Mais cedo ou mais tarde, o governo
vai ter de ouvir o resto da multidão.
| “O
reajuste de preços, no Brasil, ocorre
de maneira muito rápida. Se eu fosse
do Copom, ficaria assustado. Qualquer ventozinho
de recuperação faz os preços
subirem imediatamente”. |
E o senhor acha que a inflação
brasileira tem uma componente da demanda?
Acho que sim. Mas não é só
um problema de componente de demanda. O reajuste
de preços no Brasil também é
muito, muito rápido. Se eu estivesse no
Copom, ficaria assustado. Qualquer ventozinho
de recuperação faz os preços
subirem imediatamente.
Então, o senhor entende, de certa
forma, a postura conservadora do Banco Central...
Não é bem assim. Uma vez, um amigo
me perguntou o seguinte: quais são os nomes
dos oito diretores que definem a política
monetária do país? Você votou
neles? É claro que não. E entretanto
eles comandam a tua vida. Teu filho não
vai ter emprego e teu neto eventualmente vai ter
de tentar a sorte em Miami porque esses caras
estão colocando dificuldades no teu caminho.
De onde emana essa autoridade? Pessoalmente, eu
acho que o Copom devia ter protagonistas do setor
privado e protagonistas sindicais. Devia ter pessoas
que refletissem outras visões e outras
percepções da vida social. É
muito perigoso você fazer tudo isso no círculo
extremamente fechado do atual Copom. |