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      Edição 205 - Novembro de 2004
 

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A falta de estímulos à criatividade ronda as empresas
e pode destruir carreiras.
Afinal, há maneira de permanecer imune à síndrome
da mente mediana?


Erik Farina

Idéias criativas e diferenciadas, que ousem fugir do banal, são cada vez mais raras. As empresas vivem uma era marcada por forte crise de imaginação, inovação e senso crítico. Nessa atmosfera, as opiniões se reproduzem e a grande maioria das pessoas apenas repete o que já ouviu ou leu. Esse é o cenário vislumbrado pelo analista social norte-americano Curtis White em seu novo livro, A Mente Mediana – Por Que deixamos de Pensar por Nós Mesmos, lançado no Brasil pela editora Francis. Para ele, o modo de vida moderno está contagiado pela mediocridade em suas principais instâncias. “Sacrificamos nossas vidas por uma sensação de conforto em acatar. O que dizem os pais, professores e porta-vozes da mídia basta para nós. Nossa imaginação anda muito pobre ”, denuncia o autor.

A crítica de White é dirigida à rotina dos norte-americanos. Mas, na opinião de especialistas, pode ser adaptada sem prejuízos à realidade brasileira. “Parte de nossa sociedade está sem espírito crítico, com preguiça de pensar, e aceita passivamente o que é colocado”, entende o psicólogo e administrador José Ernesto Bologna, fundador do Ethos Desenvolvimento, de São Paulo.

As causas dessa pobreza de pensamento estão ligadas à formação cultural. Desde a infância, o indivíduo é ensinado a repetir o que dá certo para se encaixar ao que a sociedade e o mercado pedem. Poucos são estimulados a pensar em formas alternativas de conduzir a vida. O resultado é uma geração inteira com as mesmas idéias, pontos de vista semelhantes e com chances minguadas de deslanchar na carreira. “Vivemos uma crise de paradigma, na qual todos fazem as mesmas coisas, assistem aos mesmos programas e se relacionam com pessoas de mesma mentalidade”, analisa a pesquisadora e escritora Dulce Magalhães, da Work Educação Empresarial, de Florianópolis.

As conseqüências da mesmice são perigosas. Pessoas com perfil de “mente mediana” deixam escapar oportunidades e estão mais propensas a serem atropeladas pela rotina. As tarefas mais banais – como procurar vias alternativas a um engarrafamento no trânsito em vez de esperar que a situação se resolva sozinha – são sequer consideradas. Em casa, quem não usa a criatividade para diversificar em seus momentos de lazer com a família é alvo fácil do tédio. No trabalho, os profissionais não convencem em reuniões e nem conseguem visualizar soluções em momentos de crise. A pena: dificuldades para impulsionar a carreira. “Estamos na era do talento e da criatividade. Profissionais com pensamento diferenciado são muito valorizados e abrem um abismo de oportunidades e salários em relação aos que têm mente mediana”, alerta Victor Mirshawka Júnior, professor de criatividade da Fundação Armando Álvares Penteado (Fappa).

Até as escolas e universidades são acusadas pela difusão da cultura da mediocridade. Poucas abrem espaço para que os alunos pensem ou critiquem o que é ensinado. “Muitas universidades não se preocupam com a reciclagem ou desenvolvimento cultural de seus professores, e isso se reflete no ensino”, lamenta o professor de Marketing Marcos Cobra, da Fundação Getúlio Vargas.


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