Voltar para página inicial
      Edição 205 - Novembro de 2004
 

    Matéria de Capa
    Especial
    Entrevista
    Exclusivo
Capa da edição



 
Quer receber notícias exclusivas da revista Amanhã?

(digite seu email)

 
Imprima esta matéria Dê sua opinião Indique este texto


Hoje uma requisitada especialista em ética nos negócios, Lynn Brewer conta por que abandonou o emprego de seus sonhos para tornar público o maior escândalo financeiro da história dos Estados Unidos

 
Alexandre de Santi

Em 1998, Lynn Brewer, uma profissional com formação em ética nos negócios, arranjava o emprego dos seus sonhos: uma vaga no departamento de gerenciamento de risco em energia da Enron, a empresa mais bem conceituada dos Estados Unidos. Na época, a companhia era elogiada por sua capacidade de inovação e de produzir sucessivos lucros. Mas o sonho durou apenas seis meses. Foi o tempo que Lynn demorou para descobrir uma fraude contábil na Enron – a primeira de muitas que viria a testemunhar. A executiva tentou denunciar o esquema para seus chefes, mas foi aconselhada a esquecer do assunto. De quebra, foi sendo transferida para outros cargos à medida que descobria novas tramóias. Até que, depois de três anos de forçado silêncio, Lynn pediu demissão e decidiu levar a história aos tribunais. Tornava-se, assim, uma das principais responsáveis por revelar o maior escândalo financeiro da história norte-americana. O episódio, é claro, rendeu fama à ex-executiva. Além de especialista em ética no setor financeiro, hoje Lynn é presidente do The Integrity Institute, entidade sem fins lucrativos que pretende certificar empresas com contabilidade responsável. Também lançou um livro, sugestivamente intitulado Confessions of an Enron Executive: a Whistleblower’s Story (Confissões de uma Executiva da Enron: a História de uma Delatora, ainda inédito no Brasil).

O que você fez quando descobriu irregularidades na Enron?
iz a denúncia dentro da própria empresa, em cinco oportunidades diferentes. Mas nada aconteceu. Ficou claro que o problema era cultural. O momento decisivo foi quando resolvi fazer a denúncia no programa de atendimento ao funcionário da Enron. Nos Estados Unidos, as empresas são obrigadas a ter esse serviço. As pessoas ligam para o número em caso de violência, vício em drogas etc. Mas normalmente esses telefones não são utilizados para denunciar fraudes.

E qual foi a resposta??
O pessoal do programa disse que não sabia o que fazer com um caso daqueles. Disseram que aquele não era o caminho mais adequado para resolver o problema. Foi então que eu resolvi procurar um advogado. Deixei a empresa, mas tive de assinar um acordo que me proibia de processar a Enron. Então, comecei a passar informações para esse advogado, que iniciou a primeira de muitas ações judiciais contra a empresa.

De que maneira você percebeu que a empresa era fraudulenta?
Em 2000 e 2001, notei que a Enron estava cometendo abusos no mercado de energia. Eles tinham um contrato com o governo no qual o preço das tarifas poderia ser alterado conforme as previsões de demanda. No entanto, a Enron estava explorando novos mercados, dos quais não possuía um histórico. Ou seja, era impossível fazer previsões de demanda sobre eles. A empresa então aproveitava e definia a tarifa que bem entendia. No mundo deles, tudo podia. Até que houve uma queda geral nas tarifas. Para evitar prejuízo, eles começaram a pagar comissões de venda de energia em contratos de 20 anos, para vendedores que provavelmente não estariam mais operando no mercado até lá. Era como um suborno, uma maneira de criar uma pressão artificial e fazer as tarifas subirem novamente. Mas a queda nos preços persistiu e começou a afetar o desempenho das ações. Em 2001, a Enron não era mais a criança abençoada da bolsa.

Mas ninguém percebia esse esquema?
Uma rádio de Seattle chegou a fazer uma matéria sobre o assunto. Aí mandei um e-mail para o repórter informando que havia participado do processo. Ele me ligou e me colocou no ar, ao vivo, por 45 minutos. No final da entrevista, o jornalista me perguntou se eu já havia informado o governo sobre a manipulação nos preços de energia. E eu não tinha. Expliquei que, do ponto de vista político, o atual presidente dos Estados Unidos estava no cargo por causa do apoio financeiro da Enron, que doou a maior parte dos recursos da campanha de Bush. O repórter me sugeriu que eu fizesse uma denúncia ao presidente da comissão de energia do Congresso, e foi isso que fiz. Mandei para ele um e-mail com o título “Tenho provas de fraude e espionagem na Enron”. Ele nem precisou abrir a mensagem para saber que se tratava de algo importante.

“Mandei um e-mail para o presidente da Comissão de Energia do Congresso com o título ‘Tenho provas de fraude e espionagem na Enron’.

Desde então, o número de denúncias contra empresas abertas nos EUA cresceu assustadoramente. Como explicar isso?
A SEC (Security and Exchange Comission, órgão do governo americano que fiscaliza as empresas de capital aberto, equivalente à CVM brasileira) está recebendo hoje em dia mais ou menos 50 mil denúncias por mês. Quando se leva em conta que há somente 9 mil empresas listadas nas bolsas americanas, você se dá conta de que há um grande problema. Há várias maneiras de explicar isso. Uma delas é que a Sarbanes-Oxley (lei americana criada para evitar novos casos como o da Enron) determina a criação de um sistema interno de denúncias anônimas em cada empresa. A nova lei também impede retaliações contra funcionários em caso de denúncia, prevendo prisão e uma multa de US$ 10 milhões. Então, acho que há pessoas que estão próximas da demissão e usam o sistema de denúncias para se proteger. Mesmo assim, não posso ignorar a idéia de que ainda há um problema. A SEC recebia 3,4 mil denúncias quando a Enron implodiu. Vamos assumir que 10% dos casos atuais sejam verdadeiros. Cinco mil denúncias ainda é muito.

Copyright © Revista Amanhã - Conectt Marketing Interativo