| Em 1998, Lynn Brewer, uma
profissional com formação em ética
nos negócios, arranjava o emprego dos seus
sonhos: uma vaga no departamento de gerenciamento
de risco em energia da Enron, a empresa mais bem
conceituada dos Estados Unidos. Na época,
a companhia era elogiada por sua capacidade de
inovação e de produzir sucessivos
lucros. Mas o sonho durou apenas seis meses. Foi
o tempo que Lynn demorou para descobrir uma fraude
contábil na Enron – a primeira de
muitas que viria a testemunhar. A executiva tentou
denunciar o esquema para seus chefes, mas foi
aconselhada a esquecer do assunto. De quebra,
foi sendo transferida para outros cargos à
medida que descobria novas tramóias. Até
que, depois de três anos de forçado
silêncio, Lynn pediu demissão e decidiu
levar a história aos tribunais. Tornava-se,
assim, uma das principais responsáveis
por revelar o maior escândalo financeiro
da história norte-americana. O episódio,
é claro, rendeu fama à ex-executiva.
Além de especialista em ética no
setor financeiro, hoje Lynn é presidente
do The Integrity Institute, entidade sem fins
lucrativos que pretende certificar empresas com
contabilidade responsável. Também
lançou um livro, sugestivamente intitulado
Confessions of an Enron Executive: a Whistleblower’s
Story (Confissões de uma Executiva da Enron:
a História de uma Delatora, ainda inédito
no Brasil).
O que você fez quando descobriu
irregularidades na Enron?
iz a denúncia dentro da própria
empresa, em cinco oportunidades diferentes. Mas
nada aconteceu. Ficou claro que o problema era
cultural. O momento decisivo foi quando resolvi
fazer a denúncia no programa de atendimento
ao funcionário da Enron. Nos Estados Unidos,
as empresas são obrigadas a ter esse serviço.
As pessoas ligam para o número em caso
de violência, vício em drogas etc.
Mas normalmente esses telefones não são
utilizados para denunciar fraudes.
E qual foi a resposta??
O pessoal do programa disse que não sabia
o que fazer com um caso daqueles. Disseram que
aquele não era o caminho mais adequado
para resolver o problema. Foi então que
eu resolvi procurar um advogado. Deixei a empresa,
mas tive de assinar um acordo que me proibia de
processar a Enron. Então, comecei a passar
informações para esse advogado,
que iniciou a primeira de muitas ações
judiciais contra a empresa.
De que maneira você percebeu que a empresa
era fraudulenta?
Em 2000 e 2001, notei que a Enron estava cometendo
abusos no mercado de energia. Eles tinham um contrato
com o governo no qual o preço das tarifas
poderia ser alterado conforme as previsões
de demanda. No entanto, a Enron estava explorando
novos mercados, dos quais não possuía
um histórico. Ou seja, era impossível
fazer previsões de demanda sobre eles.
A empresa então aproveitava e definia a
tarifa que bem entendia. No mundo deles, tudo
podia. Até que houve uma queda geral nas
tarifas. Para evitar prejuízo, eles começaram
a pagar comissões de venda de energia em
contratos de 20 anos, para vendedores que provavelmente
não estariam mais operando no mercado até
lá. Era como um suborno, uma maneira de
criar uma pressão artificial e fazer as
tarifas subirem novamente. Mas a queda nos preços
persistiu e começou a afetar o desempenho
das ações. Em 2001, a Enron não
era mais a criança abençoada da
bolsa.
Mas ninguém percebia esse esquema?
Uma rádio de Seattle chegou a fazer uma
matéria sobre o assunto. Aí mandei
um e-mail para o repórter informando
que havia participado do processo. Ele me ligou
e me colocou no ar, ao vivo, por 45 minutos. No
final da entrevista, o jornalista me perguntou
se eu já havia informado o governo sobre
a manipulação nos preços
de energia. E eu não tinha. Expliquei que,
do ponto de vista político, o atual presidente
dos Estados Unidos estava no cargo por causa do
apoio financeiro da Enron, que doou a maior parte
dos recursos da campanha de Bush. O repórter
me sugeriu que eu fizesse uma denúncia
ao presidente da comissão de energia do
Congresso, e foi isso que fiz. Mandei para ele
um e-mail com o título “Tenho
provas de fraude e espionagem na Enron”.
Ele nem precisou abrir a mensagem para saber que
se tratava de algo importante.
| “Mandei
um e-mail para o presidente da Comissão
de Energia do Congresso com o título
‘Tenho provas de fraude e espionagem
na Enron’. |
Desde então, o número de
denúncias contra empresas abertas nos EUA
cresceu assustadoramente. Como explicar isso?
A SEC (Security and Exchange Comission, órgão
do governo americano que fiscaliza as empresas
de capital aberto, equivalente à CVM brasileira)
está recebendo hoje em dia mais ou menos
50 mil denúncias por mês. Quando
se leva em conta que há somente 9 mil empresas
listadas nas bolsas americanas, você se
dá conta de que há um grande problema.
Há várias maneiras de explicar isso.
Uma delas é que a Sarbanes-Oxley (lei americana
criada para evitar novos casos como o da Enron)
determina a criação de um sistema
interno de denúncias anônimas em
cada empresa. A nova lei também impede
retaliações contra funcionários
em caso de denúncia, prevendo prisão
e uma multa de US$ 10 milhões. Então,
acho que há pessoas que estão próximas
da demissão e usam o sistema de denúncias
para se proteger. Mesmo assim, não posso
ignorar a idéia de que ainda há
um problema. A SEC recebia 3,4 mil denúncias
quando a Enron implodiu. Vamos assumir que 10%
dos casos atuais sejam verdadeiros. Cinco mil
denúncias ainda é muito. |