| Andreas
Müller

Recentemente, o vice-presidente
de marketing do McDonald’s, Larry Light,
fez uma afirmação que deixou muitos
especialistas em branding de cabelo em
pé. Em uma entrevista ao jornal Gazeta
Mercantil, o executivo aproveitou para diplomaticamente
dizer que esse negócio de posicionar marcas
era coisa do passado. Pregou: “Tomem cuidado
com aqueles que acham que as marcas precisam,
necessariamente, ter um posicionamento. Isso não
faz mais sentido. Hoje, o consumidor está
muito mais complexo e consome em diversos segmentos
diferentes”.
Não é novidade que
os consumidores estão realmente mais ariscos
e dispostos a consumir produtos variados, sem
fidelidade às marcas. Em outubro de 2002,
AMANHÃ já apontava essa tendência
na sua reportagem de capa “A era da infidelidade”
(ed.182).
Mas afirmar que as grifes não precisam
mais de posicionamento soou como heresia para
os discípulos do branding. Na
prática, Light desqualificou um dos conceitos
mais tradicionais do gerenciamento de marcas.
Desde que foi criada, na década de 1970,
a teoria do posicionamento serve de guia para
qualquer estratégia de marketing. Não
por acaso, a maioria das empresas ainda faz um
detalhado raio-X do mercado antes de anunciar
qualquer produto ou serviço.
De qualquer forma, não se
pode dizer que Light pisou na bola. Diante da
infidelidade do consumidor, um grupo crescente
de empresas está revendo suas estratégias
de branding. Tudo em nome de resultados
mais animadores. Com freqüência, essas
mudanças são confundidas com reposicionamento
de marca. Mas a verdade é que muitas dessas
companhias não estão se “reposicionando”,
e sim expandindo a abrangência de suas grifes.
O próprio McDonald’s serve de exemplo.
Há bem pouco tempo, a rede era mundialmente
conhecida por suas campanhas dirigidas ao público
infantil. O personagem Ronald McDonald e sua turma
saltitavam em todos os anúncios publicitários
da marca, em uma tentativa declarada de associá-la
a brincadeiras, alegria e diversão. Hoje,
o palhaço não faz nem ponta na nova
campanha mundial da franquia, intitulada I’m
lovin’ it – e traduzida no Brasil
como “Amo muito tudo isso”. Segundo
Mauro Multedo, vice-presidente de marketing e
comunicação do McDonald’s
Brasil, o objetivo foi o de vender a marca também
para o público jovem, mas sem deixar de
lado as crianças. “Nossos dois principais
públicos são jovens. É alguém
que está em um período de transição,
construindo a vida”, explica. “Partimos
do pressuposto de que os consumidores já
conheciam e se relacionavam com a nossa marca.
Por isso, podíamos apresentá-la
de uma forma mais subjetiva, sem ter um público
tão definido.”
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| Desfile da Colcci: de
marca popular a grife de alta moda |
Quem é infiel?
– Na tentativa de assegurar o crescimento
das vendas na era da infidelidade, as próprias
marcas estão se tornando “infiéis”
– ao se dedicarem a mais do que um segmento.
“A Avon, por exemplo, que era considerada
uma marca popular, passou a ser vista como produto
‘de classe’ graças ao lançamento
de linhas com alta tecnologia. E o mais importante:
sem abandonar seu primeiro público”,
exemplifica Roberto Duailibi, presidente da agência
de publicidade DPZ.
Na verdade, o que está
ocorrendo é uma mudança nos próprios
métodos de posicionamento de marcas. Os
especialistas em branding admitem que
já acabou o tempo em que as companhias
faziam uma pesquisa sobre a idade e a renda dos
consumidores e, a partir daí, elaboravam
suas táticas de vendas. Hoje, é
necessário bem mais do que isso para uma
grife crescer e, principalmente, sobreviver à
concorrência. “Um levantamento meramente
quantitativo, baseado em idade e renda, pode reunir
na mesma faixa de consumidores um jogador de futebol,
a Princesa Diana e um de nós”, diverte-se
o antropólogo carioca Everardo Rocha, professor
da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro
(PUC-Rio).
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