| Uma entrevista como a que
concedeu a AMANHÃ seria impensável,
um ano atrás, para o norte-americano Richard
Greubel, presidente da Monsanto no Brasil, ou
para qualquer outro alto executivo da empresa
pioneira no desenvolvimento de plantas geneticamente
modificadas. Enquanto ambientalistas europeus
cunhavam a expressão “Frankenfoods”
para designar a soja e o milho que receberam genes
de outras espécies para controlar as pragas,
a Monsanto se fechou em copas e esperou que o
debate se tornasse mais técnico. “Só
falávamos com produtores, cientistas e
órgãos reguladores”, lembra
Richard. Quando percebeu o erro, a Monsanto mudou
a estratégia. Passou a exibir seus laboratórios
em Saint Louis, no meio-oeste norte-americano,
para jornalistas, ONGs e parlamentares que são
críticos da biotecnologia. O tom desta
entrevista, solicitada há quase um ano
por AMANHÃ, mostra que a cautela ainda
é a marca da Monsanto – e particularmente
de Richard, que vive em São Paulo com a
mulher, Ellen, e quatro filhos. Informal –
todos o chamam de Rick na companhia –, terá
de usar o português bastante razoável
que adquiriu em três anos de Brasil para
explicar aos produtores por que o valor dos royalties
cobrados pelo uso da soja transgênica dobrará
este ano. “O valor do ano passado tinha
um desconto”, diz.
Há resistência a transgênicos
em mercados importantes no cenário mundial.
Como a Monsanto espera neutralizá-los?
Não existe grande resistência a transgênicos.
Há um pouco de mito nesta crença.
É preciso olhar os números. Sai
muito na mídia que os europeus e os chineses
estão contra os produtos transgênicos
e a biotecnologia. Mas os fatos mostram algo diferente.
Europa e China são os maiores importadores
de soja transgênica no mundo. Tem sido assim
nos últimos cinco anos. A questão
é que há alguns grupos, que não
são muitos, mas fazem muito barulho, sustentando
que o mundo está contra, embora a realidade
indique o contrário. Europeus e chineses
importam e plantam transgênicos. Na China,
o plantio de transgênicos envolve mais de
7 milhões de produtores, todos eles de
pequeno porte, vinculados à agricultura
familiar. A China é um dos países
com maior orçamento destinado à
pesquisa de biotecnologia. O governo chinês
considera a biotecnologia totalmente estratégica
para o futuro do país. Eles estão
pesquisando até mesmo o desenvolvimento
de árvores, a partir da biotecnologia,
para combater o efeito estufa.
E na Europa?
A Europa agora está mudando. Está
se abrindo. Porque todas as evidências levam
a crer que a soja, o milho e o algodão
transgênicos que estão no mercado,
hoje, são tão seguros quanto o produto
convencional se não mais seguros... Os
mais importantes grupos científicos de
lá têm chegado a essa conclusão.
Sabe por que os países europeus não
plantam a soja RR? Por que não há
soja lá. O clima europeu não permite
plantar soja. Por isso é que eles só
importam. E a grande maioria da soja importada
é transgênica. É claro que
há uma base de clientes que importa soja
convencional, e a Monsanto não está
contra isso. Ao contrário. A gente vende
também sementes convencionais – e
portanto isso faz parte do nosso negócio.
Nossa posição é de que o
consumidor final merece o direito de escolher.
Assim como o produtor rural também deve
ter o direito de escolher o que vai plantar. O
mercado é que vai examinar.
A Europa não planta soja, mas
planta milho. Como está a resistência
ao plantio do milho transgênico no continente?
O milho BT (transgênico) já
é plantado na Espanha. E há pesquisas
em andamento na França e na Alemanha para
plantio de milho transgênico não
só da Monsanto como dos concorrentes –
Pioneer, DuPont etc. A Europa acaba de aprovar
a comercialização de 17 variedades
do nosso milho BT em toda a região. Voltando
à soja, há uma pequena parte da
Europa, formada por Romênia e Bulgária,
que planta. E, nesses países, a biotecnologia
está sendo adotada de forma muito mais
rápida que na parte mais tradicional da
Europa.
Como a Monsanto pretende convencer o
Greenpeace e outros movimentos ambientalistas
que se opõem ao plantio e ao consumo de
transgênicos?
A gente já sabe que, com o conhecimento
profundo do assunto, vem a aceitação.
É isso o que estamos vendo aqui no Brasil,
na Europa e em todos os países nos quais
a biotecnologia está sendo implantada.
De fato, biotecnologia é um assunto muito
complicado, por ser baseado em ciência.
Compreendê-lo bem leva um tempo. É
natural que o público em geral e também
os líderes e os formadores de opinião
tenham dificuldade para assimilar em profundidade
quais são os benefícios da tecnologia.
Mas nossa experiência diz que, quando alguém
se aprofunda no exame desse assunto, dificilmente
deixa de reconhecer que se trata de uma tecnologia
com extraordinário potencial.
Mas como a Monsanto responde aos argumentos
dos ambientalistas?
Com respeito aos grupos ambientalistas que estão
contra os transgênicos, a Monsanto não
espera convencê-los porque as posições
que defendem são baseadas em ideologia
e não em ciência. Na há fatos
que dêem respaldo ao que eles falam para
a mídia. Aliás, os fatos mostram
o contrário do que eles dizem. A realidade
comprova que, com a biotecnologia, o uso de defensivos
agrícolas é menor. E há um
monte de dados que provam isso. Não só
no Brasil, e particularmente no Rio Grande do
Sul, mas em diferentes países: na Argentina,
no Canadá, nos Estados Unidos, na Austrália,
na China... E não há danos ao meio
ambiente, porque a biotecnologia atua contra as
pragas de uma forma muito mais específica
que os agrotóxicos. A biotecnologia não
mata tudo que está em volta da planta.
Mata só a praga que você quer matar.
Milhões de toneladas de agroquímicos
já foram eliminadas ao redor do mundo graças
à biotecnologia. Mas não pretendemos
convencer o Greenpeace a respeito disso. Eles
se baseiam em ideologia. |