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      Edição 204 - Outubro de 2004
 

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O homem que comanda a norte-americana Monsanto no Brasil
diz que a Europa já está se abrindo aos grãos transgênicos e atribui
as críticas a grupos que não são numerosos, mas “fazem barulho”

 
Eugênio Esber

Uma entrevista como a que concedeu a AMANHÃ seria impensável, um ano atrás, para o norte-americano Richard Greubel, presidente da Monsanto no Brasil, ou para qualquer outro alto executivo da empresa pioneira no desenvolvimento de plantas geneticamente modificadas. Enquanto ambientalistas europeus cunhavam a expressão “Frankenfoods” para designar a soja e o milho que receberam genes de outras espécies para controlar as pragas, a Monsanto se fechou em copas e esperou que o debate se tornasse mais técnico. “Só falávamos com produtores, cientistas e órgãos reguladores”, lembra Richard. Quando percebeu o erro, a Monsanto mudou a estratégia. Passou a exibir seus laboratórios em Saint Louis, no meio-oeste norte-americano, para jornalistas, ONGs e parlamentares que são críticos da biotecnologia. O tom desta entrevista, solicitada há quase um ano por AMANHÃ, mostra que a cautela ainda é a marca da Monsanto – e particularmente de Richard, que vive em São Paulo com a mulher, Ellen, e quatro filhos. Informal – todos o chamam de Rick na companhia –, terá de usar o português bastante razoável que adquiriu em três anos de Brasil para explicar aos produtores por que o valor dos royalties cobrados pelo uso da soja transgênica dobrará este ano. “O valor do ano passado tinha um desconto”, diz.

Há resistência a transgênicos em mercados importantes no cenário mundial. Como a Monsanto espera neutralizá-los?
Não existe grande resistência a transgênicos. Há um pouco de mito nesta crença. É preciso olhar os números. Sai muito na mídia que os europeus e os chineses estão contra os produtos transgênicos e a biotecnologia. Mas os fatos mostram algo diferente. Europa e China são os maiores importadores de soja transgênica no mundo. Tem sido assim nos últimos cinco anos. A questão é que há alguns grupos, que não são muitos, mas fazem muito barulho, sustentando que o mundo está contra, embora a realidade indique o contrário. Europeus e chineses importam e plantam transgênicos. Na China, o plantio de transgênicos envolve mais de 7 milhões de produtores, todos eles de pequeno porte, vinculados à agricultura familiar. A China é um dos países com maior orçamento destinado à pesquisa de biotecnologia. O governo chinês considera a biotecnologia totalmente estratégica para o futuro do país. Eles estão pesquisando até mesmo o desenvolvimento de árvores, a partir da biotecnologia, para combater o efeito estufa.

E na Europa?
A Europa agora está mudando. Está se abrindo. Porque todas as evidências levam a crer que a soja, o milho e o algodão transgênicos que estão no mercado, hoje, são tão seguros quanto o produto convencional se não mais seguros... Os mais importantes grupos científicos de lá têm chegado a essa conclusão. Sabe por que os países europeus não plantam a soja RR? Por que não há soja lá. O clima europeu não permite plantar soja. Por isso é que eles só importam. E a grande maioria da soja importada é transgênica. É claro que há uma base de clientes que importa soja convencional, e a Monsanto não está contra isso. Ao contrário. A gente vende também sementes convencionais – e portanto isso faz parte do nosso negócio. Nossa posição é de que o consumidor final merece o direito de escolher. Assim como o produtor rural também deve ter o direito de escolher o que vai plantar. O mercado é que vai examinar.

A Europa não planta soja, mas planta milho. Como está a resistência ao plantio do milho transgênico no continente?
O milho BT (transgênico) já é plantado na Espanha. E há pesquisas em andamento na França e na Alemanha para plantio de milho transgênico não só da Monsanto como dos concorrentes – Pioneer, DuPont etc. A Europa acaba de aprovar a comercialização de 17 variedades do nosso milho BT em toda a região. Voltando à soja, há uma pequena parte da Europa, formada por Romênia e Bulgária, que planta. E, nesses países, a biotecnologia está sendo adotada de forma muito mais rápida que na parte mais tradicional da Europa.

Como a Monsanto pretende convencer o Greenpeace e outros movimentos ambientalistas que se opõem ao plantio e ao consumo de transgênicos?
A gente já sabe que, com o conhecimento profundo do assunto, vem a aceitação. É isso o que estamos vendo aqui no Brasil, na Europa e em todos os países nos quais a biotecnologia está sendo implantada. De fato, biotecnologia é um assunto muito complicado, por ser baseado em ciência. Compreendê-lo bem leva um tempo. É natural que o público em geral e também os líderes e os formadores de opinião tenham dificuldade para assimilar em profundidade quais são os benefícios da tecnologia. Mas nossa experiência diz que, quando alguém se aprofunda no exame desse assunto, dificilmente deixa de reconhecer que se trata de uma tecnologia com extraordinário potencial.

Mas como a Monsanto responde aos argumentos dos ambientalistas?
Com respeito aos grupos ambientalistas que estão contra os transgênicos, a Monsanto não espera convencê-los porque as posições que defendem são baseadas em ideologia e não em ciência. Na há fatos que dêem respaldo ao que eles falam para a mídia. Aliás, os fatos mostram o contrário do que eles dizem. A realidade comprova que, com a biotecnologia, o uso de defensivos agrícolas é menor. E há um monte de dados que provam isso. Não só no Brasil, e particularmente no Rio Grande do Sul, mas em diferentes países: na Argentina, no Canadá, nos Estados Unidos, na Austrália, na China... E não há danos ao meio ambiente, porque a biotecnologia atua contra as pragas de uma forma muito mais específica que os agrotóxicos. A biotecnologia não mata tudo que está em volta da planta. Mata só a praga que você quer matar. Milhões de toneladas de agroquímicos já foram eliminadas ao redor do mundo graças à biotecnologia. Mas não pretendemos convencer o Greenpeace a respeito disso. Eles se baseiam em ideologia.

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