| A companhia de parafusos e rebites Micheletto,
de Canoas (RS), já era uma veterana quando começou
a dar sinais de cansaço. Tão logo completou
90 anos de idade, a companhia se viu num beco sem saída.
De repente, uma série de investimentos mal planejados
gerou uma dívida sete vezes maior do que seu faturamento
anual. Além disso, o preço de seus produtos
estava congelado havia dois anos, mesmo com o aumento na cotação
de sua principal matéria-prima, o aço. Para
piorar, os donos, já em idade avançada, não
queriam mais tocar o negócio. E os herdeiros não
chegavam a nenhum consenso sobre como administrá-lo.
A gestão da Micheletto se resumia a atender fiscais
da Receita Federal cobrando impostos atrasados, driblar fornecedores
raivosos com a falta de pagamento e enrolar funcionários
que pediam verbas para consertar máquinas estragadas.
O basta na penúria começou quando um dos membros
do conselho de administração da Micheletto decidiu
chamar um especialista em reestruturação de
empresas. Em maio de 2002, o paulista Richard Doern desembarcou
em Canoas com a missão de reavivar os negócios.
Como o quadro era gravíssimo, Doern chamou uma equipe
especializada em administrar em tempos de escassez. Suas medidas
foram drásticas: demitiu cerca de 20% dos funcionários
– muitos deles com mais de 20 anos de casa – e
concentrou a produção de duas unidades fabris
em apenas uma. Doern também criou ferramentas de controle
das margens de cada produto e renegociou as pesadas dívidas
da empresa. No final de dois anos, o faturamento da Micheletto
crescia 25% e a receita com as exportações dobrava.
De quebra, como os donos queriam se aposentar, a gestão
de Richard serviu para tornar a empresa atraente a investidores.
“Era um trabalho de vestir a noiva”, conta Richard,
que já carrega no currículo o salvamento da
Eliane Revestimentos Cerâmicos e da famosa butique paulista
Daslu. Seis meses depois de Doern deixar o comando, a Micheletto
foi vendida por R$ 3,5 milhões para a Comafal, indústria
pernambucana de tubos e perfis de aço. Pode parecer
pouco para uma companhia quase centenária. Mas é
muito para quem esteve à beira da falência. Com
a virada da empresa, cerca de 400 empregos foram preservados.
Como a Micheletto, várias companhias brasileiras
hoje devem sua sobrevivência à ajuda dos “médicos”
de empresas – também conhecidos como reestruturadores
ou turnarounders. A Região Sul é pródiga
de exemplos. A companhia gaúcha de celulose Riocell
(que hoje pertence à Aracruz), a cooperativa paranaense
Cocamar e a Cecrisa, um dos maiores grupos de revestimentos
cerâmicos do país, com sede em Criciúma,
foram todas salvas por especialistas em gestão de crises.
“Um reestruturador é, sobretudo, um negociador
de interesses e não de posições. Ele
não pode ter nenhuma ligação afetiva
com os donos do empreendimento. Seu compromisso é apenas
com a sobrevivência da companhia”, teoriza Mário
Marrey, consultor da Marcondes & Associados, empresa especializada
no treinamento de executivos.
A própria remuneração desses profissionais
é atrelada ao êxito do tratamento. Cerca de 60%
dos ganhos – que podem ser milionários –
são calculados pela chamada “taxa de sucesso”
do serviço. Em outras palavras: os médicos corporativos
só engordam seu salário se recuperarem a lucratividade
do negócio. Um diagnóstico errado, por outro
lado, pode significar a aposentadoria. “Se uma empresa
falir nas minhas mãos, estou fora do mercado”,
avalia Richard Doern.
Pacientes
terminais
Os reestruturadores avisam: nem todas as doenças
corporativas têm cura. O turnarounder
Richard Doern conta que, de dez empresas que o procuram,
só uma tem salvação. Na maioria
dos casos, o motivo é o mesmo: o empresário
nega a crise e prolonga uma situação de
caos a tal ponto que os remédios perdem a eficácia.
“Quanto antes a empresa pedir ajuda, mais chances
ela terá e mais barato será o tratamento”,
avisa o advogado catarinense Marcos Andrey de Souza.
Geralmente, as empresas familiares são as principais
vítimas das falências. “Recusei um
trabalho de uma importante fábrica de brinquedos
porque o dono não queria reduzir seus rendimentos”,
relata Eduardo Gomide, diretor-executivo da Kroll Brasil.
“Desse jeito não há como fazer uma
reestruturação”. Segundo Magda Helers,
consultora de empresas familiares, a família
precisa de atenção especial durante um
processo de turnaround. “Nas crises,
a empresa deixa de ser o foco. O foco passa a ser o
conflito familiar”, relata. É por isso
que, muitas vezes, inicia-se um processo de profissionalização
da empresa durante a revitalização. “Dificilmente,
a família volta a gerir o negócio. Uma
empresa muda muito quando sai da UTI”, afirma
o “médico” Glauco Lima.
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Como em todos os tratamentos, porém, a plena recuperação
depende muito da força de vontade do paciente. Sem
o apoio do presidente e dos acionistas, os remédios
raramente surtem o efeito desejado, afirmam os especialistas
em gestão de crises. “Se não recebo carta
branca dos acionistas, pego a mala e vou embora”, adverte
Geraldo Haenel, executivo que está empreendendo a revitalização
do Grupo Paranapanema, maior companhia de mineração
e metalurgia do Brasil. Em todos os processos de salvamento,
o empresário precisa literalmente deixar o negócio
nas mãos do médico corporativo. Emoções
à parte, está aberto o caminho para que a gestão
seja totalmente profissionalizada. Não é um
procedimento indolor, é claro. Especialmente em empresas
familiares. “Houve um caso em que tivemos de proibir
o dono de colocar o pé na empresa, porque diagnosticamos
que ele era o problema”, relata Glauco Abdala Lima,
sócio da Galeazzi & Associados, o mais antigo escritório
de turnaround do país, fundado após o sucesso
do resgate da Cecrisa. De acordo com o advogado catarinense
Marcos Andrey de Sousa, é preciso acabar com o que
ele chama de “donismo empresarial”. “Não
podemos permitir que um empresário quebre uma companhia
e demita dezenas de pessoas por motivos emocionais”,
defende.
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