| Andreas
Müller e
Erik
Farina
Há pouco mais de três
anos, a Credicard anunciava ao mercado uma importante
mudança em suas estratégias de venda:
deixaria de oferecer cartões corporativos
apenas às grandes empresas e passaria a
dar bem mais atenção às médias.
Era a entrada oficial da maior emissora de cartões
de crédito do Brasil no chamado middle-market,
o promissor segmento formado por corporações
de médio porte. À época,
nenhum dos executivos da Credicard escondia seu
entusiasmo com esse filão. A expectativa
era de que as companhias de menor estatura duplicariam
o uso de cartões ao longo de 2003, abrindo
uma poderosa vertente de receitas para a empresa.
Os resultados, porém, ficaram longe do
esperado. Por algum motivo, muitos dos potenciais
clientes do middle-market acharam que
não era hora de investir na modernização
de seus meios de pagamento. Hoje, as grandes organizações
continuam sendo o filé do mercado brasileiro
de cartões de crédito. “Agora
estamos passando por uma reestruturação”,
conta Cláudio Vilela, diretor de vendas
da Credicard. “Queremos entender melhor
o nicho das médias, ver como ele funciona.
Então iremos desenvolver ferramentas mais
adequadas para atendê-lo”, assegura.
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Machado,
da Digitel: fidelidade e grande potencial
de crescimento são os atrativos das
empresas do middle-market |
Tal como a Credicard, diversas
outras empresas passaram os últimos anos
disputando ferozmente cada palmo do middle-market
brasileiro. Na rinha estão fornecedores
de tecnologia da informação (TI),
operadoras de telefonia, bancos, consultorias
de RH, a mídia e até as auditorias
contábeis – que, tradicionalmente,
só prestavam serviços para as grandes
companhias de capital aberto. Para todos eles,
o segmento de médias representa muito mais
do que a possibilidade de aumentar o faturamento.
É uma maneira de fugir da estagnação.
“Os fabricantes de TI, por exemplo, sempre
focaram na elite do mercado. Ora dirigiam suas
estratégias às 500 maiores empresas
do país, ora aos governos”, explica
Ivair Rodrigues, gerente de pesquisas da consultoria
IDC Brasil. Agora, diz ele, o potencial de compra
das grandes corporações se esvaiu.
“Esse pessoal já comprou TI e parou
de investir. É um mercado de reposição,
onde a concorrência é muito alta
e as margens, cada vez menores”, explica.
Ocorre que, ao contrário
do que se poderia supor, o middle-market
continua subexplorado. E com atrativos de encher
os olhos. Um levantamento divulgado no início
deste ano pela consultoria Deloitte mostra que
as empresas que mais crescem no país são
as médias (com faturamento entre R$ 20
milhões e R$ 200 milhões, conforme
um dos diversos critérios utilizados para
delimitar esse universo). No acumulado de 2000
a 2002 – um período de reveses para
a economia brasileira –, pelo menos 30 destas
companhias dobraram de tamanho. Ao mesmo tempo,
porém, investiram muito pouco em serviços
corporativos. Segundo a Deloitte, apenas 12% delas
recorrem a consultores externos para auxiliar
na tomada de decisões. E somente 46% realizam
operações de comércio eletrônico.
No setor de TI, um estudo da consultoria Yankee
Group revela que mais da metade das médias
não dispõem de nenhum sistema de
gestão padrão. E um levantamento
da Visa do Brasil sustenta que, juntas, as médias
e pequenas empresas poderiam movimentar mais R$
192 bilhões por ano em transações
de cartão de crédito. Atualmente,
o volume de vendas da emissora é de “apenas”
R$ 2,3 bilhões anuais nesse segmento.
Números como esses são
mais do que suficientes para entender por que
todos querem o middle-market. Ao mesmo
tempo, porém, são a prova definitiva
de que conquistar espaço nesse mercado
é uma tarefa difícil. Mesmo as multinacionais,
com todo seu poder de investimento em pesquisas
e marketing, derrapam na hora de se aventurar
nesse filão. “Sempre dedicamos nosso
tempo a setores específicos, como o agronegócio
ou as grandes corporações. Quanto
ao middle-market, ainda estamos arrumando
a casa”, admite Pedro Coutinho, vice-presidente
executivo de rede do banco Santander-Banespa.
Um dos desafios é mapear esse mercado –
que, nas estimativas de Coutinho, abrange cerca
de 15 mil empresas. “É um segmento
no qual a proximidade entre cliente e agência
é muito importante. Temos de entender a
sua geografia, descobrir onde esse cliente está
e, além disso, oferecer-lhe serviços
adequados”, afirma o executivo. Atualmente,
as médias empresas correspondem a 10% das
contas corporativas administradas pelo Santander-Banespa.
A intenção do banco era de que essa
participação já estivesse
em pelo menos 20%.
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