| A história da paulista
Nádia Rebouças se confunde com o
despertar da consciência social no Brasil.
Radicada no Rio de Janeiro, a publicitária
ajudou a organizar a Eco92, marco da preocupação
ambiental no mundo. No ano seguinte, integrou-se
à equipe da Campanha Ação
da Cidadania, contra a Fome, a Miséria
e pela Vida, liderada pelo sociólogo Betinho.
Destas experiências, recolheu a lição
de que as mesmas técnicas usadas para vender
refrigerante e sabonete servem para “vender”
cidadania. Há mais de dez anos, Nádia
largou uma agência multinacional para abrir
uma empresa de consultoria em comunicação
que enfocasse mais o planejamento e a estratégia
– dois dos temas preferidos dela. Outro
é a responsabilidade social, em que a publicitária
se tornou uma especialista. Atualmente, ela está
envolvida no lançamento de uma campanha
contra o racismo e em outra que denuncia a violência
contra a mulher. Todas como voluntária.
Mas pensaria na hipótese de fazer propaganda
de bebida alccólica. “Eu sou uma
pessoa normal. Mesmo com toda a conscientização,
continuo fumando.
Você já esteve na diretoria
de uma grande agência multinacional. O que
a fez mudar de rumo?
Eu era diretora de planejamento da Thompson, no
Rio de Janeiro, e estava vivendo uma grande experiência
internacional, quando a agência ganhou a
conta da Esso. Depois que vencemos, passei a ser
vista como concorrente para cargos gerenciais.
E o ambiente de trabalho começou a se tornar
mais competitivo. Daí eu pensei: “Vou
cuidar da minha vida”. Saí de lá
e abri minha empresa. Esse ato foi muito importante,
porque, dali em diante, comecei a construir um
pensamento meu.
E o que a despertou para a responsabilidade
social?
Em 1991, minha agência foi contratada para
fazer a programação do Aterro do
Flamengo para a ECO 92. Nosso trabalho era preparar
o evento para receber todas as ONGs internacionais.
Aí eu descobri uma nova tribo, que não
sabia que existia: as organizações
não-governamentais. Tomei contato com a
questão do meio ambiente, do social e passei
a trabalhar para ONGs. Eram clientes novos, que
queriam vender não um sabonete, mas uma
idéia. Eu começava, então,
a trabalhar com o que eu chamava de marketing
de idéias.
Esse seria o novo papel da publicidade
e da comunicação: vender idéias?
Eu enxergo a comunicação como uma
forma de educar. Os comerciais nos ensinaram a
consumir bebida, a fumar, a um monte de coisas
que não faziam parte da nossa vida e agora
fazem. Mas a comunicação também
pode ser utilizada para ensinar outras coisas.
Se estamos querendo que as pessoas usem a água
e a energia de forma racional, é possível
usar a publicidade para isso. Assim, você
pode vender um comportamento, um estilo de vida
mais responsável, utilizando as mesmas
ferramentas usadas para vender produtos. Portanto,
o marketing de idéias busca levar as pessoas
a refletir sobre questões que não
estão sendo tratadas corretamente. Um exemplo
é o meio ambiente. Há muita informação
nova para ser discutida e ainda muitos comportamentos
que precisam mudar.
Qual sua opinião sobre as empresas
que buscam vender uma imagem de socialmente responsáveis?
Eu não acredito que a gente tenha de fazer
propaganda do que faz de social. Mas não
sou contra. Se a empresa está fazendo algo
que pode virar uma política pública,
que pode influenciar outras companhias, tem mais
é de contar o que está construindo
e fazendo. Mas meu interesse vai além disso.
Um exemplo do tipo de trabalho que deve ser feito
é uma campanha sobre racismo que estamos
desenvolvendo. O racismo é um problema
grave no Brasil. Mas, normalmente, quando um trabalho
desses cai na mão de uma agência
de propaganda, não há uma compreensão
do problema, não se consultam acadêmicos
e outras pessoas que já pensam a questão.
Aí acaba virando só um filminho,
com um ator ou um esportista negro famoso. Há
anos se faz assim, e a realidade não mudou.
É preciso pensar o problema sob um novo
ângulo. Na nossa campanha, estamos perguntando
para as pessoas na rua: “Onde você
guarda seu preconceito?”. E o espantoso
é que ninguém diz: “Eu não
guardo”. Todo o mundo diz algo. A campanha
acaba tendo um papel de instigar uma mudança
social.
Muitas empresas fazem ações
sociais para a comunidade, mas não garantem
uma boa condição para seus próprios
funcionários.
O consumidor está cada vez mais consciente
disso. Dizem que um indivíduo é
capaz de influenciar a opinião de 18 a
20 pessoas. Imaginem uma Petrobras, que tem aquele
monte de empregados espalhados pelo país
inteiro. Por isso, a empresa valorizou os trabalhadores
na campanha comemorativa dos 50 anos. Agora, você
tem toda a razão quando fala que há
empresas que só fazem ações
externas para aparecer. Isso entrou na moda. E
moda é algo típico do mundo da administração
de empresas. É como se existisse algum
processo mágico que fosse a salvação
para todos os problemas das companhias.
Então há modismos dentro
da responsabilidade social...
Há alguns detalhes que são modismos
e que vão desaparecer naturalmente. Por
exemplo, o fato de as empresas se preocuparem
tanto em fazer propaganda das suas ações.
Isso não se firma com o tempo. O que não
deve desaparecer, no entanto, é o conceito
de que as pessoas são importantes na construção
de qualquer empresa. E, nesse sentido, o balanço
social é fundamental, porque estabelece
um processo de reflexão sobre todas as
mazelas da companhia. O cara tem de preencher
se tem creche, quantos negros trabalham etc. De
repente, percebe que todos os funcionários
negros são operários. No ano seguinte,
o departamento de RH já pensa: “Deve
ter um negro que possa ser gerente”. As
empresas também começam a se dar
conta de que precisam abrir espaço para
portadores de deficiência. Isso que é
importante e não fazer um comercial para
dizer: “Se você comprar esse produto,
50 centavos vai para a creche tal”.
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