| Sílvia
Lisboa

Casamento é romântico,
lindo, sublime. Um sonho. Substitua todos esses
adjetivos por seus antônimos. Pronto, você
já sabe tudo o que se passa durante a separação
de um casal. Agora imagine o que acontece com
uma empresa se ela está no centro do pandemônio.
Acredite: são pouquíssimas as chances
de esse negócio sair ileso se os cônjuges
virarem inimigos mortais depois de um casamento
fracassado. “A empresa sofre tanto quanto
o casal em litígio. Muitas delas fecham
as portas, outras são vendidas em condições
desfavoráveis”, garante Joeci Machado
Camargo, juíza da 4ª Vara de Família
do Paraná.
Às vezes, o ex-cônjuge,
quando busca o que lhe é de direito, desmancha
a empresa da antiga cara-metade – e, no
fim das contas, ambos perdem dinheiro. Em outros
casos, os litigantes gastam tanto tempo e energia
brigando entre si, que esquecem que têm
uma empresa para administrar.
O advogado catarinense
Luís Fernando Kemp conta que já
teve de ser nomeado temporariamente como gestor
de negócios de uma cliente que não
queria perder a sua única fonte de renda,
mas não podia ver a cara do ex-marido.
“Na maioria das separações
litigiosas, as chances de preservar a empresa
ficam reduzidas”, explica Kemp. “Ninguém
faz negócio com uma companhia em que os
donos estão em pé de guerra”,
exemplifica Joeci.
Foi um divórcio
para lá de espinhoso que deu cabo da maior
rede de supermercados de Santa Catarina. As 42
unidades da rede começaram a desaparecer
em meados de 2000, quando o dono do conglomerado,
Cídio Sandri, e sua esposa por mais de
30 anos, Honorata, entraram em guerra. Após
a partilha, Sandri ficou com a menor parte (19
lojas) e com a maior parte da dívida –
o restante, ou seja, 23 unidades, foram para as
mãos de Honorata. Em pouco tempo, a parte
que coube ao empresário virou pó,
juntamente com o emprego de aproximadamente 3
mil pessoas.
Até hoje, os processos da
família Sandri correm na Justiça
catarinense, só que agora na vara criminal
(leia quadro “Meu bem, meus bens”).
Essa é uma das razões pela qual
o divórcio pode ser uma bomba-relógio
para os negócios: nunca se sabe aonde vai
parar o bate-boca entre um casal em conflito.
Toda a mágoa e os ressentimentos se concentram
na partilha de bens e na disputa por quem ficará
com os filhos. “Geralmente, as mulheres
usam o patrimônio para ameaçar o
ex-marido. Já os homens tendem a usar os
filhos”, relata Rolf Madaleno, um dos mais
destacados advogados de família do Rio
Grande do Sul e diretor-geral do Instituto Brasileiro
de Direito de Família. Segundo Rolf, no
momento da separação, ocorre uma
mudança brusca na direção
do olhar do casal. “Quando a gente procura
alguém para casar, o olhar é dirigido
para o mesmo lado, existem planos em comum, objetivos
compartilhados. No divórcio, cada um dos
cônjuges olha para direções
opostas”, filosofa.
É durante essa troca de
acusações mútuas que os empreeendimentos
começam a correr risco. A lavagem de roupa
suja nos tribunais consome o tempo e a cabeça
dos empresários. Segundo uma pesquisa realizada
na Europa, os divórcios são o segundo
evento mais estressante na vida de alguém.
Só perdem para a morte do companheiro.
Paulo Tondo, consultor do Centro para Empresas
Familiares, conta que já presenciou um
negócio ir à bancarrota enquanto
o ex-casal se digladiava perante o juiz. “O
ex-marido começou a contrair dívidas
e mais dívidas”, recorda Tondo. Nelson
Klas Júnior, advogado conhecido como “resolvedor”
dos casos arrastados no Tribunal de Justiça
do Paraná, enfatiza que é papel
do advogado, seja do lado da mulher ou do ex-marido,
tentar de tudo para preservar a empresa. “É
do negócio que dependerá o sustento
do casal separado e dos filhos em comum”,
sustenta. Klas lamenta o único processo
em que todas as suas tentativas de salvar a companhia,
uma transportadora, foram em vão. Quando
assumiu o caso, o processo estava emperrado na
vara de família, há quase dez anos.
Durante esse tempo, o marido se manteve na administração
da companhia, mas começou a desviar recursos
para um caixa 2. Sucateou tanto a frota de caminhões
que só sobraram quatro veículos
dos 45 que a empresa possuía. “Pedi
em juízo uma administração
conjunta, mas adiantou pouco. Os empregados já
tinham o costume de prestar conta para o marido
e não se dirigiam à esposa”,
relata. Quase 200 funcionários perderam
o emprego, e a transportadora, que valia R$ 3
milhões, hoje seria vendida por, no máximo,
R$ 300 mil.
A advogada paulista Ana Claudia
Mota, sócia da consultoria jurídica
Oliveira Neves e Associados, recomenda que o casal
não faça a partilha de bens quando
a separação está sendo ajuizada.
“É bom esperar que a poeira baixe
antes de tomar qualquer decisão”,
sugere. Se, mesmo assim, as discussões
permanecerem acirradas, Ana Claudia recomenda
que seja contratado um administrador para tomar
conta da empresa no período de turbulência.
“Tudo depende do nível de discernimento
do casal em crise.”
Diante de todas as ameaças
que o fim de um casamento pode representar para
os negócios, é comum empresários
tomarem a atitude mais cômoda: não
se separar. “Para o homem (que ainda é
quem geralmente comanda os negócios), costuma
sair mais em conta manter um casamento de aparências.
Isso explica o fato de as mulheres serem as primeiras
a procurar os advogados”, afirma o advogado
catarinense Luís Fernando Kemp. A consultora
Cláudia Tondo confirma: casamentos de fachada
são freqüentes principalmente em empresas
familiares, que representam mais de 90% das companhias
brasileiras.
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