| Luiz
Guimarães e
Rogério
Kiefer
O ferreiro Peter Joseph Becker
esteve pela primeira vez em Porto Alegre, em 1854.
Veio com a missão de montar três
barcos a vapor que ele mesmo ajudara a construir
às margens do Rheno. Depois de pôr
a flutuar o “Brazileiro”, o “Flexa”
e o “Jaguarão”, no rio Guaíba,
retornou para a Alemanha. Mas, encantado com a
pacata Porto Alegre da metade do século
19, voltou dois anos depois, desta vez para ficar.
Ao decidir imigrar para o Rio Grande do Sul, Becker
certamente não imaginava que fundaria uma
empresa que, em 2006, completará 150 anos.
Uma raridade em um país que ao longo do
período Republicano alternou 34 presidentes,
22 moedas, anos de chumbo e um punhado de “pacotaços”.
Sem falar nos efeitos da Segunda Guerra Mundial,
época em que os alemães que viviam
no Brasil sofreram toda sorte de humilhações.
“Prisões, delações,
torturas, perseguição política,
tudo se inscreve no painel de amarguras da caça
às bruxas de 1938 a 1945, o período
mais negro da colonização”,
recorda o jornalista e historiador catarinense,
Apolinário Ternes.
| |
Neugebauer:
planejamento no estilo germânico para
durar mais de um século |
Pois a quase sesquicentenária
Fundição Becker, de 1856, resistiu
a tudo isso. Recentemente, a empresa, nascida
em Porto Alegre, migrou para Gravataí,
na Região Metropolitana. Quem comandou
a mudança: Alessandro Quadros Becker, de
28 anos, cuja missão é levar adiante
a obra iniciada pelo tataravô Peter Joseph
– algo bem mais complicado, em tempos de
globalização, do que pôr barcos
a flutuar no Guaíba. Na quinta geração,
a Fundição Becker é o exemplo
mais antigo de sobrevivência de uma empresa
de origem alemã no Brasil. Mas não
é o único caso de longevidade. Algumas
dezenas delas romperam a barreira dos 100 anos.
Ou estão quase chegando lá –
feito que pouquíssimas empresas conseguiram
no mundo todo. As estatísticas mostram
que menos de 10% das organizações
ao redor do planeta chegam à terceira geração.
No Brasil, a média de netos ou bisnetos
pilotando uma companhia cai para perto de 5%.
| |
Haenssgen:
produção de guloseimas para
distribuição em lombo de burro
na colônia |
As primeiras indústrias
fundadas por alemães surgiram com a chegada
dos pioneiros ao Vale do Rio dos Sinos, mais precisamente
à cidade de São Leopoldo, em 25
de julho de 1824 – portanto, há 180
anos. Cinco anos depois, estavam em Santa Catarina
e no Paraná. Vieram para cultivar a terra,
mas muitos traziam na bagagem vocações
que pouco ou nada tinham a ver com a enxada. Eram
artesãos, tecelões, ferreiros, confeiteiros,
marceneiros, curtidores, sapateiros, aventureiros...
Fugiam da miséria que assolava o Velho
Continente, especialmente os que vieram depois
do ciclo de revoluções de 1848 na
Alemanha, que depois se espalhou por boa parte
da Europa. Acreditavam em uma nova pátria,
em um porto seguro para viver e criar os filhos.
Começavam os pequenos negócios,
fábricas rudimentares de alimentos, metalúrgicas,
madeireiras, confeitarias, sapataria... Ganhava
corpo a contribuição alemã
à matriz industrial brasileira. Ou alguém
pode ignorar que vergalhão de aço
é Gerdau e que Neugebauer, por décadas,
foi a única palavra que definia chocolate
na Província de São Pedro do Rio
Grande?
A doce novidade
– A história da indústria
de chocolates Neugebauer confirma o que Peter
Lughart, consultor de empresas alemãs da
Deloitte, defende como marcas registradas do empreendedor
germânico: “Tudo o que eles fazem
é discutido, documentado, organizado, pensado
para o longo prazo, com uma visão de futuro”.
O confeiteiro Franz Neugebauer não conheceu
Lughart, nem fez MBA, mas no final do século
19 já rezava pela cartilha do consultor.
Sabendo do interesse do prefeito de Porto Alegre
em industrializar o Quarto Distrito, região
que por muitos anos foi sede de importantes empresas
gaúchas – entre elas, as Organizações
Renner e a Fábrica de Pregos Pontas de
Paris, origem da Gerdau (ver texto ao lado) –,
Franz se candidatou a ocupar um velho colégio
no bairro para abrir um negócio. Chamou
o irmão Max ao Brasil e determinou a Ernest,
o mais novo, que se especializasse em confeitaria
e chocolates na Alemanha. E que só viesse
depois de dominar a arte. Tudo bem pensado e planejado
para o bairro para abrir um negócio. Chamou
o irmão Max ao Brasil e determinou a Ernest,
o mais novo, que se especializasse em confeitaria
e chocolates na Alemanha. E que só viesse
depois de dominar a arte. Tudo bem pensado e planejado
para o longo prazo, segundo a lógica germânica.
A estratégia certamente foi o que garantiu
a longevidade da empresa, fundada em 1891. A fábrica
de chocolates Neugebauer sobreviveu 90 anos nas
mãos da família. Hoje, é
controlada pela Florestal Alimentos, de Lajeado.
“A marca nunca ganhou dimensão nacional,
mas, por aqui, continua incomodando as grandes”,
diz Verno Arend, dono da Florestal.
|