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      Edição 201 - Julho de 2004
 

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Há 180 anos, os primeiros imigrantes alemães aportavam no Sul, trazendo na bagagem técnicas de manufatura que se revelaram fundamentais para industrializar a região


Luiz Guimarães e Rogério Kiefer

O ferreiro Peter Joseph Becker esteve pela primeira vez em Porto Alegre, em 1854. Veio com a missão de montar três barcos a vapor que ele mesmo ajudara a construir às margens do Rheno. Depois de pôr a flutuar o “Brazileiro”, o “Flexa” e o “Jaguarão”, no rio Guaíba, retornou para a Alemanha. Mas, encantado com a pacata Porto Alegre da metade do século 19, voltou dois anos depois, desta vez para ficar. Ao decidir imigrar para o Rio Grande do Sul, Becker certamente não imaginava que fundaria uma empresa que, em 2006, completará 150 anos. Uma raridade em um país que ao longo do período Republicano alternou 34 presidentes, 22 moedas, anos de chumbo e um punhado de “pacotaços”. Sem falar nos efeitos da Segunda Guerra Mundial, época em que os alemães que viviam no Brasil sofreram toda sorte de humilhações. “Prisões, delações, torturas, perseguição política, tudo se inscreve no painel de amarguras da caça às bruxas de 1938 a 1945, o período mais negro da colonização”, recorda o jornalista e historiador catarinense, Apolinário Ternes.

Neugebauer: planejamento no estilo germânico para durar mais de um século

Pois a quase sesquicentenária Fundição Becker, de 1856, resistiu a tudo isso. Recentemente, a empresa, nascida em Porto Alegre, migrou para Gravataí, na Região Metropolitana. Quem comandou a mudança: Alessandro Quadros Becker, de 28 anos, cuja missão é levar adiante a obra iniciada pelo tataravô Peter Joseph – algo bem mais complicado, em tempos de globalização, do que pôr barcos a flutuar no Guaíba. Na quinta geração, a Fundição Becker é o exemplo mais antigo de sobrevivência de uma empresa de origem alemã no Brasil. Mas não é o único caso de longevidade. Algumas dezenas delas romperam a barreira dos 100 anos. Ou estão quase chegando lá – feito que pouquíssimas empresas conseguiram no mundo todo. As estatísticas mostram que menos de 10% das organizações ao redor do planeta chegam à terceira geração. No Brasil, a média de netos ou bisnetos pilotando uma companhia cai para perto de 5%.

Haenssgen: produção de guloseimas para distribuição em lombo de burro na colônia

As primeiras indústrias fundadas por alemães surgiram com a chegada dos pioneiros ao Vale do Rio dos Sinos, mais precisamente à cidade de São Leopoldo, em 25 de julho de 1824 – portanto, há 180 anos. Cinco anos depois, estavam em Santa Catarina e no Paraná. Vieram para cultivar a terra, mas muitos traziam na bagagem vocações que pouco ou nada tinham a ver com a enxada. Eram artesãos, tecelões, ferreiros, confeiteiros, marceneiros, curtidores, sapateiros, aventureiros... Fugiam da miséria que assolava o Velho Continente, especialmente os que vieram depois do ciclo de revoluções de 1848 na Alemanha, que depois se espalhou por boa parte da Europa. Acreditavam em uma nova pátria, em um porto seguro para viver e criar os filhos. Começavam os pequenos negócios, fábricas rudimentares de alimentos, metalúrgicas, madeireiras, confeitarias, sapataria... Ganhava corpo a contribuição alemã à matriz industrial brasileira. Ou alguém pode ignorar que vergalhão de aço é Gerdau e que Neugebauer, por décadas, foi a única palavra que definia chocolate na Província de São Pedro do Rio Grande?

A doce novidade – A história da indústria de chocolates Neugebauer confirma o que Peter Lughart, consultor de empresas alemãs da Deloitte, defende como marcas registradas do empreendedor germânico: “Tudo o que eles fazem é discutido, documentado, organizado, pensado para o longo prazo, com uma visão de futuro”. O confeiteiro Franz Neugebauer não conheceu Lughart, nem fez MBA, mas no final do século 19 já rezava pela cartilha do consultor. Sabendo do interesse do prefeito de Porto Alegre em industrializar o Quarto Distrito, região que por muitos anos foi sede de importantes empresas gaúchas – entre elas, as Organizações Renner e a Fábrica de Pregos Pontas de Paris, origem da Gerdau (ver texto ao lado) –, Franz se candidatou a ocupar um velho colégio no bairro para abrir um negócio. Chamou o irmão Max ao Brasil e determinou a Ernest, o mais novo, que se especializasse em confeitaria e chocolates na Alemanha. E que só viesse depois de dominar a arte. Tudo bem pensado e planejado para o bairro para abrir um negócio. Chamou o irmão Max ao Brasil e determinou a Ernest, o mais novo, que se especializasse em confeitaria e chocolates na Alemanha. E que só viesse depois de dominar a arte. Tudo bem pensado e planejado para o longo prazo, segundo a lógica germânica. A estratégia certamente foi o que garantiu a longevidade da empresa, fundada em 1891. A fábrica de chocolates Neugebauer sobreviveu 90 anos nas mãos da família. Hoje, é controlada pela Florestal Alimentos, de Lajeado. “A marca nunca ganhou dimensão nacional, mas, por aqui, continua incomodando as grandes”, diz Verno Arend, dono da Florestal.

 


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