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      Edição 201 - Julho de 2004
 

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Para o ex-ministro Pratini de Morais, o Brasil precisa
se valorizar mais, abandonar a idéia de ser o líder dos pobres e investir em outros países – única forma de manter os mercados no exterior

 
Luiz Guimarães e  Felipe Polydoro

A primeira vez que Marcus Vinícius Pratini de Morais pegou um avião para resolver imbróglios comerciais foi no final da década de 60. Os americanos decidiram interromper as compras de café solúvel do Brasil e o governo despachou o jovem Pratini – então assessor especial do presidente Costa e Silva – para sentar à mesa com um representante do Departamento de Comércio dos EUA. “Aquilo foi difícil. A gente tinha pouca experiência”, lembra. De lá para cá, ele já foi ministro seis vezes (três delas, interinamente). A última foi no segundo mandato de Fernando Henrique, quando, à frente da pasta da Agricultura, encarou até os Estados Unidos e a União Européia na OMC. Profundo conhecedor do comércio internacional, este porto-alegrense assumiu, no ano passado, a presidência da Associação Brasileira das Indústrias Exportadores de Carne (Abiec). O cargo já lhe rendeu incomodações, como quando a Rússia e a Argentina cessaram as importações da carne brasileira – decisão que, na opinião dele, é puramente comercial. “Temos a mania de achar que o mundo está contra nós”, critica nesta entrevista.

Como o senhor vê esta enxurrada de retaliações a produtos brasileiros?
Nós temos de encarar isso como uma decorrência natural do fato de que o Brasil está aumentando sua participação no mercado internacional. Somos muito competitivos e, evidentemente, a concorrência está usando todos os instrumentos comerciais e não-comerciais para defender sua posição. Temos de entender que, à medida que crescemos, isso vai se tornar uma rotina. O que precisamos é ter mais gente preparada para enfrentar essas questões com competência. Isso requer dever de casa bem feito e informações bem elaboradas nas línguas dos outros países. Também devemos viajar mais, para manter um relacionamento em nível técnico e até político com nossos principais mercados.

Isso significa que o Brasil começa a ser cada vez mais temido no comércio internacional?
Neste mês de junho, as exportações brasileiras de carne dobraram em relação a um ano atrás. Isso que não vendemos para vários mercados em que os Estados Unidos atuam. Ainda não vendemos no Japão, no Canadá, na Coréia do Sul, em Taiwan, nem para os próprios americanos. Nos outros mercados, o Brasil é muito competitivo, e os outros países, para concorrerem, precisam recorrer aos subsídios. É o caso da União Européia, que também exporta carne. Nós estamos atingindo diretamente os concorrentes que só são competitivos porque têm subsídios. E o fato de estarmos contestando isso na OMC – há pouco tempo ganhamos na questão do algodão – está trazendo problemas para a concorrência. Mas há um reconhecimento de que o agronegócio brasileiro, pela sua tecnologia e sua produtividade, é o mais competitivo do mundo. Além disso, há um consenso de que o mundo vai precisar do Brasil para comer, principalmente carne, soja e outros produtos. E isso gera resistência e reações, principalmente por parte daqueles que dependem de subsídios para manter seus negócios.

A Rússia seguidamente impõe barreiras à importação de suínos, muitas delas não justificadas.
Isso se dá pela pressão de produtores russos. Aconteceu porque nosso pessoal baixou muito os preços. É preciso muita atenção com as políticas de preços. Já somos competitivos. Se baixarmos demais os preços, aumentamos as reações de nossos concorrentes. É fundamental estabelecer certos limites mínimos de preços na exportação. Já se discutiu isso no passado, mas não foi praticado porque havia certas dificuldades envolvidas. Outro problema que existe é o uso abusivo das normas sanitárias, como fizeram há pouco a Argentina e a Rússia em relação à carne produzida no Pará. A Rússia confundiu o Pará com o Paraná, e o assunto se resolveu logo. O que é inexplicável é a Argentina ter restringido a nossa exportação. Mas isso provavelmente é fruto da atividade dos produtores argentinos de carne suína, que estão preocupados com a competitividade dos nossos produtos.

A Argentina é reincidente na retaliação a produtos brasileiros. A última medida foi a elevação das taxas dos eletroeletrônicos. O senhor acha que essas atitudes podem acabar com o Mercosul?
Eu acho que o Mercosul está aí até para resolver esses problemas, mas eu não acredito na viabilidade do bloco se não houver investimentos nossos na Argentina e deles aqui. Não se pode imaginar que nós vamos continuar exportando sem limites a partir do Brasil. É só pegar a história brasileira como exemplo. Nós comprávamos automóveis e, de repente, não tínhamos mais dólares para importar. Então, nós trouxemos a indústria automobilística para cá. Em muitos segmentos, inclusive no agronegócio, a viabilização do fluxo de exportação vai depender também de investirmos na Argentina, com distribuição, produção e agregação de valor locais. Nós temos de começar a ser investidores no exterior para manter os mercados. Está certo que a fraqueza do mercado de capitais e a voracidade do sistema fiscal nos deixam com pouca capacidade de investir, mas temos de encontrar uma maneira. O BNDES precisa ser mais atuante e criar linhas especiais para financiar investimentos no exterior, como fizeram o Eximbank americano, o KSV alemão e o Banco de Comércio da França. Todos estes países apóiam as exportações com investimentos locais, com linhas de montagem, com agregação de valor, criando um interesse local que mantém aquele fluxo. É assim que se assegura a continuidade do comércio.

“Não se pode imaginar que nós vamos continuar exportando sem limites a partir do Brasil.
Temos de começar a investir em outros países
para manter os mercados”

E enquanto não há investimentos brasileiros na Argentina e vice-versa, o senhor acha que o Mercosul corre o risco de entrar num novo período de hibernação?
Esses acordos sempre têm problemas. A história do Mercosul – assim como a da União Européia e do Nafta – é uma seqüência de problemas que se resolvem. Não podemos nos assustar com eles. Nem podemos ficar paranóicos, achar que o mundo está contra nós. Um problema no Brasil é a tendência de introduzir um componente político e até ideológico nessas questões, que são apenas comerciais Temos de fazer bem o dever de casa e definir melhores estratégias de ação. E depender menos de governo. Muitos desses problemas seriam resolvidos se exportadores e importadores buscassem um acordo. Pode até ser um entendimento informal dentro de um segmento. Temos de saber negociar no âmbito da empresa, no âmbito do setor. E só depois incluir o governo.

Qual a estratégia de negociação da Alca? O Brasil deve fortalecer o Mercosul e fazer uma aliança com o Pacto Andino antes?
Sempre entendi o Mercosul como um instrumento muito importante para negociarmos acordos melhores com outros blocos econômicos. É melhor negociarmos com os americanos e europeus como Mercosul do que como país individual, pois temos mais força. À medida que o Mercosul se enfraquece, as negociações vão se dificultando e os países partem para acordos bilaterais. Se o Mercosul não conseguir se reestruturar, acho que nós temos de fazer um acordo bilateral com os Estados Unidos. Os americanos são o maior mercado para os produtos manufaturados do Brasil.

Negociar diretamente com os Estados Unidos?
É o que o Brasil deve fazer. Se o Mercosul não funcionar – eu espero que funcione –, vamos fazer o acordo bilateral. O Brasil tem uma política multilateralista no comércio internacional. Acontece que nosso comércio está crescendo muito rapidamente, e precisamos de mais agilidade na abertura de mercados e na busca de novos entendimentos.

 

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