| A primeira vez que Marcus
Vinícius Pratini de Morais pegou um avião
para resolver imbróglios comerciais foi
no final da década de 60. Os americanos
decidiram interromper as compras de café
solúvel do Brasil e o governo despachou
o jovem Pratini – então assessor
especial do presidente Costa e Silva – para
sentar à mesa com um representante do Departamento
de Comércio dos EUA. “Aquilo foi
difícil. A gente tinha pouca experiência”,
lembra. De lá para cá, ele já
foi ministro seis vezes (três delas, interinamente).
A última foi no segundo mandato de Fernando
Henrique, quando, à frente da pasta da
Agricultura, encarou até os Estados Unidos
e a União Européia na OMC. Profundo
conhecedor do comércio internacional, este
porto-alegrense assumiu, no ano passado, a presidência
da Associação Brasileira das Indústrias
Exportadores de Carne (Abiec). O cargo já
lhe rendeu incomodações, como quando
a Rússia e a Argentina cessaram as importações
da carne brasileira – decisão que,
na opinião dele, é puramente comercial.
“Temos a mania de achar que o mundo está
contra nós”, critica nesta entrevista.
Como o senhor vê esta enxurrada
de retaliações a produtos brasileiros?
Nós temos de encarar isso como uma decorrência
natural do fato de que o Brasil está aumentando
sua participação no mercado internacional.
Somos muito competitivos e, evidentemente, a concorrência
está usando todos os instrumentos comerciais
e não-comerciais para defender sua posição.
Temos de entender que, à medida que crescemos,
isso vai se tornar uma rotina. O que precisamos
é ter mais gente preparada para enfrentar
essas questões com competência. Isso
requer dever de casa bem feito e informações
bem elaboradas nas línguas dos outros países.
Também devemos viajar mais, para manter
um relacionamento em nível técnico
e até político com nossos principais
mercados.
Isso significa que o Brasil começa
a ser cada vez mais temido no comércio
internacional?
Neste mês de junho, as exportações
brasileiras de carne dobraram em relação
a um ano atrás. Isso que não vendemos
para vários mercados em que os Estados
Unidos atuam. Ainda não vendemos no Japão,
no Canadá, na Coréia do Sul, em
Taiwan, nem para os próprios americanos.
Nos outros mercados, o Brasil é muito competitivo,
e os outros países, para concorrerem, precisam
recorrer aos subsídios. É o caso
da União Européia, que também
exporta carne. Nós estamos atingindo diretamente
os concorrentes que só são competitivos
porque têm subsídios. E o fato de
estarmos contestando isso na OMC – há
pouco tempo ganhamos na questão do algodão
– está trazendo problemas para a
concorrência. Mas há um reconhecimento
de que o agronegócio brasileiro, pela sua
tecnologia e sua produtividade, é o mais
competitivo do mundo. Além disso, há
um consenso de que o mundo vai precisar do Brasil
para comer, principalmente carne, soja e outros
produtos. E isso gera resistência e reações,
principalmente por parte daqueles que dependem
de subsídios para manter seus negócios.
A Rússia seguidamente impõe
barreiras à importação de
suínos, muitas delas não justificadas.
Isso se dá pela pressão de produtores
russos. Aconteceu porque nosso pessoal baixou
muito os preços. É preciso muita
atenção com as políticas
de preços. Já somos competitivos.
Se baixarmos demais os preços, aumentamos
as reações de nossos concorrentes.
É fundamental estabelecer certos limites
mínimos de preços na exportação.
Já se discutiu isso no passado, mas não
foi praticado porque havia certas dificuldades
envolvidas. Outro problema que existe é
o uso abusivo das normas sanitárias, como
fizeram há pouco a Argentina e a Rússia
em relação à carne produzida
no Pará. A Rússia confundiu o Pará
com o Paraná, e o assunto se resolveu logo.
O que é inexplicável é a
Argentina ter restringido a nossa exportação.
Mas isso provavelmente é fruto da atividade
dos produtores argentinos de carne suína,
que estão preocupados com a competitividade
dos nossos produtos.
A Argentina é reincidente na retaliação
a produtos brasileiros. A última medida
foi a elevação das taxas dos eletroeletrônicos.
O senhor acha que essas atitudes podem acabar
com o Mercosul?
Eu acho que o Mercosul está aí até
para resolver esses problemas, mas eu não
acredito na viabilidade do bloco se não
houver investimentos nossos na Argentina e deles
aqui. Não se pode imaginar que nós
vamos continuar exportando sem limites a partir
do Brasil. É só pegar a história
brasileira como exemplo. Nós comprávamos
automóveis e, de repente, não tínhamos
mais dólares para importar. Então,
nós trouxemos a indústria automobilística
para cá. Em muitos segmentos, inclusive
no agronegócio, a viabilização
do fluxo de exportação vai depender
também de investirmos na Argentina, com
distribuição, produção
e agregação de valor locais. Nós
temos de começar a ser investidores no
exterior para manter os mercados. Está
certo que a fraqueza do mercado de capitais e
a voracidade do sistema fiscal nos deixam com
pouca capacidade de investir, mas temos de encontrar
uma maneira. O BNDES precisa ser mais atuante
e criar linhas especiais para financiar investimentos
no exterior, como fizeram o Eximbank americano,
o KSV alemão e o Banco de Comércio
da França. Todos estes países apóiam
as exportações com investimentos
locais, com linhas de montagem, com agregação
de valor, criando um interesse local que mantém
aquele fluxo. É assim que se assegura a
continuidade do comércio.
| “Não
se pode imaginar que nós vamos continuar
exportando sem limites a partir do Brasil.
Temos de começar a investir em outros
países
para manter os mercados” |
E enquanto não há investimentos
brasileiros na Argentina e vice-versa, o senhor
acha que o Mercosul corre o risco de entrar num
novo período de hibernação?
Esses acordos sempre têm problemas. A história
do Mercosul – assim como a da União
Européia e do Nafta – é uma
seqüência de problemas que se resolvem.
Não podemos nos assustar com eles. Nem
podemos ficar paranóicos, achar que o mundo
está contra nós. Um problema no
Brasil é a tendência de introduzir
um componente político e até ideológico
nessas questões, que são apenas
comerciais Temos de fazer bem o dever de casa
e definir melhores estratégias de ação.
E depender menos de governo. Muitos desses problemas
seriam resolvidos se exportadores e importadores
buscassem um acordo. Pode até ser um entendimento
informal dentro de um segmento. Temos de saber
negociar no âmbito da empresa, no âmbito
do setor. E só depois incluir o governo.
Qual a estratégia de negociação
da Alca? O Brasil deve fortalecer o Mercosul e
fazer uma aliança com o Pacto Andino antes?
Sempre entendi o Mercosul como um instrumento
muito importante para negociarmos acordos melhores
com outros blocos econômicos. É melhor
negociarmos com os americanos e europeus como
Mercosul do que como país individual, pois
temos mais força. À medida que o
Mercosul se enfraquece, as negociações
vão se dificultando e os países
partem para acordos bilaterais. Se o Mercosul
não conseguir se reestruturar, acho que
nós temos de fazer um acordo bilateral
com os Estados Unidos. Os americanos são
o maior mercado para os produtos manufaturados
do Brasil.
Negociar diretamente com os Estados Unidos?
É o que o Brasil deve fazer. Se o Mercosul
não funcionar – eu espero que funcione
–, vamos fazer o acordo bilateral. O Brasil
tem uma política multilateralista no comércio
internacional. Acontece que nosso comércio
está crescendo muito rapidamente, e precisamos
de mais agilidade na abertura de mercados e na
busca de novos entendimentos.
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