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      Edição 201 - Julho de 2004
 

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A rotina tumultuada do ambiente de trabalho leva cada vez mais pessoas a apresentar os sintomas do Déficit de Atenção e Hiperatividade – a nova doença do século da informação

Andreas Müller

Durante muito tempo, acreditou-se que o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (ou simplesmente TDAH, como preferem os médicos) era um problema de crianças. Poucas vezes, o distúrbio dos pequenos chegava a preocupar os pais. Achava-se que, na pior das hipóteses, aquele típico moleque irrequieto, que nunca se contentava com um único brinquedo, se tornaria uma pessoa “normal” tão logo lhe brotassem os primeiros fios de barba. Mas um levantamento recente publicado nos Estados Unidos mostra que a coisa não é assim tão simples. Conhecido como National Comorbidity Survey – Replication (NCS-R, ou “Pesquisa Nacional de Comorbidades”) e divulgado oficialmente em maio último, o estudo analisou nada menos que 9 mil americanos ao longo de dois anos. E concluiu: cada vez mais, o TDAH é um problema de adultos – algo capaz de arruinar a auto-estima, as relações afetivas e principalmente o seu desempenho profissional.

Também conhecido como DDA, o déficit de atenção e hiperatividade é conseqüência de um defeito genético que prejudica o funcionamento da região pré-frontal do cérebro, responsável por regular os impulsos e filtrar as informações que a mente processa. As pessoas ficam desprovidas dessa espécie de válvula cerebral e, assim, começam a apresentar alguns traços particulares de comportamento. Os mais freqüentes são a dificuldade de organização e concentração (tendem a fazer várias coisas ao mesmo tempo), impulsividade nas relações pessoais e, em muitos casos, a hiperatividade – que pode ser traduzida como uma necessidade irresistível de movimento. Historicamente, achava-se que esse distúrbio atingia entre 1,5% e 3% da população adulta. A nova pesquisa, porém, revelou que a percentagem pode ser maior. Ao todo, 4,4% dos adultos sofrem de TDAH nos Estados Unidos. Parece pouco, mas o índice é considerado bastante alto para os padrões da psiquiatria. E tende a ser igualmente alto em outros países, incluindo-se aí o Brasil. “Isso significa que o TDAH, hoje, é uma das disfunções neurológicas mais comuns entre os adultos e, portanto, uma das mais freqüentes no ambiente de trabalho”, explica a AMANHÃ o professor Ronald Kessler, do Departamento de Medicina da Universidade de Harvard e principal coordenador da NCS-R.

Uma olhar atento sobre a pesquisa de Kessler ajuda a entender o impacto que o TDAH pode ter na trajetória profissional de um indivíduo. Conforme o levantamento, as pessoas que sofrem desse mal são altamente suscetíveis a outros distúrbios neuropsicológicos – chamados “comorbidades”. A dificuldade de avançar na carreira e os fracassos freqüentes na lida corporativa, por exemplo, fazem com que os portadores tenham seis vezes mais chances de desenvolver algum tipo de comportamento compulsivo, como o vício em jogo ou bulimia. Além disso, eles abusam mais de substâncias como álcool, maconha e cocaína e apresentam o triplo de problemas relacionados à ansiedade, como alergias, urticárias etc. O próprio desempenho no trabalho acaba sendo afetado. Analisando pacientes diagnosticados com TDAH, Kessler observou que muitos deles (15,8% do grupo) passavam a maior parte do tempo ausentes de seu papel no emprego, na sociedade ou mesmo na família. Entre as pessoas consideradas saudáveis, apenas 6% se desviavam de suas obrigações. “Se somarmos todos os prejuízos relacionados à doença, desde as dificuldades de aprendizado até os custos com planos de saúde, veremos que seu impacto é enorme”, constata Kessler.

O publicitário gaúcho Rafael (o nome é fictício), de 25 anos, é uma das pessoas que passaram a vida carregando esses e outros problemas. Ele só foi saber que sofria de TDAH aos 21 anos, por insistência do pai – que, meses antes, descobrira-se portador do distúrbio. Ao longo da vida, Rafael sempre tivera dificuldades para se concentrar e para manter a organização. Ainda mais trabalhando em um ambiente caótico por natureza, como as agências de publicidade. “Há uma tendência de começar 2 mil coisas diferentes e não terminar nenhuma delas. Os colegas de trabalho começam a te ver como um irresponsável, que embarca em tudo que é projeto, mas nunca leva nada até o fim”, descreve o jovem. Além disso, como muitos outros casos de TDAH, Rafael criou uma indesejável mania. “Eu mentia compulsivamente.” Para contornar o problema, o publicitário procurou ajuda médica e iniciou uma terapia. Hoje, mantém-se na linha usando medicamentos específicos para esse transtorno, à base de Metilfenidato (um estimulante que “ativa” os filtros cerebrais). Conhecido pelos pouquíssimos efeitos colaterais, o remédio tem sido de boa ajuda. “Para mim, foi a solução ideal”, alegra-se.

 

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