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      Edição 200 - Junho de 2004
 

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Graças ao espírito exportador e ao dinamismo da agroindústria, a região cresceu mais do que o Brasil da metade da década de 80 até hoje


Felipe Polydoro, Rogério Kiefer e Marcos Graciani

Há 18 anos, dificilmente um fato ocorrido em um país tão longínquo e envolvendo um produto de importância então relativa ganharia as capas dos jornais. No início de junho de 2004, a insistência da China em recusar contêineres de soja brasileira invadiu as manchetes. Principalmente no Sul, sede da maioria das exportadoras esnobadas pelos chineses. A dimensão que a crise tomou na região revela dois traços marcantes das economias do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná – a importância do mercado externo e do agronegócio. A ironia: se o perfil internacionalizado agora autoriza o incidente asiático a abrir um rombo na balança comercial do Sul (até o final desta edição, não havia um desfecho para o caso), nas duas últimas décadas permitiu à região crescer, em média, mais do que o Brasil. Graças à fabulosa expansão das exportações e ao dinamismo crescente da agroindústria, os três Estados do Sul conseguiram sofrer menos com as incontáveis crises que deprimiram o mercado nacional.

Verdade seja dita, o desempenho da economia brasileira da metade da década de 80 até hoje foi no mínimo decepcionante. Os parcos momentos de vigor foram logo interrompidos por alguma turbulência. Há exatamente 18 anos, em junho de 1986, os brasileiros comemoravam os resultados fantásticos do Plano Cruzado. Mal sabiam que dali a alguns meses o plano ruiria – ou que quatro anos depois o novo presidente seqüestraria quase toda a poupança do país e escancararia o mercado para os produtos importados. Na década de 80, o crescimento médio do PIB brasileiro ficou em pífio 1,6%. Na de 90, o desempenho melhorou, mas não se revelou nenhuma maravilha: 2,5%. De 2001 a 2003, a expansão também foi ridícula (o resultado mais contundente, de 2002, não passou de 1,8%).

Embarque de ônibus em Rio Grande: o mercado externo foi válvula de escape para as intempéries internas

É óbvio que o Sul, inserido nesta economia de movimentos erráticos, também penou com os planos econômicos malfadados, a inflação fora de controle, a política de juros altos e os respingos das crises internacionais. Até houve anos em que paranaenses, gaúchos e catarinenses sofreram mais do que os demais brasileiros. Caso da década de 80, quando a economia do Rio Grande do Sul avançou apenas 1%, ritmo menor do que a média nacional. Ou do Paraná, em 1997, onde o PIB se arrastou 0,9%, enquanto o país cresceu 3,3%.

A evidência de que o Sul avançou mais que o Brasil da metade dos anos 80 para cá está na participação da região no PIB brasileiro, que cresceu. Era de 17,1% em 1985. Atingiu 17,8% em 2001. Sabe-se que a parcela aumentou ainda mais desde então. Nas contas da gaúcha Fundação de Economia e Estatística (FEE), em 2003, a fatia do Estado alcançou 8,4% – era de 7,8% em 2001. Não há indicadores sobre os PIBs paranaense e catarinense referentes aos anos de 2002 e 2003 mas, tendo em vista o desempenho do agronegócio, certamente a participação de ambos os Estados no bolo nacional engordou.

Afinal, o que tanto mudou no agribusiness em todos estes anos? No campo, a produção disparou, turbinada pelos consistentes ganhos de produtividade. O segredo por trás do milagre da multiplicação? Tecnologia – seja a de máquinas e implementos agrícolas, seja a pesquisa envolvendo novas variedades. Durante os anos 90, também houve uma concentração das terras nas mãos de grandes produtores – muitas vezes, empresas de capital estrangeiro, como Bunge e Cargill. E nas grandes propriedades de monocultura brotam mais grãos por hectare. Além do que, grandes produtores têm mais condições de investir em mecanização.

 

 


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