Voltar para página inicial
      Edição 200 - Junho de 2004
 

    Matéria de Capa
    Especial
    Entrevista
    Exclusivo
Capa da edição



 
Quer receber notícias exclusivas da revista Amanhã?

(digite seu email)

 
Imprima esta matéria Dê sua opinião Indique este texto


Consultor de 100 vinícolas em 12 países, o enólogo e produtor francês Michel Rolland aceitou o desafio de trabalhar no Brasil, mas adverte: o vinho brasileiro não tem imagem no exterior

Luiz Guimarães e Andreas Müller

O mais celebrado enólogo do mundo viu-se envolvido em uma polêmica recentemente. Michel Rolland foi um dos protagonistas do controvertido Mondovino, documentário de Jonathan Nossiter, exibido no Festival de Cannes. O filme insinua que famosos como o próprio Rolland e seu amigo Robert Parker – importante crítico em enologia – protegem os poderosos, difundem a massificação das marcas e desfiguram a arte milenar de produzir vinhos artesanais. Rolland não esconde o desapontamento com o resultado do documentário, do qual participou sem conhecer o roteiro. Mas nem por isso perdeu a pose. Em entrevista a AMANHÃ, falou sem embaraços das chances brasileiras no mercado internacional de vinhos. Desde o ano passado, o enólogo francês, de 57 anos, é consultor da Miolo e peça-chave para difundir a marca no exterior. O caminho será árduo, reconhece. Como árdua é sua rotina pelo mundo: faz 170 vôos por ano para atender a 100 cantinas em 12 países e degustar entre 25 mil e 30 mil amostras. Na França, cuida de 40 hectares de viníferas, com cinco denominações de origem. “Vinho é como jogador de futebol, pode resultar num Ronaldinho ou num perna-de-pau”, compara. Mas, por enquanto, os sul-americanos que brilham na seleção dos melhores do mundo são os argentinos e os chilenos. “Os brasileiros ainda amargam a reserva.”

Aqui no Brasil, muito se fala que o vinho brasileiro está melhorando. Lá fora, o produto tem alguma importância?
Na realidade, não. Não podemos dizer que se falam dos vinhos brasileiros nos grandes mercados do mundo. O produto não tem imagem lá fora. Não se fala mal, tampouco se fala bem, o que não deixa de ser positivo. Os vinhos da América do Sul conhecidos são os do Chile e da Argentina, e um pouco do México, se o contexto for a América Latina.

Se o Brasil importa 50% do que consome, como ganhar mercado lá fora?
Bastante simples e bastante complicado ao mesmo tempo. Simples porque o Brasil é muito conhecido. Então, há sempre interesse pelo país. E a curiosidade é o primeiro estímulo para se comprar um vinho: se a gente não conhece, a gente compra para ver como é. Temos de levar em conta, no entanto, que há uma concorrência muito forte no mundo. Há os tradicionais europeus e o que se chama de “novo mundo do vinho”, formado por países como Argentina, Chile, Austrália, América do Norte e África do Sul. Então, se chegam os brasileiros com vinhos que não são de nível, as pessoas vão comprar uma vez e nunca mais... Se o Brasil quer exportar, tem de melhorar a qualidade.

“O primeiro estímulo do consumidor tradicional de vinhos, em relação às marcas novas, não é o preço: é a curiosidade, mas, se o produto não lhe impactar, nunca mais voltará a comprá-lo”

Que diferenciais o produto brasileiro pode oferecer?
Por definição, os vinhos de cada país têm sempre uma característica. O primeiro contato do consumidor é sempre pela curiosidade. Há o que conhece muito de vinho, o que não conhece e o que sempre tem uma marca na cabeça. E há aquele que está sempre olhando a qualidade. Então, o consumidor pensa: “É brasileiro, não conheço, vou tomar um brasileiro, que deve ter sua própria personalidade”. Em síntese, é sempre uma questão de comparação. O sujeito que toma vinho é seletivo e, se a bebida não lhe impacta, ele volta ao tradicional que estava acostumado a tomar. O Brasil vai ter oportunidade de buscar espaço para vender.

Preço seria um diferencial?
Não creio. Dentro de uma determinada faixa de consumo, o preço até pode ter importância. Em princípio, há vinho de todos os preços. Tem barato na França, na Espanha, na Austrália... Então, ser mais barato não conta, o que conta é a qualidade que o consumidor busca. Uns compram vinhos mais caros, outros, mais baratos. Porém o primeiro estímulo do consumidor será: “Me interessa um vinho brasileiro? Me interessa experimentar o novo?”.

Os vinhos têm denominação de origem. Hoje, o Brasil produz no Sul, no Nordeste e na fronteira com o Uruguai. Isso dificulta a criação de uma identidade para o produto nacional?
Não. Cada região tem sua peculiaridade. O Vale do São Francisco, no Nordeste, tem um clima muito particular. Lá não há o descanso da vinha (a região produz duas safras anuais). Desenvolvemos lá um vinho com a Miolo, o Terranova, uma mescla de cabernet sauvigon e shiraz. É um vinho que tem uma personalidade própria. Vamos procurar o melhor nessa zona, um vinho com taninos mais finos, por causa do clima cálido. Ao natural, a região produz um vinho mais duro, um pouco rústico. Nosso trabalho o que é? É buscar fineza num lugar onde não se produz naturalmente um produto fino. Será um vinho agradável, mas não será encorpado, será uma bebida com boa relação qualidade–preço. Mas terá uma personalidade. A região tem uma característica própria que vai dar essa personalidade, vindo a ser diferente de Bento Gonçalves e da região da Campanha gaúcha, na fronteira com o Uruguai.

Pode-se dizer que será pior ou melhor que os vinhos gaúchos?
Não creio que dessa zona (Vale do São Francisco) possa se esperar os melhores vinhos do Brasil. Mas podemos desenvolver vinhos com qualidade consistente, porque o clima é consistente. A qualidade vai ser melhor? Pode ser. Porém um ano muito bom lá nunca vai superar um ano bom em zonas como Bento Gonçalves ou Campanha.

O Chile emerge como grande produtor e exporta muito para o Brasil. Os vinhos chilenos são melhores do que os brasileiros?
São melhores. Se pegarmos uma carta com vinhos dos dois países, encontraremos chilenos muito melhores do que brasileiros. Mas isso não quer dizer que o Chile tenha mais potencialidade que o Brasil.

O que explica o fato de o Brasil consumir apenas dois litros per capita, quando na Argentina se bebem mais de dez litros e na Europa, mais de 40 litros por habitante?
Na França, são 57 litros. O consumo se explica pela cultura. O Brasil não tem uma cultura muito antiga de consumo. É um produtor pequeno se considerada a produção do mundo. Porém dois litros per capita não está mal. Nos Estados Unidos, o índice é de 1,5 litro, e se trata de um mercado grande. É 1,5 litro para 280 milhões de habitantes. O mesmo vale para o Brasil, um país de 180 milhões de habitantes. Pouco a pouco, o brasileiro vai criar uma cultura de consumo e vai querer o de melhor qualidade. A Argentina sempre foi um mercado forte, consumia toda a sua produção. Não exportava porque fazia um vinho ruim. Melhorou muito nos últimos anos e hoje tem conceito mundial.

O consumo global de destilados está praticamente estagnado. Como está o mercado para o vinho? A cerveja é concorrente?
Com exceção do uísque, os destilados estão em queda. A cerveja é, sim, a concorrente mais forte e mais importante. No mercado mundial, há grandes países consumidores de vinho, como França, Itália e Espanha, onde baixou um pouco a venda. Porém há outros em que o consumo vem crescendo, como Estados Unidos e Ásia – principalmente China e Japão. O consumo cresce lentamente, mas de maneira firme.

O senhor confirma que a cachaça brasileira começa a fazer sucesso no exterior? Isso pode ajudar o vinho?
Não sou especialista, mas não creio. Não é o mesmo mercado. Em relação à cachaça, penso que, se as empresas forem lá fora e fizerem um esforço de marketing, seguramente poderão buscar um mercado para o produto.

 

Copyright © Revista Amanhã - Conectt Marketing Interativo