| O mais celebrado enólogo
do mundo viu-se envolvido em uma polêmica
recentemente. Michel Rolland foi um dos protagonistas
do controvertido Mondovino, documentário
de Jonathan Nossiter, exibido no Festival de Cannes.
O filme insinua que famosos como o próprio
Rolland e seu amigo Robert Parker – importante
crítico em enologia – protegem os
poderosos, difundem a massificação
das marcas e desfiguram a arte milenar de produzir
vinhos artesanais. Rolland não esconde
o desapontamento com o resultado do documentário,
do qual participou sem conhecer o roteiro. Mas
nem por isso perdeu a pose. Em entrevista a AMANHÃ,
falou sem embaraços das chances brasileiras
no mercado internacional de vinhos. Desde o ano
passado, o enólogo francês, de 57
anos, é consultor da Miolo e peça-chave
para difundir a marca no exterior. O caminho será
árduo, reconhece. Como árdua é
sua rotina pelo mundo: faz 170 vôos por
ano para atender a 100 cantinas em 12 países
e degustar entre 25 mil e 30 mil amostras. Na
França, cuida de 40 hectares de viníferas,
com cinco denominações de origem.
“Vinho é como jogador de futebol,
pode resultar num Ronaldinho ou num perna-de-pau”,
compara. Mas, por enquanto, os sul-americanos
que brilham na seleção dos melhores
do mundo são os argentinos e os chilenos.
“Os brasileiros ainda amargam a reserva.”
Aqui no Brasil, muito se fala que o vinho
brasileiro está melhorando. Lá fora,
o produto tem alguma importância?
Na realidade, não. Não podemos dizer
que se falam dos vinhos brasileiros nos grandes
mercados do mundo. O produto não tem imagem
lá fora. Não se fala mal, tampouco
se fala bem, o que não deixa de ser positivo.
Os vinhos da América do Sul conhecidos
são os do Chile e da Argentina, e um pouco
do México, se o contexto for a América
Latina.
Se o Brasil importa 50% do que consome,
como ganhar mercado lá fora?
Bastante simples e bastante complicado ao mesmo
tempo. Simples porque o Brasil é muito
conhecido. Então, há sempre interesse
pelo país. E a curiosidade é o primeiro
estímulo para se comprar um vinho: se a
gente não conhece, a gente compra para
ver como é. Temos de levar em conta, no
entanto, que há uma concorrência
muito forte no mundo. Há os tradicionais
europeus e o que se chama de “novo mundo
do vinho”, formado por países como
Argentina, Chile, Austrália, América
do Norte e África do Sul. Então,
se chegam os brasileiros com vinhos que não
são de nível, as pessoas vão
comprar uma vez e nunca mais... Se o Brasil quer
exportar, tem de melhorar a qualidade.
| “O
primeiro estímulo do consumidor tradicional
de vinhos, em relação às
marcas novas, não é o preço:
é a curiosidade, mas, se o produto
não lhe impactar, nunca mais voltará
a comprá-lo” |
Que diferenciais o produto brasileiro
pode oferecer?
Por definição, os vinhos de cada
país têm sempre uma característica.
O primeiro contato do consumidor é sempre
pela curiosidade. Há o que conhece muito
de vinho, o que não conhece e o que sempre
tem uma marca na cabeça. E há aquele
que está sempre olhando a qualidade. Então,
o consumidor pensa: “É brasileiro,
não conheço, vou tomar um brasileiro,
que deve ter sua própria personalidade”.
Em síntese, é sempre uma questão
de comparação. O sujeito que toma
vinho é seletivo e, se a bebida não
lhe impacta, ele volta ao tradicional que estava
acostumado a tomar. O Brasil vai ter oportunidade
de buscar espaço para vender.
Preço seria um diferencial?
Não creio. Dentro de uma determinada faixa
de consumo, o preço até pode ter
importância. Em princípio, há
vinho de todos os preços. Tem barato na
França, na Espanha, na Austrália...
Então, ser mais barato não conta,
o que conta é a qualidade que o consumidor
busca. Uns compram vinhos mais caros, outros,
mais baratos. Porém o primeiro estímulo
do consumidor será: “Me interessa
um vinho brasileiro? Me interessa experimentar
o novo?”.
Os vinhos têm denominação
de origem. Hoje, o Brasil produz no Sul, no Nordeste
e na fronteira com o Uruguai. Isso dificulta a
criação de uma identidade para o
produto nacional?
Não. Cada região tem sua peculiaridade.
O Vale do São Francisco, no Nordeste, tem
um clima muito particular. Lá não
há o descanso da vinha (a região
produz duas safras anuais). Desenvolvemos lá
um vinho com a Miolo, o Terranova, uma mescla
de cabernet sauvigon e shiraz. É um vinho
que tem uma personalidade própria. Vamos
procurar o melhor nessa zona, um vinho com taninos
mais finos, por causa do clima cálido.
Ao natural, a região produz um vinho mais
duro, um pouco rústico. Nosso trabalho
o que é? É buscar fineza num lugar
onde não se produz naturalmente um produto
fino. Será um vinho agradável, mas
não será encorpado, será
uma bebida com boa relação qualidade–preço.
Mas terá uma personalidade. A região
tem uma característica própria que
vai dar essa personalidade, vindo a ser diferente
de Bento Gonçalves e da região da
Campanha gaúcha, na fronteira com o Uruguai.
Pode-se dizer que será pior ou
melhor que os vinhos gaúchos?
Não creio que dessa zona (Vale do São
Francisco) possa se esperar os melhores vinhos
do Brasil. Mas podemos desenvolver vinhos com
qualidade consistente, porque o clima é
consistente. A qualidade vai ser melhor? Pode
ser. Porém um ano muito bom lá nunca
vai superar um ano bom em zonas como Bento Gonçalves
ou Campanha.
O Chile emerge como grande produtor e
exporta muito para o Brasil. Os vinhos chilenos
são melhores do que os brasileiros?
São melhores. Se pegarmos uma carta com
vinhos dos dois países, encontraremos chilenos
muito melhores do que brasileiros. Mas isso não
quer dizer que o Chile tenha mais potencialidade
que o Brasil.
O que explica o fato de o Brasil consumir
apenas dois litros per capita, quando na Argentina
se bebem mais de dez litros e na Europa, mais
de 40 litros por habitante?
Na França, são 57 litros. O consumo
se explica pela cultura. O Brasil não tem
uma cultura muito antiga de consumo. É
um produtor pequeno se considerada a produção
do mundo. Porém dois litros per capita
não está mal. Nos Estados Unidos,
o índice é de 1,5 litro, e se trata
de um mercado grande. É 1,5 litro para
280 milhões de habitantes. O mesmo vale
para o Brasil, um país de 180 milhões
de habitantes. Pouco a pouco, o brasileiro vai
criar uma cultura de consumo e vai querer o de
melhor qualidade. A Argentina sempre foi um mercado
forte, consumia toda a sua produção.
Não exportava porque fazia um vinho ruim.
Melhorou muito nos últimos anos e hoje
tem conceito mundial.
O consumo global de destilados está
praticamente estagnado. Como está o mercado
para o vinho? A cerveja é concorrente?
Com exceção do uísque, os
destilados estão em queda. A cerveja é,
sim, a concorrente mais forte e mais importante.
No mercado mundial, há grandes países
consumidores de vinho, como França, Itália
e Espanha, onde baixou um pouco a venda. Porém
há outros em que o consumo vem crescendo,
como Estados Unidos e Ásia – principalmente
China e Japão. O consumo cresce lentamente,
mas de maneira firme.
O senhor confirma que a cachaça
brasileira começa a fazer sucesso no exterior?
Isso pode ajudar o vinho?
Não sou especialista, mas não creio.
Não é o mesmo mercado. Em relação
à cachaça, penso que, se as empresas
forem lá fora e fizerem um esforço
de marketing, seguramente poderão buscar
um mercado para o produto.
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