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A literatura corporativa está repleta de livros que
prometem revelar as “técnicas ocultas”
utilizadas pelos grandes líderes para influenciar e
mobilizar pessoas. Agora, um psicólogo norte-americano
da mais alta patente promete revolucionar essa biblioteca
com uma obra inovadora. Howard Gardner, um dos renomados pesquisadores
da Universidade de Harvard, elaborou ao longo de uma década
uma espécie de raio-x dos cérebros mais influentes
da história. Da primeira-ministra britânica Margaret
Thatcher ao superCEO Jack Welch, Gardner analisou como essas
personalidades “mudaram a cabeça” de outros
indivíduos. O resultado da pesquisa deu origem ao livro
Changing Minds – The Art and Science of Changing
Our Own and Other People’s Minds (na tradução
literal, “Mudando Idéias – A Arte e Ciência
de Mudar as Idéias Próprias e de Outras Pessoas”).
Lançada no início deste ano, nos Estados Unidos,
e ainda não publicada no Brasil, a obra comprova: ao
contrário do que se imaginava, a ciência da persuasão
vai muito além dos exercícios de oratória
ou das nuances da linguagem corporal.
Até agora, acreditava-se que influenciar pessoas era
uma habilidade comportamental, e não intelectual. Uma
pesquisa bastante conhecida na área de programação
neurolingüística, por exemplo, pregava que apenas
7% da comunicação interpessoal ocorre por meio
das palavras. A entonação da voz responderia
por 38% da mensagem, enquanto a postura corporal e as expressões
do rosto transmitiriam nada menos do que 55% das informações
captadas pelo cérebro humano. “Dizem que o cantor
é mais importante do que a canção. Da
mesma forma, quem fala é mais importante do que aquilo
que está sendo falado”, defende Lair Ribeiro,
um dos maiores especialistas em neurolingüística
do país. O estudo de Gardner refuta essa tese. O psicólogo
descobriu que os líderes mais influentes do mundo expõem
suas idéias de uma forma racional e sistemática
– e com uma estrutura de argumentação
envolvente. Resumindo, as palavras têm muito mais importância
no discurso persuasivo do que se pensava. “Na verdade,
a mente processa e arquiva informações de diversas
formas. Cada idéia que temos é representada
ou por uma imagem, ou por um som ou por outros tipos de signos
mentais”, conta Gardner. Para mudar uma pessoa ou suas
opiniões, portanto, é necessário remodelar
essas roupagens que a mente dá a cada idéia.
“E isso pode ser feito de várias maneiras. Inclusive
conversando”, garante Gardner, em entrevista exclusiva
a AMANHÃ.
Não que a neurolingüística esteja ultrapassada.
Gardner está simplesmente cobrindo uma antiga lacuna
da ciência da persuasão. De quebra, está
ajudando a desvendar por que algumas pessoas conseguem mover
multidões com o dom da palavra. “Hoje, provocar
mudanças é uma habilidade obrigatória
para qualquer líder”, percebe o professor Oren
Harari, especialista em gestão estratégica da
Universidade de São Francisco, nos Estados Unidos.
Na atual dinâmica da economia global, explica ele, as
empresas são obrigadas a estar sempre em compasso de
transição. “Imitar se tornou algo muito
fácil, especialmente em mercados emergentes como o
Brasil e a China. Por mais moderno que seja, qualquer serviço
ou tecnologia corre o risco de ser copiado”, defende
Harari a AMANHÃ. Nesse cenário, mudar constantemente
(de mercados, tecnologias, sistemas de gestão etc)
é a única proteção que as companhias
têm contra a ameaça da “commoditização”.
O problema é que raramente as pessoas estão
preparadas para mudar na velocidade que o mundo dos negócios
exige. Pelo contrário: por natureza, a mente humana
prefere as mordomias da estabilidade às incertezas
da mudança. De acordo com o psicólogo José
Ernesto Bologna, os indivíduos geralmente criam uma
fixação por hábitos e comportamentos
que se mostraram eficazes no passado. “Uma das características
do psiquismo é a tendência à repetição”,
define Bologna, que também é diretor da consultoria
Ethos Desenvolvimento Humano e Organizacional. Essa tendência
à acomodação é uma verdadeira
dor de cabeça para os executivos e empresários
que tentam implantar novos paradigmas em suas companhias.
Sem a devida preparação, dificilmente eles conseguem
contornar as resistências e levar seus projetos adiante.
“Influenciar pessoas está cada vez mais difícil”,
diagnostica o médico Nelson Spritzer, especialista
em programação neurolingüística
e diretor do Grupo DolphinTech, em Porto Alegre. “No
ímpeto de fazer as coisas acontecerem com rapidez,
alguns líderes empresariais tentam persuadir seus empregados
de maneira grosseira, à base de autoritarismo. Surgem
conflitos, tensões... E aí é que a iniciativa
não vinga mesmo”, descreve ele.
Para Howard Gardner, a resistência às mudanças
é resultado do próprio amadurecimento da mente
humana – ainda que isso soe um tanto paradoxal. Durante
a infância, diz ele, as pessoas facilmente trocam de
conceitos, opiniões e atitudes. “Às vezes,
fazem isso até voluntariamente”, observa. “Entretanto,
na medida em que envelhecemos e nossas conexões cerebrais
se consolidam, a mudança se torna mais difícil”,
pondera. Para ele, há três fatores que determinam
o grau de “teimosia” do cérebro: a idade,
o envolvimento emocional e a exposição pública
do indivíduo. “Quanto mais velhos ficamos, menor
é nossa tolerância ao novo. Da mesma forma, se
temos uma ligação afetiva muito forte com uma
ideologia, ou se precisamos zelar por uma posição
pública, dificilmente assimilamos pontos de vista diferentes”,
exemplifica Gardner.
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