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      Edição 198 - Maio de 2004
 

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Por que cada vez mais empresas recrutam profissionais
especializados em prever o pior – e o que elas ganham
ao farejar as crises com antecedência


Sílvia Lisboa

Um novo tipo de profissional vem conquistando espaço dentro das companhias. Sua atuação não é diferente da de seus colegas diretores financeiros, gerentes de qualidade e supervisores de vendas, exceto por duas características peculiares: ele é um pessimista incurável (embora se auto-intitule um realista) e tem uma imaginação tão fértil que, às vezes, chega a parecer maluquice. Afinal, ele é o profissional responsável pelo gerenciamento dos riscos a que uma companhia está exposta – e por remediar crises quando elas irrompem. Ou seja, preservar o bem mais precioso das companhias: sua imagem. O gestor de riscos e crises é um paranóico de plantão que está sempre imaginando os desdobramentos quase fantasmagóricos que um simples erro pode vir a ter.

Michelli Vanessa Kultchek, coordenadora da área de seguros e gerenciamento de riscos da América Latina Logística (ALL), está há mais de três anos nesse cargo e conta que, hoje, mantém um “chato” em cada unidade da companhia. “Cada caminhão e trem da ALL tem uma medida de prevenção de acidentes”, explica Michelli, especialista na área pela Associação Brasileira de Gerenciamento de Riscos (ABGR), entidade que há cerca de três anos conseguiu do Ministério do Trabalho o reconhecimento da profissão de gestor de risco.

Apesar de ser ainda pequeno o número de empresas que possui departamentos como o que Michelli coordena, é inegável a importância que a gestão de riscos e crises vem ganhando no atual cenário. Ao contrário do que ocorria há alguns anos, a função do gestor de riscos não se restringe mais às atividades corriqueiras do setor financeiro das empresas – onde o risco era associado apenas à análise de indicadores econômicos. Essa atividade avança agora sobre todos os departamentos de uma companhia, inclusive sobre sua rede de fornecedores e clientes. Para o jornalista Mário Rosa, autor do livro A Era do Escândalo (Geração Editorial), é necessário zelar pela credibilidade em todas as esferas. “Credibilidade não é ativo, é poupança. Sempre digo que a melhor forma de combater um enfarto é na sala de refeição, e não na sala de cirurgia”, defende.

Michelli Kultchek, da ALL: atenção aos riscos e um “chato” em cada de departamento

Preocupada com o despreparo das empresas nessa área, cuja ênfase ainda está em remediar e não em prevenir, a Câmara Americana de Comércio do Paraná (Amcham-PR) criou um comitê específico para ensiná-las a evitar as crises. “Depois do 11 de setembro e dos escândalos financeiros ocorridos em companhias tradicionais como a Enron e a Parmalat, todos começam a perceber a importância do tema”, avalia Reinaldo Putinatti, vice-coordenador do Comitê de Gerenciamento de Riscos e Crises da Amcham-PR e ex-presidente da ABGR.

A consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC) dimensionou esta preocupação em uma pesquisa divulgada recentemente. Cerca de 44% dos CEOs sul-americanos entrevistados pela consultoria disseram que têm planos de adotar sistemas formais de gestão de risco – os chamados Enterprise Risk Management (ERM) – dentro de um ou dois anos. “As empresas sul-americanas sempre enfrentaram mais riscos do que as companhias de países desenvolvidos. Mas a preocupação em se antecipar aos problemas começou há pouco tempo”, atesta Luiz Eduardo Viotti, sócio-diretor da PwC.

Uma das explicações para esta atitude mais pró-ativa é o endurecimento das leis que regem o universo corporativo nos Estados Unidos. A partir de 2007, a chamada Lei Sarbanes-Oxley vai exigir que todas as empresas tenham planos de contingência operacional – e não apenas financeiro – para o caso de o pior acontecer. “Os procedimentos de controle agora serão regra tanto para os bancos como para as companhias de capital aberto”, alerta Viotti. As multas previstas para quem não se adequar às regras são pesadas: podem chegar a US$ 20 milhões ou a prisão.

 


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