| Sílvia
Lisboa
Um novo tipo de profissional vem
conquistando espaço dentro das companhias.
Sua atuação não é
diferente da de seus colegas diretores financeiros,
gerentes de qualidade e supervisores de vendas,
exceto por duas características peculiares:
ele é um pessimista incurável (embora
se auto-intitule um realista) e tem uma imaginação
tão fértil que, às vezes,
chega a parecer maluquice. Afinal, ele é
o profissional responsável pelo gerenciamento
dos riscos a que uma companhia está exposta
– e por remediar crises quando elas irrompem.
Ou seja, preservar o bem mais precioso das companhias:
sua imagem. O gestor de riscos e crises é
um paranóico de plantão que está
sempre imaginando os desdobramentos quase fantasmagóricos
que um simples erro pode vir a ter.
Michelli Vanessa Kultchek, coordenadora
da área de seguros e gerenciamento de riscos
da América Latina Logística (ALL),
está há mais de três anos
nesse cargo e conta que, hoje, mantém um
“chato” em cada unidade da companhia.
“Cada caminhão e trem da ALL tem
uma medida de prevenção de acidentes”,
explica Michelli, especialista na área
pela Associação Brasileira de Gerenciamento
de Riscos (ABGR), entidade que há cerca
de três anos conseguiu do Ministério
do Trabalho o reconhecimento da profissão
de gestor de risco.
Apesar de ser ainda pequeno o número
de empresas que possui departamentos como o que
Michelli coordena, é inegável a
importância que a gestão de riscos
e crises vem ganhando no atual cenário.
Ao contrário do que ocorria há alguns
anos, a função do gestor de riscos
não se restringe mais às atividades
corriqueiras do setor financeiro das empresas
– onde o risco era associado apenas à
análise de indicadores econômicos.
Essa atividade avança agora sobre todos
os departamentos de uma companhia, inclusive sobre
sua rede de fornecedores e clientes. Para o jornalista
Mário Rosa, autor do livro A Era do
Escândalo (Geração Editorial),
é necessário zelar pela credibilidade
em todas as esferas. “Credibilidade não
é ativo, é poupança. Sempre
digo que a melhor forma de combater um enfarto
é na sala de refeição, e
não na sala de cirurgia”, defende.
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Michelli
Kultchek, da ALL: atenção
aos riscos e um “chato” em cada
de departamento |
Preocupada com o despreparo das
empresas nessa área, cuja ênfase
ainda está em remediar e não em
prevenir, a Câmara Americana de Comércio
do Paraná (Amcham-PR) criou um comitê
específico para ensiná-las a evitar
as crises. “Depois do 11 de setembro e dos
escândalos financeiros ocorridos em companhias
tradicionais como a Enron e a Parmalat, todos
começam a perceber a importância
do tema”, avalia Reinaldo Putinatti, vice-coordenador
do Comitê de Gerenciamento de Riscos e Crises
da Amcham-PR e ex-presidente da ABGR.
A consultoria PricewaterhouseCoopers
(PwC) dimensionou esta preocupação
em uma pesquisa divulgada recentemente. Cerca
de 44% dos CEOs sul-americanos entrevistados pela
consultoria disseram que têm planos de adotar
sistemas formais de gestão de risco –
os chamados Enterprise Risk Management
(ERM) – dentro de um ou dois anos. “As
empresas sul-americanas sempre enfrentaram mais
riscos do que as companhias de países desenvolvidos.
Mas a preocupação em se antecipar
aos problemas começou há pouco tempo”,
atesta Luiz Eduardo Viotti, sócio-diretor
da PwC.
Uma das explicações
para esta atitude mais pró-ativa é
o endurecimento das leis que regem o universo
corporativo nos Estados Unidos. A partir de 2007,
a chamada Lei Sarbanes-Oxley vai exigir que todas
as empresas tenham planos de contingência
operacional – e não apenas financeiro
– para o caso de o pior acontecer. “Os
procedimentos de controle agora serão regra
tanto para os bancos como para as companhias de
capital aberto”, alerta Viotti. As multas
previstas para quem não se adequar às
regras são pesadas: podem chegar a US$
20 milhões ou a prisão.
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