| Quando José Antonio
Fernandes Martins entrou na montadora de ônibus
caxiense Marcopolo, em 1965, a companhia já
havia revelado sua vocação cosmopolita:
exportara o primeiro ônibus quatro anos
antes, quando ainda era minúscula. Hoje,
a Marcopolo é uma multinacional brasileira.
Despacha veículos para cerca de 80 países
e, o que é mais importante, espalhou fábricas
pelo mundo (tem linhas de montagem em Portugal,
Colômbia, México, Argentina, África
do Sul e pode fincar uma na China, em breve).
“Provavelmente, somos a empresa mais internacionalizada
do Brasil”, sentencia Martins. Em plena
forma, aos 70 anos – “tenho bastante
quilometragem pela frente”, avisa –,
Martins divide sua ocupadíssima agenda
na corporação com a condição
de líder empresarial. Na Marcopolo, que
comanda junto com os sócios Paulo Bellini
(presidente e fundador) e Valter Gomes Pinto,
Martins é vice-presidente e principal estrategista.
Já a lista das entidades empresariais em
que ele atua é vasta e inclui a vice-presidência
da Fiergs e a presidência do Conselho Superior
de Comércio Exterior da Fiesp (Coscex),
onde ele pode fustigar as empresas a fincar operações
no exterior. “Internacionalizar é
a melhor forma de escapar dos riscos de mercado”,
prega nesta entrevista a AMANHÃ.
O que leva uma empresa a se internacionalizar?
Isso é um processo, algo que vai acontecendo
aos poucos. Para buscar mercado, a empresa começa
a exportar, o que é o destino de todas
as boas companhias. Acontece que se você
exporta um produto manufaturado e o país
para o qual você vende começa a importar
sem tomar nenhuma precaução, a indústria
local acaba perdendo força. Então,
esses países começam a fazer um
approach com os exportadores de determinados
produtos. O governo local chega e diz: “Nós
vamos estabelecer uma barreira aduaneira mais
alta para o seu produto, senão a nossa
indústria será destruída”.
Eles avisam que vão aumentar o imposto
de 10% para 30% se você continuar trazendo
o veículo pronto. Mas, se você montar
o produto no país, eles baixam o imposto
para 5%. Aí você começa a
montar o veículo lá. Outro dia,
o governo te chama de novo: “Você
está gozando de uma tarifa privilegiada
para importar componentes. Mas nós produzimos
vidros, borracha, chapa de alumínio, tinta.
Estude um plano de nacionalização
progressiva – que eles chamam de local
content plan – de tal maneira que você
traga apenas metade dos componentes num período
de quatro ou cinco anos”. Aí você
negocia uma nova redução de imposto,
que era 5% e cai para 2%. Quando você atinge
os 50% de nacionalização, cinco
anos depois, provavelmente o produto já
está desatualizado. Aí tem de projetar
um produto novo, criar um novo design
– e recomeça tudo do zero.
A internacionalização da
Marcopolo se encaixa nesta descrição?
Sim, a Marcopolo foi uma das pioneiras neste processo
no Brasil e acho que, provavelmente, somos a empresa
mais internacionalizada do país hoje. No
início, apenas vendíamos a nossa
tecnologia para alguma empresa local e exportávamos
as nossas peças em CKD (sistema em
que as peças são embarcadas prontas
para serem montadas). Aí percebemos
que estávamos criando dragões que,
com o tempo, seriam proprietários da nossa
tecnologia e que iriam concorrer com a gente em
outros mercados. Aí optamos pelo caminho
da internacionalização e nos tornamos
uma multinacional. Deixamos de vender a tecnologia,
compramos fábricas em alguns países
e, em outros, nos associamos a alguns grupos regionais.
Para produzir localmente...
Exatamente. Isto é o que é internacionalização.
Ou você compra 100% de uma empresa, ou se
associa majoritariamente com alguma companhia
local, ou se associa em igualdade de condições,
ou se associa minoritariamente E aí começa
a importar as peças e a montar o produto
lá. Até que recebe aquela visita
do governo local, que eu mencionei antes.
Que tipo de vantagem uma empresa internacionalizada
como a Marcopolo pode ter diante de situações
macroeconômicas adversas?
A vantagem é que você dilui o risco.
Por exemplo, no México, como a situação
econômica está mais sólida,
não temos problemas com instabilidade cambial,
como no Brasil. É uma operação
modelar, rentabilíssima. É claro
que, mesmo com a internacionalização,
temos problemas de vez em quando. No ano passado,
por exemplo, sofremos o impacto da Guerra do Iraque,
da gripe Sars na China, da recessão americana.
Só que é muito difícil acontecer
de os raios caírem todos no mesmo lugar.
Então, quanto mais você se internacionaliza,
menores serão os riscos. É impossível
que todos os países entrem em crise ao
mesmo tempo. A nossa idéia é buscar
uma internacionalização cada vez
maior – uma preocupação que
a gente não percebe nas empresas brasileiras
em geral.
| “Não
se pode dizer que a Marcopolo planejou se
internacionalizar. Isso é um processo,
algo que vai acontecendo aos poucos” |
Elas ainda estão no paradigma
da exportação?
O pessoal se preocupa em vender para o exterior
produtos prontos. Mas isso pode ter um fim. Até
o final de 1959, o Brasil importava os automóveis
completos. Um dia, o governo disse: “Chega,
agora eu quero fabricar automóveis aqui
dentro”. Então vieram GM, Ford etc.
e começaram a produzir automóveis
no Brasil.
Esse modelo de produzir em um só
país e exportar para o resto do mundo tende
a perder força por causa da concentração
de riscos?
Sem dúvida, quem exportar o produto completo
terá riscos. Existe o perigo de que copiem
o teu produto lá fora, por exemplo. Hoje,
há muita gente que não respeita
marcas e patentes, principalmente nos países
do Extremo Oriente. Lá, os caras não
dão muita bola para isso. Alguém
começa a copiar a sua tecnologia, e não
há o que fazer. Também há
riscos, o governo libera a importação
do seu produto, zera as tarifas – lembra
o que fez o Collor? Qual é o resguardo
que as empresas têm? É se internacionalizar,
abrir fábricas em tudo o que é parte
do mundo. O que fizeram as multinacionais de automóveis,
eletrodomésticos? Queiramos ou não,
a internacionalização é a
única estratégia que vai diminuir
sensivelmente o risco de mercado no futuro. Quando
você produz e vende, o que quer? Uma faixa
ampla de mercado. É o que a internacionalização
oferece. Na China, por exemplo, eu estou próximo
de países como Tailândia, Malásia
e Indonésia, que totalizam 700 milhões
de habitantes
Quais os próximos passos da Marcopolo
no mercado externo?
Nos próximos anos, vamos crescer substancialmente
no mercado comum europeu, onde temos uma fábrica
em Portugal. Em 2003, nós produzimos 110
unidades na Europa. Neste ano, já devemos
atingir 240, mais que o dobro. No ano que vem,
a gente não sabe. Na China, estamos estudando
a viabilidade econômica de abrir uma fábrica
de componentes. Hoje, vendemos tecnologia para
a Iveco no mercado chinês. Nós também
estamos estudando uma eventual reabertura da nossa
fábrica na Argentina. Nós fomos
obrigados a fechá-la durante a crise e
desde então a planta está em stand
by. Não temos planos definidos, mas
quando o mercado argentino reagir e se mostrar
comprador a gente reabre a fábrica devagarinho.
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