| Clarissa
Barreto

Ainda há um longo caminho
a percorrer até que um aluno brasileiro
estude Administração em um campus
avançado de Harvard, em São Paulo,
Belo Horizonte ou Porto Alegre. No entanto, essa
possibilidade, que até pouco tempo seria
considerada improvável, começa a
ganhar contornos de realidade. Quatro países
– Estados Unidos, Nova Zelândia, Austrália
e Japão – propuseram a inclusão
do ensino superior no Acordo Geral sobre o Comércio
de Serviços (Gats, na sigla em inglês)
da Organização Mundial do Comércio
(OMC). Em bom português, seria uma abertura
de mercado para este setor (veja o quadro
sobre o que é Gats).
Embora o Brasil não seja
um dos países que optaram por incluir no
Gats o ensino superior, na prática o mercado
nacional já é aberto para esse fim.
“Não é proibido a uma universidade
estrangeira criar um curso no Brasil, desde que
ele tenha professores brasileiros e aulas ministradas
em português. Ou seja, desde que obedeça
às regras do Ministério da Educação,
diz Renato Flores, professor da Fundação
Getúlio Vargas e especialista em OMC.
Até aí, tudo bem.
O problema é que, conforme as normas do
Gats, as universidades deixariam de ser reguladas
pelos ministérios da Educação
de cada país, passando a responder a um
fórum internacional de certificação
liderado pela OMC. “Nós, da Andifes
(Associação Nacional dos Dirigentes
das Instituições Federais de Ensino
Superior), somos completamente contra essa
possibilidade”, avisa Wrana Panizzi, presidente
da entidade e reitora da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul. Ela afirma que a educação
é dever do Estado e que cabe ao MEC dar
a última palavra a respeito de cursos superiores
oferecidos no Brasil. O discurso é endossado
pelo ex-ministro da Educação Paulo
Renato Souza. Ele ressalta que os processos de
avaliação devem permanecer em poder
de cada país. “Não é
conveniente para o Brasil destruir seu sistema
de acreditação”, avalia.
 |
| Campus
da Unisinos, em São Leopoldo (RS):
parceria com universidades internacionais
já influi na rotina de sala de aula |
Há quem pregue um caminho
alternativo para a globalização
do ensino. O também ex-ministro Cristóvam
Buarque, por exemplo, diz que a vinda de cursos
estrangeiros para o Brasil pode ser positiva.
Mas enfatiza que sua regulamentação,
nesse caso, deve ficar sob os cuidados do MEC.
“Temos de manter a nossa soberania, analisando
os cursos de acordo com os nossos valores e com
a nossa história”, opina.
|