| Luiz
Guimarães
O marketing industrial envolve
as relações entre empresas que trocam
produtos e serviços. Até aí,
nenhuma novidade. Esta prática, que em
meados da década de 70 recebeu a denominação
industry marketing, ganhou terreno e
se consolidou a partir dos anos 80, sob o termo
business-to-business ou b-to-b.
Também nada de novo. Mas até onde
vai a criatividade dos fornecedores para seduzir
e fidelizar o cliente? Até onde esta ferramenta
aproxima e estreita as relações
entre quem compra e quem vende? José Carlos
Teixeira Moreira, professor e idealizador da recém-criada
Escola de Marketing Industrial (EMI), com sede
em São Paulo, inverte uma conhecida lógica
ao responder. Segundo o especialista, a maioria
das empresas fornecedoras fixa seu foco no
cliente, observa-o de fora para dentro e
espera que ele diga do que precisa. “Um
erro”, diz o professor. “Quem quer
vender tem de perceber o foco do cliente,
sacar soluções ótimas, perfeitas;
alertá-lo sobre as oportunidades de seu
mercado antes que ele as perceba.”
A
fórmula que a EMI se propõe a destrinchar
pela via acadêmica já foi percebida
por algumas empresas. Como a Ipiranga Petro-química,
por exemplo. O mercado de resinas cobra criatividade
das equipes de marketing. Hoje, só no segmento
de polietileno, operam seis fornecedoras nacionais,
mais a Dow Chemical, da Argentina. Ainda este
ano, entra em ação a Rio Polímeros,
esquentando a briga pelo fornecimento à
terceira geração. Para fidelizar
o cliente, a Ipiranga carrega em afagos e carícias.
Periodicamente, um grupo de técnicos visita
os principais parceiros, percorre a linha de produção,
analisa como se comportam na fase de transformação
as resinas que fornece e se coloca à disposição
para rever e pesquisar novas soluções.
Quando algo vai mal, o grupo estimula o cliente
a sugerir modificações. A sugestão
é avaliada por um comitê interno
da Ipiranga que, se concluir pela viabilidade
econômica, coloca a proposta em teste na
planta-piloto do Pólo Petroquímico
de Triunfo.
Foi pelos caminhos da especulação,
da investigação e do feedback
que a Ipiranga desenvolveu uma embalagem soprada
de polietileno para o envase de leite, mais tarde
estendida a sucos e cosméticos. Também
aprimorou uma resina para a produção
de sacolas plásticas mais finas e resistentes.
O nome das empresas que colaboraram com as descobertas,
o diretor comercial Eduardo Tergolina não
revela. “É sigilo industrial”,
diz. A planta-piloto pode testar dez novos polímeros
simultaneamente. Quando toda a capacidade está
tomada, as novas sugestões entram na fila
de espera. Se o teste der certo, ganha a empresa
que levantou o problema e a própria Ipiranga
que, então, repassa ou adapta a descoberta
a outros clientes. O prêmio aos autores
das sugestões vitoriosas é uma gorda
pontuação no programa de fidelização,
um termômetro inventado pelo marketing para
medir o grau de parceria entre quem vende e quem
compra. No ano passado, 60 parceiras participaram
do programa. As que alcançaram os melhores
escores já escalaram executivos para conhecer
o vale dos vinhedos chilenos por conta da petroquímica
gaúcha – um prêmio aos melhores
parceiros. Em 2004, a concorrência será
mais acirrada. Toda a carteira de 300 clientes
estará concorrendo aos mimos do b-to-b,
anuncia Tergolina.
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| Pagando
para ver: Ipiranga Petroquímica investe
nas sugestões dos fornecedores |
Na prática, a Ipiranga exercita
o que Moreira define como “relações
prósperas e duradouras, dentro de um contexto
de cooperação entre as partes que
procuram juntas um objetivo comum”. Ele
explica que, no cenário corporativo, predomina
um ambiente de desconfiança que muitas
vezes acaba por prejudicar as relações.
O marketing entra, então, para quebrar
o gelo e aglutinar interesses comuns. “Procurar
alguém apenas para vender algo não
constrói uma relação de valor.
O importante é buscar uma certa intimidade”,
afirma. O business-to-business lida com
questões fundamentais do mundo dos negócios,
como a ética. O primeiro passo para desenvolver
uma boa ação de marketing industrial,
é, portanto, estabelecer com o parceiro
um plano de futuro. Olhar para onde o cliente
está olhando, perceber o que ele quer.
Na guerra por conquistas, o que vale é
ser útil e demonstrar esta utilidade. “É
preciso desenvolver uma empatia legítima,
fazer uma promoção espontânea
do parceiro; construir uma relação
de cooperação total”, completa
Moreira.
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