| Ninguém nasce em
Joinville impunemente – que o digam os empregados
da Centrais Elétricas de Santa Catarina
(Celesc). Desde o início do ano passado,
eles estão aprendendo isso da maneira mais
direta possível. Legítimo representante
da elite industrial da maior cidade catarinense,
onde o trabalho duro e a eficiência são
vistos como fundamentais para o sucesso de qualquer
negócio, o presidente da companhia, Carlos
Rodolfo Schneider, está disposto a implantar
na estatal uma cultura típica de empresa
privada. Na prática, o controlador do grupo
H Carlos Schneider, que comanda, entre outras
companhias, a Ciser, maior fabricante de porcas
e parafusos da América Latina, busca levar
para a Celesc o que aprendeu no dia-a-dia dos
negócios da família.
Uma de suas principais bandeiras é
a luta contra a cultura que impera nas estatais
de despreocupação com a competitividade.
E essa guerra diária é feita de
apostas ousadas, como a negociação
com sindicatos para acabar com a estabilidade
no emprego de funcionários ineficientes.
O combate à malandragem de alguns empregados,
que batiam o ponto na guarita de acesso à
empresa e desperdiçavam tempo no estacionamento
ou na lanchonete, por exemplo, exigiu apenas uma
pequena alteração interna: agora,
o funcionário só “marca presença”
depois que chega ao local de trabalho.
O senhor vem de uma experiência
bem-sucedida na iniciativa privada. Está
sendo difícil se adaptar ao serviço
público?
Minha maior frustração é
com a demora com que as coisas acontecem na empresa
pública. O que me deixa otimista é
o número de oportunidades que enxergo de
melhorar. A grande dificuldade é fazer
as negociações políticas
que são necessárias para que se
possa conduzir a empresa de forma adequada. Então,
uma de minhas tarefas aqui é blindar a
empresa contra o excesso de interferência
política. Quero acabar com os partidos
dentro da Celesc. Isso é uma coisa cultural
aqui dentro. Por isso, a mudança não
pode ser feita em dois ou três anos.
O sistema elétrico catarinense
é confiável?
Não. Eu diria que nenhum sistema no Brasil
é confiável. O sistema elétrico
também não é. Por vários
motivos: falta de regras claras, inconsistência
de modelos do setor, uso político das empresas,
falta de dinheiro para investimento e desperdício
de recursos. Esses motivos não permitiram
que se construísse no Brasil um sistema
elétrico confiável. Nosso sistema
ainda está buscando confiabilidade. Para
conseguir isso, temos de investir mais e melhor.
Precisamos reduzir os custos de nossos investimentos.
Precisamos comprar melhor e contratar melhor.
A licitação não é
necessariamente a melhor forma de contratação.
Ela é uma contratação transparente,
mas não significa que você estará
fazendo uma contratação mais barata
ou que atenda à melhor relação
custo-benefício. E isto precisa ser aprimorado.
Tenho certeza de que a Celesc, como outras distribuidoras,
tem comprado e contratado mais caro do que precisaria.
Por exemplo: até um mês atrás,
tínhamos de colocar um preço de
referência nas nossas licitações.
Isso era um balizador para o fornecedor. Ele sempre
cotava perto daquele número, quando muitas
vezes podia ser um valor inferior. A partir de
agora, não precisaremos mais colocar o
preço de referência no edital. Nós
teremos o preço de referência guardado
conosco, internamente, e vamos aguardar. Se os
competidores apresentarem um valor dentro do nosso
banco de preço, nós contratamos.
Se não, repetimos a licitação.
| “Hoje,
quem entra aqui já não tem
garantia de
emprego. E vamos negociar com o sindicato
para estender isso a todos. O sindicato
precisa entender que a empresa moderna se
pauta pelo desempenho” |
Há outras medidas para baixar
custos na compra de suprimentos?
Temos de atualizar nosso banco de preços.
Como funciona hoje a atualização?
Temos uma referência antiga de preço
que todo mês é reajustada de acordo
com o índice de aumento de custos fornecido
pela Fundação Getúlio Vargas
(FGV). Só que o mercado não funciona
apenas a partir dos índices da FGV. Muitos
materiais tiveram seu preço reduzido em
função de uma oferta superior à
procura e do aumento de eficiência das fabricantes.
Desde o ano passado, defendo a atualização
do nosso banco de preços, mas a área
técnica dizia que não era preciso,
que o sistema estava atualizado. Agora, no entanto,
está começando a haver o entendimento
de que é preciso fazer a atualização.
Fizemos um convênio com a Cemig e vamos
trocar informações sobre banco de
preços. Vamos trocar dados também
com a Copel, do Paraná.
A empresa não estava sabendo comprar,
gerir e vender?
A empresa continuava agindo como sempre agiu,
o que é típico de quem tem mercado
cativo. Essa é uma característica
que não é exclusiva da Celesc. Ela
é comum a toda empresa que não precisa
atuar em mercados competitivos. Ela busca ser
eficiente no que faz, mas não busca ser
eficaz.
As Parcerias Público-Privadas
(PPPs) podem ajudar as estatais a melhorar seus
serviços?
A Celesc está desenvolvendo um PPP. É
um projeto de investimentos em geração,
por meio de PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas,
com capacidade instalada de até 30 megawatts).
A Celesc vai investir só 4% do valor (orçado
em R$ 500 milhões), e vamos agregar 200
MW na nossa capacidade. A Celesc entra com a expertise
e com o PPA (contrato de compra de energia). É
uma garantia que o mercado tem do retorno do investimento.
O empreendedor tem a garantia do retorno, e a
Celesc tem a garantia do produto. É uma
coisa difícil, mas viável se for
bem trabalhada.
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