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      Edição 197 - Abril de 2004
 

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É possível uma estatal com mercado cativo ter foco
no cliente, blindagem contra influências políticas
e demitir quem não trabalha bem? O presidente
da Celesc, Carlos Rodolfo Schneider, acha que sim – e diz como

Rogério Kiefer

Ninguém nasce em Joinville impunemente – que o digam os empregados da Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc). Desde o início do ano passado, eles estão aprendendo isso da maneira mais direta possível. Legítimo representante da elite industrial da maior cidade catarinense, onde o trabalho duro e a eficiência são vistos como fundamentais para o sucesso de qualquer negócio, o presidente da companhia, Carlos Rodolfo Schneider, está disposto a implantar na estatal uma cultura típica de empresa privada. Na prática, o controlador do grupo H Carlos Schneider, que comanda, entre outras companhias, a Ciser, maior fabricante de porcas e parafusos da América Latina, busca levar para a Celesc o que aprendeu no dia-a-dia dos negócios da família.

Uma de suas principais bandeiras é a luta contra a cultura que impera nas estatais de despreocupação com a competitividade. E essa guerra diária é feita de apostas ousadas, como a negociação com sindicatos para acabar com a estabilidade no emprego de funcionários ineficientes. O combate à malandragem de alguns empregados, que batiam o ponto na guarita de acesso à empresa e desperdiçavam tempo no estacionamento ou na lanchonete, por exemplo, exigiu apenas uma pequena alteração interna: agora, o funcionário só “marca presença” depois que chega ao local de trabalho.

O senhor vem de uma experiência bem-sucedida na iniciativa privada. Está sendo difícil se adaptar ao serviço público?
Minha maior frustração é com a demora com que as coisas acontecem na empresa pública. O que me deixa otimista é o número de oportunidades que enxergo de melhorar. A grande dificuldade é fazer as negociações políticas que são necessárias para que se possa conduzir a empresa de forma adequada. Então, uma de minhas tarefas aqui é blindar a empresa contra o excesso de interferência política. Quero acabar com os partidos dentro da Celesc. Isso é uma coisa cultural aqui dentro. Por isso, a mudança não pode ser feita em dois ou três anos.

O sistema elétrico catarinense é confiável?
Não. Eu diria que nenhum sistema no Brasil é confiável. O sistema elétrico também não é. Por vários motivos: falta de regras claras, inconsistência de modelos do setor, uso político das empresas, falta de dinheiro para investimento e desperdício de recursos. Esses motivos não permitiram que se construísse no Brasil um sistema elétrico confiável. Nosso sistema ainda está buscando confiabilidade. Para conseguir isso, temos de investir mais e melhor. Precisamos reduzir os custos de nossos investimentos. Precisamos comprar melhor e contratar melhor. A licitação não é necessariamente a melhor forma de contratação. Ela é uma contratação transparente, mas não significa que você estará fazendo uma contratação mais barata ou que atenda à melhor relação custo-benefício. E isto precisa ser aprimorado. Tenho certeza de que a Celesc, como outras distribuidoras, tem comprado e contratado mais caro do que precisaria. Por exemplo: até um mês atrás, tínhamos de colocar um preço de referência nas nossas licitações. Isso era um balizador para o fornecedor. Ele sempre cotava perto daquele número, quando muitas vezes podia ser um valor inferior. A partir de agora, não precisaremos mais colocar o preço de referência no edital. Nós teremos o preço de referência guardado conosco, internamente, e vamos aguardar. Se os competidores apresentarem um valor dentro do nosso banco de preço, nós contratamos. Se não, repetimos a licitação.

“Hoje, quem entra aqui já não tem garantia de
emprego. E vamos negociar com o sindicato para estender isso a todos. O sindicato precisa entender que a empresa moderna se pauta pelo desempenho”

Há outras medidas para baixar custos na compra de suprimentos?
Temos de atualizar nosso banco de preços. Como funciona hoje a atualização? Temos uma referência antiga de preço que todo mês é reajustada de acordo com o índice de aumento de custos fornecido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Só que o mercado não funciona apenas a partir dos índices da FGV. Muitos materiais tiveram seu preço reduzido em função de uma oferta superior à procura e do aumento de eficiência das fabricantes. Desde o ano passado, defendo a atualização do nosso banco de preços, mas a área técnica dizia que não era preciso, que o sistema estava atualizado. Agora, no entanto, está começando a haver o entendimento de que é preciso fazer a atualização. Fizemos um convênio com a Cemig e vamos trocar informações sobre banco de preços. Vamos trocar dados também com a Copel, do Paraná.

A empresa não estava sabendo comprar, gerir e vender?
A empresa continuava agindo como sempre agiu, o que é típico de quem tem mercado cativo. Essa é uma característica que não é exclusiva da Celesc. Ela é comum a toda empresa que não precisa atuar em mercados competitivos. Ela busca ser eficiente no que faz, mas não busca ser eficaz.

As Parcerias Público-Privadas (PPPs) podem ajudar as estatais a melhorar seus serviços?
A Celesc está desenvolvendo um PPP. É um projeto de investimentos em geração, por meio de PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas, com capacidade instalada de até 30 megawatts). A Celesc vai investir só 4% do valor (orçado em R$ 500 milhões), e vamos agregar 200 MW na nossa capacidade. A Celesc entra com a expertise e com o PPA (contrato de compra de energia). É uma garantia que o mercado tem do retorno do investimento. O empreendedor tem a garantia do retorno, e a Celesc tem a garantia do produto. É uma coisa difícil, mas viável se for bem trabalhada.

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