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Fernando Campos é daqueles profissionais
que entram cedo na vida corporativa. Começou a trabalhar
com apenas 18 anos, como estagiário da Federação
das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs).
Aos 19, já havia sido promovido a coordenador de um
importante programa de comércio exterior da entidade.
Hoje, com apenas 24 anos, Campos ocupa o segundo cargo executivo
de sua carreira – agora, na Ambev-Interbrew, da qual
é gerente de projetos em Porto Alegre. Não é
preciso dizer que ele está feliz na nova função.
“Eu me identifico muito com a empresa. É um ambiente
flexível e dinâmico, que me estimula bastante”,
confessa. Nas horas vagas, Campos gosta de tocar violão.
E ainda reserva um tempo para uma pós-graduação
em Finanças, que será concluída em breve.
Theunis Marinho também começou
cedo – mais precisamente aos 16 anos, para bancar os
estudos. Ao contrário de Campos, porém, Marinho
não começou a carreira pulando de uma grande
empresa para outra. Ainda jovem, arranjou um emprego na Bayer
Polímeros do Brasil e permaneceu lá durante
28 anos. Nesse período, conseguiu construir uma carreira
prodigiosa. Dirigiu a unidade de negócios de óxido
de ferro da Bayer na Alemanha. E ainda foi diretor-presidente
da companhia para a América Latina. “Todas as
minhas expectativas foram atendidas. Foi uma época
muito feliz”, recorda ele. “Em compensação,
deixei de lado muitas atividades das quais gostava, especialmente
o lazer”, lamenta. Há pouco tempo, Marinho abandonou
o emprego em nome da qualidade de vida. Hoje, aos 52 anos,
é consultor de empresas.
O jovem Fernando Campos e o experiente Theunis Marinho têm
muito em comum. Ambos começaram a trabalhar ainda adolescentes
e seguiram carreiras bem-sucedidas dentro de empresas multinacionais.
Há, porém, uma diferença fundamental
entre eles. Campos pertence a uma geração que
rejeita a idéia de trabalhar muitos anos para uma mesma
empresa – ainda mais quando a qualidade de vida está
em jogo. É a nova geração de “superexecutivos”,
cujas características marcantes são a volubilidade
e o individualismo. Em geral, são jovens recém-saídos
das universidades e escolas de negócios do país.
E que chegam ao mercado em busca de ascensão rápida
e, principalmente, da chance de experimentar diversos empregos
diferentes. “O novo executivo não tem paciência
para ficar muito tempo na mesma empresa”, constata a
psicóloga organizacional Zeila Bedin, diretora do Instituto
de Desenvolvimento Global (IDG). “Ele troca de emprego
tão logo percebe que o trabalho não corresponde
às suas expectativas de evolução pessoal
e profissional”, completa.
É claro que os vínculos de longa duração
com as organizações ainda são valorizados
e cobiçados – especialmente em um país
que convive com índices ameaçadores de desemprego.
Entretanto, os profissionais da nova geração
tendem a encarar promessas de estabilidade com mais ceticismo
do que seus antecessores. Cada oportunidade é avaliada
com pragmatismo. O emprego lhes proporciona um bom retorno
financeiro, qualidade de vida e realização pessoal?
Ótimo: dedicarão o tempo que for preciso ao
cargo. Mas, se a empresa impõe uma rotina estressante,
um ambiente conturbado e ainda menospreza valores éticos
e sociais, aí nada feito. Tão logo puderem,
os novatos vão partir para outra. “No fundo,
esses jovens até gostariam de ter uma carreira mais
estável. Ocorre que o próprio mercado de trabalho
não permite mais isso. Então, eles correm na
frente. Desde cedo, sabem que sua relação com
as empresas será eterna apenas enquanto durar”,
relata o headhunter Luiz Carlos Cabrera, sócio
da Amrop Hever Group, uma das maiores empresas de recrutamento
do mundo.
| O
individualismo e a flexibilidade para dar novos rumos
à carreira são as marcas registradas do
novo executivo. Lealdade ao emprego é coisa da
geração passada |
Para compensar a instabilidade, o novo executivo apresenta
outra característica singular: exige crescimento rápido,
tanto financeiro como profissional – ainda que, muitas
vezes, sequer tenha a experiência necessária
para isso. “Ele é muito focado nele mesmo”,
analisa o consultor Antonio Moutinho, especialista em planejamento
de carreira. Se não progridem no emprego, em um período
aproximado de dois anos, os jovens logo começam a sondar
novas oportunidades em outras companhias. A mudança
tem pelo menos um aspecto positivo. “Antigamente, os
profissionais deixavam suas carreiras na mão das empresas.
Hoje, eles valorizam mais sua individualidade, deixando bem
claro que estão lá em busca de resultados pessoais”,
compara.
Não se pode, no entanto, confundir a postura particularista
do novo executivo com arrogância ou egocentrismo. Por
trás da atitude “cada um por si”, há
um sentimento profundo de insegurança e apreensão
com o mercado de trabalho. No final dos anos 80, boa parte
dessa geração viu os pais serem repentinamente
varridos de seus empregos pela onda da reengenharia e do downsizing.
A época também ficou marcada pela explosão
dos workaholics, pessoas que dedicavam todo o seu
tempo ao emprego, deixando de lado o convívio com os
filhos – os executivos de hoje. “Esses jovens
perceberam que toda aquela fidelidade que os pais dedicavam
ao emprego não valeu a pena”, sintetiza Sofia
Esteves do Amaral, sócia-diretora da DM Recursos Humanos,
que recruta executivos para grandes companhias. Em outras
palavras, manter vínculos superficiais com as organizações
e priorizar o crescimento pessoal seria apenas uma forma de
evitar os erros da velha guarda. “As pesquisas mostram
que os jovens se cuidam muito mais. Eles querem ser bem-sucedidos,
mas também fazem questão de reservar tempo para
a família e recursos para exercer sua qualidade de
vida”, detalha Sofia. |