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      Edição 196 - Março de 2004
 

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Autoconfiante, seguro, dedicado, mobilizador e capaz de aproveitar oportunidades antes de qualquer um. Parece o profissional perfeito,
mas cuidado: suas melhores qualidades ocultam comportamentos destrutivos, que podem ameaçar a empresa, a família, a carreira –
e a própria vida do executivo

Tatiana Csordas


Dificilmente alguém questionaria a competência de Antônio Britto. Nem poderia acusá-lo de não ser dedicado às funções que desempenhava. Depois de uma bem-sucedida carreira como jornalista, alcançou o Palácio do Planalto em Brasília, foi porta-voz da Presidência, assumiu o Ministério da Previdência e chegou ao governo do Rio Grande do Sul. Mas a mesma aura de poder e autoridade que o levou ao topo acabou acarretando a disputa por um novo mandato de governador. Perdeu uma eleição para o governo gaúcho para o carismático Olívio Dutra e a seguinte, para o conciliador Germano Rigotto. “Britto perdeu para ele mesmo”, eram os comentários de seus próprios aliados. Hoje, o ex-governador retorna à cena pública sob novos refletores. No mês passado, assumiu a presidência da maior fabricante de calçados do país, a Azaléia, em Parobé (RS). E não foi só de endereço que Britto mudou. “A derrota é o que chamo de v.h. - vacina de humildade. Quando o sujeito ganha muito, sem querer, começa a chamar Deus de colega. Mas a derrota ensina muito mais que a vitória”, reconhece o agora executivo. Se antes era tratado por doutor, agora os funcionários da Azaléia o chamam simplesmente de Britto. Ele também trocou os sisudos trajes de político por roupas mais descontraídas. Mais calmo, o ex-governador mudou para a cidade de Canela, onde mora com a esposa e os trigêmeos de um ano e meio. E espera voltar logo para a faculdade de Direito, interrompida no semestre passado. “Cabelo branco não te impede de errar, mas ajuda a errar menos”, acredita.

Os melhores atributos de Antônio Britto o levaram a conquistar importantes vitórias – e derrotas inesquecíveis

O que tirou Antônio Britto dos trilhos da carreira política certamente também leva muitos profissionais e empresas ao fracasso. “Os descarriladores são características positivas que quando exageradas acabam se transformando em negativas”, explica Roberto Affonso dos Santos, sócio-diretor da Consultoria Ateliê - Desenvolvimento Humano e Organizacional. O conceito, proposto pelo consultor norte-americano Robert Hogan, foi detalhado recentemente no livro Por Que os Executivos Falham? (Campus, 192 páginas), de David Dotlich e Peter Cairo. “São traços da personalidade profundamente enraizados que afetam o estilo de liderança e as ações dos indivíduos”, define a obra. O mito de Ícaro ilustra bem o efeito descarrilador de alguns comportamentos. Ícaro voava com suas asas artificiais de cera até que chegou tão perto do sol que as asas derreteram, derrubando-o para a morte. As mesmas asas que levaram o herói mitológico ao topo provocaram o seu fim. Assim também, os melhores atributos podem abalar a carreira de um executivo quando levados ao extremo. A autoconfiança que faz um profissional ascender pode-se transformar em arrogância e acarretar sua demissão. É o aspecto sombrio da personalidade, tão primitivo quanto a humanidade e tão presente quanto as tensões do mundo moderno.

Quem primeiro observou o poder das sombras foi Platão, em sua célebre alegoria da caverna. Para o filósofo grego, todos somos condenados a ver sombras e a acreditar que elas são verdadeiras. O problema é que nós mesmos criamos nossas sombras, ao ocultarmos comportamentos indesejáveis desde que nascemos. “A sombra é um fenômeno normal do desenvolvimento humano. A criança tem vontade de bater no irmão, mas aprende que não pode. Torna-se boazinha. Mas seu lado destrutivo fica escondido”, esclarece o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Para Sigmund Freud, os desejos e comportamentos reprimidos são banidos para o inconsciente. “No trabalho, tentamos agradar a nossos chefes, colegas e clientes, geralmente escondendo nos mais profundos recessos de nosso ser nossas porções desagradáveis – nossa agressão, avidez, competitividade”, percebe Bruce Shakleton, psicólogo e consultor organizacional no artigo “O encontro com a sombra no trabalho”.

 Fonte: Por Que os Executivos Falham? - David Dotlich e Peter Cairo – Editora Campus

 

 

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