|
Dificilmente alguém questionaria a competência
de Antônio Britto. Nem poderia acusá-lo de não
ser dedicado às funções que desempenhava.
Depois de uma bem-sucedida carreira como jornalista, alcançou
o Palácio do Planalto em Brasília, foi porta-voz
da Presidência, assumiu o Ministério da Previdência
e chegou ao governo do Rio Grande do Sul. Mas a mesma aura
de poder e autoridade que o levou ao topo acabou acarretando
a disputa por um novo mandato de governador. Perdeu uma eleição
para o governo gaúcho para o carismático Olívio
Dutra e a seguinte, para o conciliador Germano Rigotto. “Britto
perdeu para ele mesmo”, eram os comentários de
seus próprios aliados. Hoje, o ex-governador retorna
à cena pública sob novos refletores. No mês
passado, assumiu a presidência da maior fabricante de
calçados do país, a Azaléia, em Parobé
(RS). E não foi só de endereço que Britto
mudou. “A derrota é o que chamo de v.h. - vacina
de humildade. Quando o sujeito ganha muito, sem querer, começa
a chamar Deus de colega. Mas a derrota ensina muito mais que
a vitória”, reconhece o agora executivo. Se antes
era tratado por doutor, agora os funcionários da Azaléia
o chamam simplesmente de Britto. Ele também trocou
os sisudos trajes de político por roupas mais descontraídas.
Mais calmo, o ex-governador mudou para a cidade de Canela,
onde mora com a esposa e os trigêmeos de um ano e meio.
E espera voltar logo para a faculdade de Direito, interrompida
no semestre passado. “Cabelo branco não te impede
de errar, mas ajuda a errar menos”, acredita.
 |
| Os melhores
atributos de Antônio Britto o levaram a conquistar
importantes vitórias – e derrotas inesquecíveis |
O que tirou Antônio Britto dos trilhos da carreira
política certamente também leva muitos profissionais
e empresas ao fracasso. “Os descarriladores são
características positivas que quando exageradas acabam
se transformando em negativas”, explica Roberto Affonso
dos Santos, sócio-diretor da Consultoria Ateliê
- Desenvolvimento Humano e Organizacional. O conceito, proposto
pelo consultor norte-americano Robert Hogan, foi detalhado
recentemente no livro Por Que os Executivos Falham?
(Campus, 192 páginas), de David Dotlich e Peter Cairo.
“São traços da personalidade profundamente
enraizados que afetam o estilo de liderança e as ações
dos indivíduos”, define a obra. O mito de Ícaro
ilustra bem o efeito descarrilador de alguns comportamentos.
Ícaro voava com suas asas artificiais de cera até
que chegou tão perto do sol que as asas derreteram,
derrubando-o para a morte. As mesmas asas que levaram o herói
mitológico ao topo provocaram o seu fim. Assim também,
os melhores atributos podem abalar a carreira de um executivo
quando levados ao extremo. A autoconfiança que faz
um profissional ascender pode-se transformar em arrogância
e acarretar sua demissão. É o aspecto sombrio
da personalidade, tão primitivo quanto a humanidade
e tão presente quanto as tensões do mundo moderno.
Quem primeiro observou o poder das sombras foi Platão,
em sua célebre alegoria da caverna. Para o filósofo
grego, todos somos condenados a ver sombras e a acreditar
que elas são verdadeiras. O problema é que nós
mesmos criamos nossas sombras, ao ocultarmos comportamentos
indesejáveis desde que nascemos. “A sombra é
um fenômeno normal do desenvolvimento humano. A criança
tem vontade de bater no irmão, mas aprende que não
pode. Torna-se boazinha. Mas seu lado destrutivo fica escondido”,
esclarece o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, presidente
da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Para
Sigmund Freud, os desejos e comportamentos reprimidos são
banidos para o inconsciente. “No trabalho, tentamos
agradar a nossos chefes, colegas e clientes, geralmente escondendo
nos mais profundos recessos de nosso ser nossas porções
desagradáveis – nossa agressão, avidez,
competitividade”, percebe Bruce Shakleton, psicólogo
e consultor organizacional no artigo “O encontro com
a sombra no trabalho”.
 |
| Fonte: Por Que os Executivos
Falham? - David Dotlich e Peter Cairo – Editora
Campus |
|