| Leandro
Demori
O poder da fé não atrai somente
fiéis. A inspiração divina
faz sucesso também no mundo dos negócios.
No Brasil, os faturamentos bilionários
do comércio religioso são de fazer
inveja a gigantes multinacionais. Estimativas
apontam um total de R$ 8 bilhões por ano,
movimentados apenas com a venda de artigos para
católicos – 74% da população
do país segundo o IBGE. A força
do marketing celestial impressiona. Atentos, muitos
profissionais estão descobrindo que podem
aproveitar todo esse poder para promover, até
mesmo, produtos que nada tenham a ver com os rituais
sagrados.
No enorme mercado da grife “Jesus”,
a diversidade de produtos impera. Tradicionais
imagens de santos, terços e bíblias
dividem a prateleira com artigos do catolicismo
moderno: chaveiros, camisetas, chinelos, cadernos,
CDs, filmes, relógios e até cartões
de crédito são exemplos do que a
força do marketing cristão é
capaz de vender. Acredita-se que existam mais
de 4 mil pontos-de-venda desses artigos no país.
Há mais de 30 anos dedicado ao comércio
de imagens de santos, César Majewski, sócio-proprietário
da loja Estrela do Oriente, no centro de Porto
Alegre, lembra que o comércio já
teve altos e baixos. “Mas nada se compara
aos dias de hoje”, afirma. O católico
praticante diz que, graças à popularização
da Igreja (capitaneada por verdadeiras estrelas
pop como o Padre Marcelo Rossi), as lembranças
divinas caíram de vez nas graças
dos fiéis – sobretudo dos jovens,
antes, compradores pouco assíduos.
Desde que a juventude começou a se engajar
aos cultos, as vendas de artigos religiosos não
param de crescer – em média 30% ao
ano, segundo organizadores das duas maiores feiras
cristãs do país (leia quadro
“É dia de feira”). Conforme
André Ricardo Souza, que fez dissertação
de mestrado na USP com o tema “Padres cantores,
missas dançantes: a opção
da Igreja Católica pelo espetáculo
com mídia e marketing”, para conquistar
esse filão as pesadas estruturas religiosas
precisaram mudar, seguindo moldes de empresas
do segmento teen. “Os sermões
se tornaram mais curtos, superficiais e voltados
ao indivíduo; o coletivo ficou em segundo
plano”, garante. Para ele, as promessas
de um paraíso terreno, e não celestial,
é que andam fazendo sucesso.
Qualquer semelhança com as características
da “geração Internet”
(velocidade e busca do prazer imediato) não
é mera coincidência. “Os padres
pop conhecem técnicas de marketing,
estudam comunicação e contratam
especialistas para fazer tudo funcionar como o
planejado”, revela. Nas paróquias
modernas, explica Souza, todo o trabalho de comunicação
é entregue a profissionais.
Para Antônio Kater Filho, é um claro
sinal dos tempos. Teólogo com mestrado
em Marketing, Kater se considera o apóstolo
do “marketing católico” no
Brasil – aliás, expressão
criada por ele em 1993. Ele próprio admite
que usa os “4Ps“ de Kotler (Produto,
Praça, Preço e Promoção)
para alavancar as vendas da Igreja. Segundo ele,
a promoção da imagem da Igreja é
positiva e necessária, e pode servir de
exemplo às empresas que querem conquistar
o cliente.
| Deus
seja louvado |
|
No mundo todo, cerca de
mil bíblias
são vendidas por minuto
No Brasil, a vendagem recorde de mais de
32 milhões
de CDs com trechos bíblicos
deve render a Cid Moreira um registro no
Guiness Book
Estrelado pelo padre Marcelo Rossi, o filme
Maria, Mãe do Filho de Deus
foi um dos campeões de bilheteria
entre os filmes nacionais em 2003: 2,2
milhões de espectadores
O padre também vendeu mais de 6
milhões de discos
em sua breve carreira como cantor |
 |
|