| Em 1963, o então
garoto Luiz Carlos Hauly, filho de dono de restaurante,
sequer sonhava em um dia chegar à Câmara
Federal. Mas uma particularidade política
já o incomodava: o sistema de cobrança
de impostos. “Lembro daquele como sendo
um ano muito difícil, em que os fiscais
iam ao restaurante do meu pai e o constrangiam”,
recorda. Na época, Hauly pensava se aquela
era a forma correta de o Estado levantar receita.
Do Brasil daquela época ao do dias de hoje,
quase tudo mudou – exceto o sistema tributário
brasileiro. E a posição de Hauly.
Mais maduro, com 53 anos, quatro mandatos de deputado
federal (MDB e PSDB), um de vereador e outro de
prefeito em sua cidade natal, Cambé (PR),
Hauly não esmorece. Ao contrário
– um dos vice-presidentes da Comissão
da Reforma Tributária da Câmara,
economista e professor de Educação
Física por formação, não
faz aquecimento para afirmar a AMANHÃ:
“Não adianta quimioterapia, os maus
tributos são tumores que devem ser extraídos”.
A reforma tributária que tramita
no Congresso atende às necessidades do
Brasil?
Essa reforma é para curto prazo, baseada
em conceitos antigos e em taxas que favorecem
a sonegação e outras deficiências
econômicas. Não é uma reforma
para resolver em definitivo os problemas do país.
Nem mesmo a redução do
número de alíquotas do ICMS de 44
para cinco pode ser visto como um avanço?
Não resolve porque grande parte do problema
está justamente em impostos como o ICMS.
É preciso mudar todo o sistema de tributação
do Brasil, e não remendar o que funciona
mal. O aumento da carga tributária, por
exemplo, já está embutido dentro
da atual estrutura. No ano passado, houve uma
série de medidas para aumentar impostos.
Qualquer mudança da maneira como está
sendo proposta aumenta a carga tributária,
pois não se levam em conta as necessidades
do país. O que se está fazendo não
é propriamente uma reforma tributária,
e sim ajustes de caixa de curto prazo. Nada mais
que isso. Esses ajustes implicaram, no ano passado,
a reestruturação de tributos como
PIS, Pasep, Contribuição sobre Lucro
Líquido e ISS e um conseqüente aumento
dos impostos. Além do mais, dentro da atual
estrutura tributária brasileira, o pior
tributo que existe hoje é o ICMS.
Por quê?
É um tributo canalha que destrói
a economia de mercado. O ICMS é o campeão
da sonegação, dos incentivos, da
elisão fiscal e da corrupção.
Na minha opinião, ele nunca deu certo no
Brasil. E não vai ser esse novo formato
que vai acabar com os problemas. Pegue o exemplo
de 2002. Naquele ano, o ICMS arrecadou
R$ 104 bilhões. Só que a carga potencial
era de R$ 160 bilhões. Ou seja, quase R$
60 bilhões deixaram de ser arrecadados
porque o tributo tem muitas falhas. Por isso qualquer
mudança nesse imposto não soluciona
o problema em si.
Há alguma alternativa que não
passe pela pura e simples extinção
do imposto?
O IBGE calcula existirem mais de 400 mil itens
de consumo no Brasil, todos tributados pelo ICMS.
Um grande supermercado, o maior do país,
chega a ter 60 mil itens em suas prateleiras.
É mercadoria demais para se fiscalizar.
Eu proponho que se tributem apenas 12 itens: energia
elétrica, combustíveis, comunicação,
cigarros, bebidas, veículos, eletroeletrônicos,
eletrodomésticos, saneamento, pneus, autopeças
e armas de fogo. Esse modelo facilitaria a arrecadação
e a fiscalização. Como esses são
os setores que mais arrecadam, poderíamos
isentar os 400 mil itens restantes, entre eles
toda a cesta básica e os remédios.
Esse sistema não deixaria a carga
tributária muito pesada para os produtores
desses 12 itens?
Deixaria, mas temos de decidir o que queremos:
se tornar a economia brasileira a mais eficiente
do mundo ou continuar com a confusão. Com
esse modelo que estou propondo e um aumento de
22% sobre energia elétrica, combustíveis
e comunicação, teríamos a
mesma arrecadação que tivemos com
o ICMS, e com uma eficiência maior. Os outros
nove itens permaneceriam com as mesmas alíquotas
que têm hoje. No Rio Grande do Sul, o aumento
da carga desses três setores seria de 15%,
menor do que a média nacional. No Paraná,
das 170 mil empresas, apenas mil seriam tributadas.
As outras 169 mil não pagariam um centavo
de imposto. Além do mais, todo ano temos
aumento de impostos nesses setores, e nada melhora.
No atual projeto, propõe-se a
substituição do ICMS e de outros
tributos sobre produção e consumo
pelo Imposto sobre Valor Agregado em 2007. É
uma boa solução do ponto de vista
do contribuinte?
O Imposto sobre Valor Agregado é tipicamente
europeu, só funciona em países pequenos,
unitários, em que a cobrança é
feita pelo governo central e onde se pressupõe
honestidade. O IVA não é bom para
o Brasil, pois é um imposto declaratório,
não deu certo em nenhum país do
terceiro mundo, inclusive aqui. Se analisarmos
bem, veremos que IPI, PIS, Cofins e até
o próprio ICMS são impostos sobre
valor agregado. E não funcionam como deveriam.
Você sabe por que a nação
mais próspera e desenvolvida do mundo,
os Estados Unidos, nunca adotou o IVA? Porque
em países continentais, multirraciais e
multiculturais a cobrança fica difícil.
É uma questão geográfica
e cultural. Pelo tamanho do país, quando
você estabelece prerrogativas diferentes
para 27 Estados, há um conflito de origem
e destino. A fraude se torna uma prática
rotineira. As rodovias interestaduais são
campos de notas frias, calçadas, paralelas,
plastificadas. Todas as espécies nocivas
à economia estão embutidas no sistema.
O Imposto sobre Valor Agregado é altamente
sonegável e incontrolável.
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