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Uma capacidade ímpar de superar problemas – ou
“resiliência”, como preferem os especialistas
– foi o que salvou o explorador inglês Ernest
Schackleton e sua tripulação da morte no início
do século passado. Disposto a atravessar a Antártida
em trenós puxados por cães, Schackleton partira
com 27 homens a bordo de um navio conhecido como Endurance.
A menos de 200 quilômetros do destino, porém,
a embarcação foi prensada por um imenso bloco
de gelo e, dias depois, rachou ao meio. Sem nenhuma possibilidade
de pedir ajuda, a expedição padeceu sobre o
deserto gelado, durante dois anos, alimentando-se de focas
e até dos próprios cães. Sua única
chance de salvação consistia em arrastar três
pesados botes de madeira sobre a banquisa congelada à
procura de uma saída para o mar. Dificilmente, o grupo
conseguiria escapar com vida. Mesmo assim, Schackleton tratava
de manter a cabeça erguida. Nos momentos de descanso,
ele estimulava os companheiros a pensar no que fariam quando
voltassem para casa e, às vezes, promovia partidas
de futebol sobre o gelo. Essa maneira peculiar de Schackleton
resistir às privações da Antártida
é lembrada até hoje como a “força
milagrosa” que preservou a vida de seus homens até
o dia em que, finalmente, eles foram resgatados.
A resiliência, no entanto, não tem nada de
sobrenatural. Trata-se de uma característica comum
que alguns indivíduos eventualmente desenvolvem ante
uma situação difícil. Pesquisas recentes,
aliás, comprovam que a habilidade de resistir e contornar
crises pode ser treinada e estimulada. A descoberta tem valor
especial para o mundo corporativo, hoje imerso em problemas
como acúmulo de trabalho, metas impraticáveis
e os próprios reveses da economia, entre outros fatores
de estresse. Não é à toa que Carolyn
Larkin, uma das mais gabaritadas pesquisadoras da área
de recursos humanos, classifica a resiliência como o
terceiro atributo mais importante de um líder corporativo,
atrás de “visão” e “energia”.
“Mais do que qualquer outra habilidade da inteligência
emocional, é a resiliência que vai determinar
a felicidade e a longevidade de um relacionamento, de uma
carreira e de uma vida”, sentenciam Karen Reivich e
Andrew Shatté no livro The Resilience Factor –
7 Essential Skills for Overcoming Life’s Inevitable
Obstacles (“O Fator Resiliência – 7
Habilidades Essenciais para Contornar os Obstáculos
Inevitáveis da Vida”), ainda sem tradução
para o português.
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| Cena de O Pianista: resiliência
salvou a vida de milhares de judeus na II Guerra –
incluindo a de Wladislaw Szpilman, retratado no filme |
Um traço comum das pessoas resilientes é a
tolerância a mudanças. Elas entendem que os imprevistos
fazem parte da rotina e, por isso, não perdem o controle
diante da primeira dificuldade. A norte-americana Diane Coutu,
autora da pesquisa “Resiliência: para que serve?”,
publicada na Harvard Business Review, tem uma definição
ainda mais concisa. Para ela, a resiliência está
ligada à capacidade de assimilar as situações
com os pés no chão – sem otimismo exacerbado
ou discursos derrotistas. “Muitos utilizam a negação
como mecanismo de defesa. Enfrentar a realidade, ainda que
isso seja doloroso, é tarefa para poucos”, escreve
ela. Nas organizações, a falta de habilidade
para lidar com os imprevistos de forma realista pode se tornar
um problema de dimensões perigosas. Richard Pascale,
no artigo “Mudando a maneira como mudamos”, também
da Harvard Business Review, garante que assimilar
as mudanças é essencial para que os funcionários
não tropecem nelas. Segundo ele, uma das formas de
recuperar a vitalidade de uma organização é
“instaurar disciplinas mentais que induzam as pessoas
a modificar seu comportamento e as ajudem a cultivar novas
atitudes”.
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