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      Edição 194 - Dezembro de 2003
 

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Com perfil exportador e apoiados na agroindústria, os Estados do Sul devem crescer (um pouco) mais que o Brasil em 2004



A expectativa na última semana de novembro era grande. O governo prometera anunciar naqueles dias a sua aguardada política industrial, instrumento deixado em desuso por pelo menos dez anos no Palácio do Planalto. No dia 26 de novembro, o ministro Luiz Fernando Furlan divulgou um documento com as diretrizes gerais do plano – os detalhes só virão a público em março próximo. Lá está escrito: uma das metas é elevar a participação do comércio exterior no PIB do país de 20%, hoje, para 35% em 2007, tendo como carro-chefe o avanço nas exportações. Trata-se de uma excelente notícia para Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Os três Estados do Sul carregam no seu DNA a vocação exportadora. Os gaúchos são a segunda unidade federativa que mais vende para o exterior, perdendo apenas para São Paulo. O Paraná aparece em quarto, e Santa Catarina, em quinto. Ou seja, dos cinco Estados que mais exportam no Brasil, três são do Sul.

O costume de focar o mercado externo é um dos fatores que deve levar as economias da região a se expandirem em ritmo superior à nacional. As exportações brasileiras vêm inflando ano a ano e em 2004 não deve ser diferente. “A melhoria sincronizada nas economias mundiais abre espaço para as exportações brasileiras continuarem crescendo”, acredita Gilmar Mendes Lourenço, coordenador de análise conjuntural do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes). Lourenço avisa, porém, que o Paraná deve crescer apenas um pouco mais do que o Brasil. O Ipardes prevê expansão de 4% no Estado, ante 3,5% no país. A regra também vale para gaúchos e catarinenses. A Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) prevê um incremento de 3,7% no PIB estadual, levemente superior aos 3,4% antevistos para a economia brasileira. Nos últimos anos, as economias dos três Estados do Sul se diversificaram, o que naturalmente as leva a acompanhar mais de perto o desempenho de todo o país. Se Rio Grande do Sul e Paraná dependessem do agronegócio como em outros tempos, certamente o avanço no PIB seria bem superior ao brasileiro em tempos de sucessivos recordes no campo.

Fábrica da GM, em Gravataí (RS): Sul mais acelerado que o Brasil

É claro que o setor agrícola continua importante – e será responsável pela expansão econômica do Sul. Se São Pedro ajudar, o Brasil vai colher mais uma safra recorde no próximo ano: 125 milhões de toneladas. No Sul, espera-se uma produção de 8 milhões de toneladas de soja – foram 7,5 milhões em 2003. Além disso, neste ano, os produtores esperaram mais tempo para vender a soja, e os estoques estão bem maiores que o normal. Calcula-se que, em todo o Brasil, há quase 4 milhões de toneladas de soja da safra 2003 descansando nos armazéns, volume que vai engrossar as estatísticas de exportação de 2004. Para completar, a tendência é de que o preço das commodities se mantenha alto em 2004. A Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar) prevê um crescimento de pelo menos 20% no faturamento das cooperativas no próximo ano. “É uma previsão conservadora. O aumento pode ser bem maior”, empolga-se Nelson Costa, superintendente da Ocepar.

A má notícia para o agronegócio foi o anúncio do governo russo de que vai restringir ainda mais a entrada da carne de frango e de suíno do Brasil. Em ambos os casos, as vendas devem cair pelo menos 50%. A Rússia é um dos maiores mercados para esses produtos – no caso da carne de porco, é o principal. A medida atinge em cheio os três Estados do Sul, que são grandes exportadores de carne.

Afinidade – Em todas as previsões de expansão do PIB brasileiro, a indicação é de um desempenho melhor da indústria em relação ao setor de serviços. Trata-se de mais um fator a impulsionar a economia do Sul em ritmo mais acelerado do que o da economia brasileira. Os três Estados – principalmente Rio Grande do Sul e Santa Catarina – têm perfil industrial. E, como as fábricas andaram devagar em 2003, o espaço para recuperação é maior. Além disso, as indústrias do Sul são exportadoras por natureza (vide companhias como Marcopolo, Weg, Embraco, Tramontina, Volkswagen). “Uma das nossas ênfases é justamente estimular as exportações”, revela Rodrigo Loures, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).

 

Cofres vazios

Um pequeno exercício matemático envolvendo o orçamento de Santa Catarina mostra a parca margem de investimento público dos Estados brasileiros. O gasto total catarinense para o próximo ano está estimado em R$ 5 bilhões. Tirando todas as despesas, sobra apenas 1% para os investimentos. Ou seja, parcos R$ 50 milhões. Nos outros Estados do Sul, a situação não é diferente. O governo gaúcho começou janeiro com a previsão de separar mais de R$ 1 bilhão para investimentos. A crise apertou e, no fim das contas, o dispêndio cairá pela metade: R$ 550 milhões.

No Paraná, os investimentos previstos para 2003 foram de R$ 747 milhões – praticamente o mesmo montante desembolsado para pagar encargos da dívida do Estado. Pior: no final do ano, o governo paranaense cortou programas sociais para tapar um rombo de R$ 1,4 bilhão. “A capacidade de investimento dos governos está caindo e não vai melhorar tão cedo”, prevê o analista Nelson Carneiro, da Global Invest, especialista em contas públicas. a saída parece ser mesmo as PPPs (Parcerias Público-Privadas). Ciente disso, o governo gaúcho já enviou para a Assembléia sua própria proposta de PPP – iniciativa que os vizinhos do Sul ainda não tomaram.

 


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