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      Edição 194 - Dezembro de 2003
 

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Presidente da maior fabricante de armas leves da América Latina, Carlos Murgel duvida que o Estatuto do Desarmamento vá diminuir a criminalidade. “É uma demagogia para ganhar tempo na TV e nos jornais”

Leandro Demori


Carlos Murgel viajava com a esposa e três crianças para Angra dos Reis quando foi abordado por outro veículo e forçado a parar. Parecia ser um assalto. Imediatamente, o empresário sacou um revólver e deixou-o à mostra. Ao se depararem com a arma, no entanto, os bandidos recuaram e foram embora. “Graças a Deus, não precisei atirar”, recorda ele. Diretor-presidente e um dos principais acionistas da Forjas Taurus – maior fabricante de armas leves da América Latina –, Murgel prefere o poder da dissuasão ao das balas. Tem sido assim na sua luta contra o Estatuto do Desarmamento, nova legislação que o governo pretende baixar para restringir a venda de armas no Brasil. Preocupado com o impacto que o projeto terá sobre seus negócios, o empresário se defende com bala na agulha: se o estatuto complicar muito, a Taurus poderá transferir toda a sua operação para os Estados Unidos, levando quase 2 mil empregos embora do Brasil. “Mesmo sendo um processo custoso, não descartamos essa possibilidade”, revela ele, nesta entrevista a AMANHÃ. Cuidar dos interesses da Taurus é apenas parte da rotina deste carioca de criação (e “gaúcho por adoção”, diz). Nas horas vagas, ele é um apaixonado por esportes. Acompanha e patrocina algumas das principais competições automobilísticas do mundo e, garante, nunca perde os jogos do Grêmio, o time do coração.

A população deve se armar?
Eu sou a favor da idéia de que os indivíduos que se sentem melhor tendo uma arma possam tê-la. Claro, dentro das exigências da lei, com identificação, residência fixa e toda aquela ladainha.

Qual vai ser o impacto da nova lei do desarmamento nos negócios da Taurus?
Será grande, mas com um detalhe: esse estatuto vai afetar nossa posição somente nos Estados Unidos, onde somos o segundo maior vendedor de revólveres e pistolas, e não no Brasil. A venda no mercado civil brasileiro certamente cairá, mas ela é pequena, não passa de 15% de nossa produção. Em contrapartida, nos EUA temos um grande mercado: embarcamos para lá 70% dos nossos armamentos. Isso não quer dizer que a nossa operação no Brasil é irrelevante. O Brasil é importante para nossa estratégia por causa da escala, dos custos variáveis. Ou seja, no final do processo, dependendo de quantos revólveres se produz, maior ou menor pode ser o preço de cada unidade. Se a venda cai, vamos produzir menos. Isso afetará os preços, um de nossos principais trunfos na América do Norte.

Mas os defensores do estatuto afirmam que ele vai diminuir a criminalidade...
Honestamente, eu acho isso uma falácia.

Por quê?
Porque estão tentando tirar as armas do cidadão de bem. E o cidadão de bem não comete crimes. O governo deveria se preocupar em desarmar os criminosos, esses sim. Deveria apreender as armas ilegais, negociadas no mercado negro. E veja bem: o estatuto pode prejudicar, mas não vai acabar com a Taurus. Nós temos uma fábrica em Miami. Mesmo sendo um processo custoso, não descartamos a possibilidade de transferir nossa produção para os Estados Unidos. O que não vai acabar com o crime no Brasil, mas com o emprego que nós geramos aqui. Hoje, a unidade de lá supre apenas 3% da venda norte-americana. Em Porto Alegre, fabricamos o restante, 97%, e temos 1.500 funcionários diretos.

A China, hoje, é campeã em atração de investimentos no mundo. A Taurus pensa em instalar alguma fábrica por lá?
Não. O mercado consumidor dos Estados Unidos é o que interessa. Para instalar uma fábrica em outro país, você precisa ter mercado interno, o arroz com feijão. Exportar é um prêmio, algo com o que você não pode contar no dia-a-dia. Quem se baseia só em exportação desaparece logo.

Das armas produzidas pela Taurus e vendidas no Brasil, quantas vão parar nas mãos da população civil?
É quase impossível dizer. Quando afirmo que a quantidade é pequena é porque, para comprar uma arma, necessariamente o cidadão precisa ir a um ponto-de-venda especializado. Acontece que essa loja é a mesma que vende para empresas de segurança privada e, em alguns casos, até para a polícia. Então, eu não tenho o número exato daquilo que é vendido ao “José”. Por alto, eu diria que não deve passar dos 15%. O resto vai, principalmente, para as empresas de segurança.

Você acredita que o estatuto pode se tornar ainda mais rigoroso antes de entrar em vigor?
Eu espero que não. O problema é que existem duas correntes: uma diz que o Senado não pode mais alterar o texto da Câmara, já a outra acha que o Senado pode tudo. Eu gostaria de acreditar que a primeira hipótese vai prevalecer. Já tivemos algum êxito. Conseguimos alterar o texto. O Senado não queria só controlar a venda de armas, queria proibir. Nem mesmo as empresas de segurança poderiam comprar. Isso foi alterado, é uma vitória.

Quem sai ganhando com a lei?
Sobretudo as empresas de segurança privada. A partir de então, quem quiser ter segurança armada vai ter de contratar um guarda. De quem? De uma dessas empresas. E esses seguranças armados custam três ou quatro vezes mais do que aqueles que não portam arma.

Poderia se dizer que o lobby das armas foi bem-sucedido?
Você conhece o lobby das armas? Ele está aqui (aponta para o vice-presidente comercial e de marketing da Taurus, Renato Connil).

Só ele?
Só. Esse é o lobby das armas.

Mas na Câmara funcionou...
É claro que funcionou.

 

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