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Carlos Murgel viajava com a esposa e três
crianças para Angra dos Reis quando foi
abordado por outro veículo e forçado
a parar. Parecia ser um assalto. Imediatamente,
o empresário sacou um revólver e
deixou-o à mostra. Ao se depararem com
a arma, no entanto, os bandidos recuaram e foram
embora. Graças a Deus, não
precisei atirar, recorda ele. Diretor-presidente
e um dos principais acionistas da Forjas Taurus
maior fabricante de armas leves da América
Latina , Murgel prefere o poder da dissuasão
ao das balas. Tem sido assim na sua luta contra
o Estatuto do Desarmamento, nova legislação
que o governo pretende baixar para restringir
a venda de armas no Brasil. Preocupado com o impacto
que o projeto terá sobre seus negócios,
o empresário se defende com bala na agulha:
se o estatuto complicar muito, a Taurus poderá
transferir toda a sua operação para
os Estados Unidos, levando quase 2 mil empregos
embora do Brasil. Mesmo sendo um processo
custoso, não descartamos essa possibilidade,
revela ele, nesta entrevista a AMANHÃ.
Cuidar dos interesses da Taurus é apenas
parte da rotina deste carioca de criação
(e gaúcho por adoção,
diz). Nas horas vagas, ele é um apaixonado
por esportes. Acompanha e patrocina algumas das
principais competições automobilísticas
do mundo e, garante, nunca perde os jogos do Grêmio,
o time do coração.
A população deve se armar?
Eu sou a favor da idéia de que os indivíduos
que se sentem melhor tendo uma arma possam tê-la.
Claro, dentro das exigências da lei, com
identificação, residência
fixa e toda aquela ladainha.
Qual vai ser o impacto da nova lei do desarmamento
nos negócios da Taurus?
Será grande, mas com um detalhe: esse estatuto
vai afetar nossa posição somente
nos Estados Unidos, onde somos o segundo maior
vendedor de revólveres e pistolas, e não
no Brasil. A venda no mercado civil brasileiro
certamente cairá, mas ela é pequena,
não passa de 15% de nossa produção.
Em contrapartida, nos EUA temos um grande mercado:
embarcamos para lá 70% dos nossos armamentos.
Isso não quer dizer que a nossa operação
no Brasil é irrelevante. O Brasil é
importante para nossa estratégia por causa
da escala, dos custos variáveis. Ou seja,
no final do processo, dependendo de quantos revólveres
se produz, maior ou menor pode ser o preço
de cada unidade. Se a venda cai, vamos produzir
menos. Isso afetará os preços, um
de nossos principais trunfos na América
do Norte.
Mas os defensores do estatuto afirmam que
ele vai diminuir a criminalidade...
Honestamente, eu acho isso uma falácia.
Por quê?
Porque estão tentando tirar as armas do
cidadão de bem. E o cidadão de bem
não comete crimes. O governo deveria se
preocupar em desarmar os criminosos, esses sim.
Deveria apreender as armas ilegais, negociadas
no mercado negro. E veja bem: o estatuto pode
prejudicar, mas não vai acabar com a Taurus.
Nós temos uma fábrica em Miami.
Mesmo sendo um processo custoso, não descartamos
a possibilidade de transferir nossa produção
para os Estados Unidos. O que não vai acabar
com o crime no Brasil, mas com o emprego que nós
geramos aqui. Hoje, a unidade de lá supre
apenas 3% da venda norte-americana. Em Porto Alegre,
fabricamos o restante, 97%, e temos 1.500 funcionários
diretos.
A China, hoje, é campeã em atração
de investimentos no mundo. A Taurus pensa em instalar
alguma fábrica por lá?
Não. O mercado consumidor dos Estados Unidos
é o que interessa. Para instalar uma fábrica
em outro país, você precisa ter mercado
interno, o arroz com feijão. Exportar é
um prêmio, algo com o que você não
pode contar no dia-a-dia. Quem se baseia só
em exportação desaparece logo.
Das armas produzidas pela Taurus e vendidas
no Brasil, quantas vão parar nas mãos
da população civil?
É quase impossível dizer. Quando
afirmo que a quantidade é pequena é
porque, para comprar uma arma, necessariamente
o cidadão precisa ir a um ponto-de-venda
especializado. Acontece que essa loja é
a mesma que vende para empresas de segurança
privada e, em alguns casos, até para a
polícia. Então, eu não tenho
o número exato daquilo que é vendido
ao José. Por alto, eu diria
que não deve passar dos 15%. O resto vai,
principalmente, para as empresas de segurança.
Você acredita que o estatuto pode se
tornar ainda mais rigoroso antes de entrar em
vigor?
Eu espero que não. O problema é
que existem duas correntes: uma diz que o Senado
não pode mais alterar o texto da Câmara,
já a outra acha que o Senado pode tudo.
Eu gostaria de acreditar que a primeira hipótese
vai prevalecer. Já tivemos algum êxito.
Conseguimos alterar o texto. O Senado não
queria só controlar a venda de armas, queria
proibir. Nem mesmo as empresas de segurança
poderiam comprar. Isso foi alterado, é
uma vitória.
Quem sai ganhando com a lei?
Sobretudo as empresas de segurança privada.
A partir de então, quem quiser ter segurança
armada vai ter de contratar um guarda. De quem?
De uma dessas empresas. E esses seguranças
armados custam três ou quatro vezes mais
do que aqueles que não portam arma.
Poderia se dizer que o lobby das armas foi
bem-sucedido?
Você conhece o lobby das armas? Ele está
aqui (aponta para o vice-presidente comercial
e de marketing da Taurus, Renato Connil).
Só ele?
Só. Esse é o lobby das armas.
Mas na Câmara funcionou...
É claro que funcionou.
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