Um tempo para as idéias Treinar a criatividade
e sistematizá-la, porém, está longe de
ser uma brincadeira. Muitas vezes, as empresas que perseguem
essa vantagem têm de lidar com tarefas espinhosas. Uma
delas é aliviar a carga de estresse dos funcionários,
como afirma a psicóloga norte-americana Teresa Amabile,
uma das referências globais no campo da criatividade
corporativa. Durante seis meses, Teresa acompanhou a rotina
diária de 177 executivos dos Estados Unidos. A partir
de suas observações, ela detectou os momentos
em que os empregados agiam com maior ou menor criatividade.
Para as empresas que trabalham com prazos apertados, o resultado
foi um tanto assustador. Em média, a capacidade de
encontrar soluções criativas cai pela metade
quando as pessoas se ocupam com pendências para
ontem. Muitos executivos trabalham mais e obtêm
ótimos resultados quando estão sob pressão.
Isso os leva a pensar que são mais criativos nessas
situações, o que não é verdade,
reconhece a pesquisadora no artigo Creativity under the Gun
(Criatividade sob a Arma, ainda sem tradução
para o português), publicado pela Harvard Business Review
no final do ano passado. O fato é que a tensão
resulta em decisões mais tradicionais e conservadoras,
até por uma questão de segurança,
pondera ela.
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| Exposição de idéias
no Grupo Algar: reconhecimento virou ferramenta de inovação |
A conclusão de Teresa leva por água abaixo
a tese de que o estresse estimula a criatividade. Até
então, acreditava-se que a correria servia de catalisador
para as idéias. Hoje, nós sabemos que
as pessoas precisam ter um momento de reflexão para
desenvolver seu lado inovador. Os grandes insights dificilmente
surgem quando se está no batente, diz Márcio
Pinheiro, presidente da Quattuor, empresa gaúcha especializada
no desenvolvimento de soluções em infra-estrutura
de tecnologia da informação. Preocupado em assegurar
momentos de inspiração para os funcionários,
Pinheiro montou uma praça de relaxamento na empresa.
Localizado na cobertura do prédio em que a Quattuor
funciona, o espaço oferece uma sala de jogos com mesas
de pingue-pongue e sinuca, além de aparelhos de ginástica.
Ao lado, há um jardim do qual se pode avistar um ângulo
privilegiado da paisagem de Porto Alegre. As pessoas
têm total liberdade para usar esse espaço e buscar
inspiração ou para apenas descansar. Isso faz
parte do processo de inovação, afirma
Pinheiro. A companhia também extinguiu o cartão-ponto
e concedeu total autonomia para os empregados desenvolverem
novos projetos. Se a iniciativa vai trazer algum retorno
para nós, ela está automaticamente aprovada,
assegura o executivo.
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Navega: chefes são ameaça
à criatividade
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Além de tranqüilidade, outra condição
vital para que as pessoas transformarem o cérebro em
uma usina de idéias é a diversidade. Todas as
técnicas de aprimoramento criativo envolvem uma fase
de divergência, na qual se reúnem as mais distintas
opiniões, gostos, problemas e pontos de vista para
um mesmo problema. As equipes e grupos de trabalho têm
importância fundamental nesse sentido. Mesmo quando
a tarefa exige concentração e empenho individual,
o esforço coletivo costuma gerar resultados mais completos
e empolgantes.
Um exemplo desse princípio é o Centro de Tecnologias
de Automação Industrial de Santa Catarina (CTAI/Senai).
A instituição é conhecida no país
inteiro pela excelência no desenvolvimento de novas
máquinas de produção industrial. É
comum imaginar que tarefas desse tipo são desempenhadas
por um punhado de gênios isolados em laboratórios.
A realidade, porém, é oposta. A maioria
dos pesquisadores chega aqui com um pensamento individualista.
Com o tempo, porém, eles percebem que, na área
de pesquisas, como em qualquer outra, os grupos são
mais criativos do que os indivíduos, resume Carlos
Fernando Martins, coordenador de inovações tecnológicas
do CTAI/Senai.
Viva ao erro Dado o treinamento e asseguradas
as condições para que os funcionários
possam soltar a imaginação, aí sim as
companhias podem articular um sistema de premiação
para a criatividade. O reconhecimento completa o ciclo de
maturação das idéias no ambiente empresarial.
Geralmente, as empresas só premiam o cumprimento
de tarefas. É uma visão estreita. Quem gera
boas idéias precisa ser recompensado por isso,
defende o empresário Bob Wolheim, fundador do Ideiasnet
grupo especializado em investimentos na área
de tecnologia. A meritocracia da inovação, porém,
tem uma característica peculiar: não se pode
punir os erros. Se os fracassos da ousadia são
reprimidos, as pessoas param de ousar, opina Wolheim.
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Gandour, da IBM: receita de brigadeiro
para inovar
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No Brasil, um dos prodígios na arte de recompensar
a criatividade é o Grupo Algar, de Minas Gerais. Formado
por 11 subsidiárias das mais variadas áreas,
como telefonia e transporte aéreo, o conglomerado realiza
verdadeiros concursos internos de inovação.
Todos os anos, cada companhia do grupo elege as três
idéias mais originais que os funcionários apresentaram
para a solução de problemas e o desenvolvimento
de novos negócios. As propostas selecionadas são
encaminhadas para uma pomposa exposição, quando
acontece a grande final. Os participantes levam a família
e, às vezes, montam até torcidas organizadas,
detalha Luiz Alexandre Garcia, vice-presidente do conselho
administrativo da corporação. Mas ninguém
precisa ficar até tarde no serviço para desenvolver
os projetos. Os empregados têm autonomia para interromper
suas rotinas e desenvolver novas idéias. Somente neste
ano, 359 funcionários inscreveram 76 projetos diferentes
na competição. Ao todo, o evento e os recursos
utilizados nos protótipos custaram R$ 2,8 milhões.
Em compensação, as melhorias implementadas a
partir do concurso geraram economias de R$ 28 milhões
para o grupo mineiro. Para o ano que vem, já
temos 100 novas idéias cadastradas, alegra-se
Garcia. A criatividade é um ótimo negócio,
sentencia.
Com reportagem de Leandro Demori
Colaborou: Maurício Boff
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