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      Edição 194 - Dezembro de 2003
 

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Um tempo para as idéias – Treinar a criatividade e sistematizá-la, porém, está longe de ser uma brincadeira. Muitas vezes, as empresas que perseguem essa vantagem têm de lidar com tarefas espinhosas. Uma delas é aliviar a carga de estresse dos funcionários, como afirma a psicóloga norte-americana Teresa Amabile, uma das referências globais no campo da criatividade corporativa. Durante seis meses, Teresa acompanhou a rotina diária de 177 executivos dos Estados Unidos. A partir de suas observações, ela detectou os momentos em que os empregados agiam com maior ou menor criatividade. Para as empresas que trabalham com prazos apertados, o resultado foi um tanto assustador. Em média, a capacidade de encontrar soluções criativas cai pela metade quando as pessoas se ocupam com pendências “para ontem”. “Muitos executivos trabalham mais e obtêm ótimos resultados quando estão sob pressão. Isso os leva a pensar que são mais criativos nessas situações, o que não é verdade”, reconhece a pesquisadora no artigo Creativity under the Gun (“Criatividade sob a Arma”, ainda sem tradução para o português), publicado pela Harvard Business Review no final do ano passado. “O fato é que a tensão resulta em decisões mais tradicionais e conservadoras, até por uma questão de segurança”, pondera ela.

Exposição de idéias no Grupo Algar: reconhecimento virou ferramenta de inovação

A conclusão de Teresa leva por água abaixo a tese de que o estresse estimula a criatividade. Até então, acreditava-se que a correria servia de catalisador para as idéias. “Hoje, nós sabemos que as pessoas precisam ter um momento de reflexão para desenvolver seu lado inovador. Os grandes insights dificilmente surgem quando se está no batente”, diz Márcio Pinheiro, presidente da Quattuor, empresa gaúcha especializada no desenvolvimento de soluções em infra-estrutura de tecnologia da informação. Preocupado em assegurar momentos de inspiração para os funcionários, Pinheiro montou uma praça de relaxamento na empresa. Localizado na cobertura do prédio em que a Quattuor funciona, o espaço oferece uma sala de jogos com mesas de pingue-pongue e sinuca, além de aparelhos de ginástica. Ao lado, há um jardim do qual se pode avistar um ângulo privilegiado da paisagem de Porto Alegre. “As pessoas têm total liberdade para usar esse espaço e buscar inspiração ou para apenas descansar. Isso faz parte do processo de inovação”, afirma Pinheiro. A companhia também extinguiu o cartão-ponto e concedeu total autonomia para os empregados desenvolverem novos projetos. “Se a iniciativa vai trazer algum retorno para nós, ela está automaticamente aprovada”, assegura o executivo.

Navega: chefes são ameaça à criatividade

Além de tranqüilidade, outra condição vital para que as pessoas transformarem o cérebro em uma usina de idéias é a diversidade. Todas as técnicas de aprimoramento criativo envolvem uma fase de divergência, na qual se reúnem as mais distintas opiniões, gostos, problemas e pontos de vista para um mesmo problema. As equipes e grupos de trabalho têm importância fundamental nesse sentido. Mesmo quando a tarefa exige concentração e empenho individual, o esforço coletivo costuma gerar resultados mais completos e empolgantes.

Um exemplo desse princípio é o Centro de Tecnologias de Automação Industrial de Santa Catarina (CTAI/Senai). A instituição é conhecida no país inteiro pela excelência no desenvolvimento de novas máquinas de produção industrial. É comum imaginar que tarefas desse tipo são desempenhadas por um punhado de gênios isolados em laboratórios. A realidade, porém, é oposta. “A maioria dos pesquisadores chega aqui com um pensamento individualista. Com o tempo, porém, eles percebem que, na área de pesquisas, como em qualquer outra, os grupos são mais criativos do que os indivíduos”, resume Carlos Fernando Martins, coordenador de inovações tecnológicas do CTAI/Senai.

Viva ao erro – Dado o treinamento e asseguradas as condições para que os funcionários possam soltar a imaginação, aí sim as companhias podem articular um sistema de premiação para a criatividade. O reconhecimento completa o ciclo de maturação das idéias no ambiente empresarial. “Geralmente, as empresas só premiam o cumprimento de tarefas. É uma visão estreita. Quem gera boas idéias precisa ser recompensado por isso”, defende o empresário Bob Wolheim, fundador do Ideiasnet – grupo especializado em investimentos na área de tecnologia. A meritocracia da inovação, porém, tem uma característica peculiar: não se pode punir os erros. “Se os fracassos da ousadia são reprimidos, as pessoas param de ousar”, opina Wolheim.

Gandour, da IBM: receita de brigadeiro para inovar

No Brasil, um dos prodígios na arte de recompensar a criatividade é o Grupo Algar, de Minas Gerais. Formado por 11 subsidiárias das mais variadas áreas, como telefonia e transporte aéreo, o conglomerado realiza verdadeiros concursos internos de inovação. Todos os anos, cada companhia do grupo elege as três idéias mais originais que os funcionários apresentaram para a solução de problemas e o desenvolvimento de novos negócios. As propostas selecionadas são encaminhadas para uma pomposa exposição, quando acontece a grande final. “Os participantes levam a família e, às vezes, montam até torcidas organizadas”, detalha Luiz Alexandre Garcia, vice-presidente do conselho administrativo da corporação. Mas ninguém precisa ficar até tarde no serviço para desenvolver os projetos. Os empregados têm autonomia para interromper suas rotinas e desenvolver novas idéias. Somente neste ano, 359 funcionários inscreveram 76 projetos diferentes na competição. Ao todo, o evento e os recursos utilizados nos protótipos custaram R$ 2,8 milhões. Em compensação, as melhorias implementadas a partir do concurso geraram economias de R$ 28 milhões para o grupo mineiro. “Para o ano que vem, já temos 100 novas idéias cadastradas”, alegra-se Garcia. “A criatividade é um ótimo negócio”, sentencia.


Com reportagem de Leandro Demori
Colaborou: Maurício Boff

 

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