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      Edição 194 - Dezembro de 2003
 

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É possível ensinar funcionários a pensar de forma
criativa. Mas será que as empresas estão preparadas
para lidar com uma enxurrada de idéias?

Andreas Müller


A rotina de Luis Fernando Verissimo não é muito diferente daquela que os executivos enfrentam no batente corporativo. Tal como um gerente, o escritor gaúcho também se desdobra para honrar prazos de produção – no caso, de seus livros, roteiros e crônicas diárias. E zela por um padrão de qualidade que, nos últimos 20 anos, assegura-lhe o título de escritor que mais vende no Brasil. Verissimo esbanja, ainda, uma competência cada vez mais valorizada no ambiente empresarial: a criatividade. Diariamente, o autor lida com a tarefa de reinventar suas próprias histórias, argumentos e personagens. Ele próprio garante, porém, não utilizar método nenhum para isso. “O negócio é começar o texto e ver o que acontece. Passando as primeiras linhas, o resto vem. Apenas me preocupo em variar de assunto e, em bom português, variar de approach”, revela a AMANHÃ, com a ironia habitual.

Historicamente, as empresas que buscam a criatividade tratam seus funcionários como clones de Luis Fernando Verissimo – esperando que eles tenham idéias geniais apenas por força do hábito ou por um talento inato. Muitas dessas companhias oferecem prêmios em dinheiro para os empregados que inventam algo inusitado ou lucrativo. Os casos de sucesso, no entanto, costumam ser tão raros quanto os bons escritores. E não é por acaso. Estudos recentes mostram que as premiações são insuficientes para manter as organizações na era da inovação. Realizadas nos Estados Unidos por instituições como a Harvard Business School, essas pesquisas deixam um recado claro: foi-se o tempo em que os gestores podiam esperar pelos lampejos criativos dos funcionários. Hoje, é necessário treinar as pessoas para que elas desenvolvam novas idéias todo santo dia. O próprio modelo de gestão das empresas tem de mudar, reservando espaços para que a criatividade se torne um processo rotineiro e sistemático.

Hora da reunião: presidente da Quattuor, Pinheiro montou um espaço de lazer na empresa para estimular os insights dos funcionários

Antigamente, acreditava-se que a criatividade era um dom: ou você tinha, ou não tinha. Hoje, no entanto, sabemos que todo o mundo tem um potencial que pode ser desenvolvido por meio de treinamento e de estímulos adequados”, conta Victor Mirshawka Junior, autor do livro Gestão Criativa (DVS Editora, 358 páginas). Para se ter uma idéia, algumas universidades norte-americanas e européias oferecem até aulas de criatividade aplicada para seus alunos. No Brasil, a disciplina é obrigatória em todos os cursos da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), de São Paulo – Mirshawka, aliás, é um dos professores. Basicamente, os estudantes aprendem a utilizar estratégias e modelos de pensamento alternativos que, juntos, podem levar à inovação. “As aulas de criatividade não têm nada a ver com talento. É impossível ensinar alguém a ser um grande músico”, avisa Mirshawka. “Mas podemos treinar as pessoas para que elas pensem diferente. Pedagogicamente, é quase como ensiná-las a tocar violão”, compara.

As técnicas de treinamento partem de uma premissa bastante aceita pelos pesquisadores da mente humana: a de que todas as pessoas nascem criativas, mas perdem essa habilidade com o passar dos anos. “Uma criança sempre está disposta a experimentar tudo, inclusive aquilo que os pais proíbem”, exemplifica Sérgio Navega, diretor e fundador da Intelliwise Research and Training, companhia especializada em pesquisas e seminários sobre Inteligência Artificial. Com o amadurecimento, explica ele, os filhos percebem que as limitações impostas pelos pais servem de proteção contra acidentes, machucados e outros problemas. A descoberta, porém, costuma ser perversa para a criatividade. Ainda que de forma inconsciente, os jovens passam a sentir medo de desafiar o senso comum. Ainda mais quando isso significa quebrar velhas regras de conduta. “Nas empresas, é normal os chefes se esforçarem para manter estruturas e métodos de sucesso comprovado. Ocorre que, assim, fica difícil inovar”, diz Navega.

 

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