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Letícia
Pires

Dizia Peter Drucker, o papa da
administração, que o conhecimento se tornaria
o fator de produção mais importante nas empresas
do futuro - mais que o capital e a mão-de-obra.
A julgar pela multiplicação das universidades
corporativas (UCs) pelo mundo todo, pode-se afirmar
que Drucker acertou em cheio novamente. Cada vez
mais companhias criam suas próprias escolas de
formação e treinamento. Somente no Brasil, estima-se
que existam pelo menos 100 universidades desse
tipo, quase o triplo do que havia em 2000. Nos
Estados Unidos, os especialistas prevêem que elas
deverão ser mais numerosas que as universidades
tradicionais até 2010, atingindo 4 mil escolas.
É um mercado tão promissor que algumas organizações
estão transformando suas universidades em unidades
independentes de negócio, com receitas próprias.
A mudança ainda está em marcha lenta no Brasil.
Mas há exemplos de UCs que, mesmo sem cortar os
laços com suas empresas-mães, estão prestes a
se tornarem escolas profissionais auto-suficientes.
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| Aula da
Uniall, da América Latina Logística: portas
abertas tanto para maquinistas como para gere
ntes do alto escalão |
"Não nos vemos mais como uma simples
área de treinamento da empresa. Essa visão
é um erro comum", resume Helena Pessin,
uma das superintendentes da universidade do Real-ABN
Amro Bank. Atualmente, a instituição
atende tanto os próprios funcionários
como os de parceiros estratégicos do banco
holandês. E serve de base para exercitar
a responsabilidade social da instituição.
"Temos um programa de alfabetização
para os empregados dos nossos fornecedores",
descreve Helena. Outro exemplo é a Boston
School, criada em 1999 pelo BankBoston. A escola
nunca se limitou a ser um espaço de treinamento
interno. Ao contrário, sempre ofereceu
cursos também para o pessoal de outras
companhias da cadeia de serviços do banco.
Com isso, o BankBoston consegue se aproximar de
potenciais clientes - que aprendem sobre seus
produtos e, logo, ficam mais inclinados a fechar
novos negócios. Também os filhos
dos funcionários podem freqüentar
as aulas da Boston School. Na prática,
isso ajuda a manter a imagem do banco em alta
perante todo esse público. Os preços
desses cursos, em alguns casos, chegam à
metade dos valores praticados no mercado. "Ainda
não atingimos o objetivo da auto-suficiência.
Mas nossa receita com o público externo
tem crescido", acentua Marita Elsa Bernhoeft,
superintendente executiva da Boston School.
Nem todas as universidades corporativas nascem
destinadas a se tornarem escolas autônomas.
Sua principal função é viabilizar
a gestão do conhecimento das empresas para
torná-las mais aptas a competir. Ou seja,
os cursos oferecidos nas UCs têm de estar
alinhados com os objetivos estratégicos
da corporação. "Há alguns
anos, era normal um aluno sair de um curso de
graduação sem experiência
nenhuma e passar cinco ou seis anos aprendendo
dentro da companhia. Hoje, as organizações
não têm mais tempo para esperar isso
acontecer", argumenta Marisa Éboli,
coordenadora de Projetos de Universidades Corporativas
do Programa de Estudos em Gestão de Pessoas
da Universidade de São Paulo (Progep-FIA/USP),
uma das maiores especialistas brasileiras no assunto.
A América Latina Logística (ALL),
por exemplo, inaugurou a Uniall em agosto de 2000
porque precisava de maquinistas e não havia
cursos de formação para esse tipo
de trabalhador. "Em um segundo momento, percebemos
que a universidade não poderia se limitar
a uma demanda imediata, e passamos a investir
também na educação de nosso
corpo gerencial e administrativo", ressalta
Márcia Baena, coordenadora de desenvolvimento
e gestão da entidade.
Treinamento digital - Ocorre que nem sempre
as habilidades essenciais para o funcionamento
das companhias estão todas reunidas no
seu corpo de funcionários. Muitas vezes,
o sucesso de uma organização depende
também de fornecedores, parceiros, distribuidores
e de outros públicos externos. É
aí que as universidades corporativas começam
a ampliar seu leque de clientes, habilitando-se
a conquistar a autonomia.
Muitas dessas escolas, aliás, têm
investido fortemente em tecnologia para atender
aos gostos e manias da nova clientela. Hoje, poucas
abrem mão de recursos de multimídia
e do e-learning para realizar as aulas. A principal
vantagem é a redução de custos.
A catarinense Datasul, por exemplo, diz ter economizado
R$ 3,2 milhões desde que o treinamento
eletrônico foi implantado, no ano passado.
"Tivemos uma experiência em que 35
clientes espalhados por todo o país precisavam
de informações sobre um de nossos
softwares. Por meio de videoconferência,
esclarecemos as dúvidas em apenas duas
horas", empolga-se Alice Feuser, gerente
da universidade Da tasul. "Se fizéssemos
treinamentos presenciais, os custos seriam muito
mais altos", compara. Os especialistas, porém,
enfatizam que os meios digitais não podem
ser os únicos dos cursos corporativos.
O ideal, garantem eles, é que haja um mix
de aulas convencionais e virtuais. "Para
conteúdos técnicos e informativos,
a internet é uma beleza, pois o usuário
esclarece dúvidas na hora. Mas, se um grupo
de executivos precisa fazer um curso de desenvolvimento
gerencial, com assuntos densos, a aula tradicional
é melhor", ensina Célia Ferraz,
diretora de educação e comunicação
do grupo Accor, pioneiro no país a instalar
uma escola corporativa, em 1992.
Entretanto, muitas universidades corporativas
ainda padecem de alguns problemas na hora de buscar
autonomia. Um deles é a incapacidade de
medir a qualidade de seus próprios cursos
- quesito fundamental no mercado de educação
empresarial. "Uma coisa é avaliar
o que o aluno achou do curso. A maioria das estimativas
de resultados se resume a isso no Brasil. Mas
o que conta, que deveria ser medido seis meses
depois do treinamento, é o que as pessoas
realmente aprenderam e aplicaram no trabalho",
adverte Roberto Ruas, professor do programa de
pós-graduação em Administração
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGA/UFRGS).
A Associação Brasileira de Ensino
a Distância (Abed) está atenta a
esse problema. A entidade até montou um
grupo de discussão com pesquisadores e
gestores para definir quais indicadores são
os mais adequados para monitorar o ensino corporativo.
"O modelo tem de avaliar o conhecimento,
as habilidades e atitudes que as aulas incorporam
aos hábitos das pessoas", sugere Herbert
Martins, membro especialista em educação
corporativa da Abed. Muitas vezes, a única
forma de medir a eficácia das UCs é
um tanto subjetiva: por meio do desempenho das
empresas que as criaram. Se o lucro e o faturamento
da companhia crescem, costuma-se simplesmente
atribuir a melhora à universidade.
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