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      Edição 193 - Novembro de 2003
 

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Além de se multiplicarem, as universidades corporativas rompem os limites das empresas e passam a treinar
clientes e fornecedores


Letícia Pires

Dizia Peter Drucker, o papa da administração, que o conhecimento se tornaria o fator de produção mais importante nas empresas do futuro - mais que o capital e a mão-de-obra. A julgar pela multiplicação das universidades corporativas (UCs) pelo mundo todo, pode-se afirmar que Drucker acertou em cheio novamente. Cada vez mais companhias criam suas próprias escolas de formação e treinamento. Somente no Brasil, estima-se que existam pelo menos 100 universidades desse tipo, quase o triplo do que havia em 2000. Nos Estados Unidos, os especialistas prevêem que elas deverão ser mais numerosas que as universidades tradicionais até 2010, atingindo 4 mil escolas. É um mercado tão promissor que algumas organizações estão transformando suas universidades em unidades independentes de negócio, com receitas próprias. A mudança ainda está em marcha lenta no Brasil. Mas há exemplos de UCs que, mesmo sem cortar os laços com suas empresas-mães, estão prestes a se tornarem escolas profissionais auto-suficientes.

Aula da Uniall, da América Latina Logística: portas abertas tanto para maquinistas como para gere ntes do alto escalão

"Não nos vemos mais como uma simples área de treinamento da empresa. Essa visão é um erro comum", resume Helena Pessin, uma das superintendentes da universidade do Real-ABN Amro Bank. Atualmente, a instituição atende tanto os próprios funcionários como os de parceiros estratégicos do banco holandês. E serve de base para exercitar a responsabilidade social da instituição. "Temos um programa de alfabetização para os empregados dos nossos fornecedores", descreve Helena. Outro exemplo é a Boston School, criada em 1999 pelo BankBoston. A escola nunca se limitou a ser um espaço de treinamento interno. Ao contrário, sempre ofereceu cursos também para o pessoal de outras companhias da cadeia de serviços do banco. Com isso, o BankBoston consegue se aproximar de potenciais clientes - que aprendem sobre seus produtos e, logo, ficam mais inclinados a fechar novos negócios. Também os filhos dos funcionários podem freqüentar as aulas da Boston School. Na prática, isso ajuda a manter a imagem do banco em alta perante todo esse público. Os preços desses cursos, em alguns casos, chegam à metade dos valores praticados no mercado. "Ainda não atingimos o objetivo da auto-suficiência. Mas nossa receita com o público externo tem crescido", acentua Marita Elsa Bernhoeft, superintendente executiva da Boston School.

Nem todas as universidades corporativas nascem destinadas a se tornarem escolas autônomas. Sua principal função é viabilizar a gestão do conhecimento das empresas para torná-las mais aptas a competir. Ou seja, os cursos oferecidos nas UCs têm de estar alinhados com os objetivos estratégicos da corporação. "Há alguns anos, era normal um aluno sair de um curso de graduação sem experiência nenhuma e passar cinco ou seis anos aprendendo dentro da companhia. Hoje, as organizações não têm mais tempo para esperar isso acontecer", argumenta Marisa Éboli, coordenadora de Projetos de Universidades Corporativas do Programa de Estudos em Gestão de Pessoas da Universidade de São Paulo (Progep-FIA/USP), uma das maiores especialistas brasileiras no assunto. A América Latina Logística (ALL), por exemplo, inaugurou a Uniall em agosto de 2000 porque precisava de maquinistas e não havia cursos de formação para esse tipo de trabalhador. "Em um segundo momento, percebemos que a universidade não poderia se limitar a uma demanda imediata, e passamos a investir também na educação de nosso corpo gerencial e administrativo", ressalta Márcia Baena, coordenadora de desenvolvimento e gestão da entidade.


Treinamento digital - Ocorre que nem sempre as habilidades essenciais para o funcionamento das companhias estão todas reunidas no seu corpo de funcionários. Muitas vezes, o sucesso de uma organização depende também de fornecedores, parceiros, distribuidores e de outros públicos externos. É aí que as universidades corporativas começam a ampliar seu leque de clientes, habilitando-se a conquistar a autonomia.

Muitas dessas escolas, aliás, têm investido fortemente em tecnologia para atender aos gostos e manias da nova clientela. Hoje, poucas abrem mão de recursos de multimídia e do e-learning para realizar as aulas. A principal vantagem é a redução de custos. A catarinense Datasul, por exemplo, diz ter economizado R$ 3,2 milhões desde que o treinamento eletrônico foi implantado, no ano passado. "Tivemos uma experiência em que 35 clientes espalhados por todo o país precisavam de informações sobre um de nossos softwares. Por meio de videoconferência, esclarecemos as dúvidas em apenas duas horas", empolga-se Alice Feuser, gerente da universidade Da tasul. "Se fizéssemos treinamentos presenciais, os custos seriam muito mais altos", compara. Os especialistas, porém, enfatizam que os meios digitais não podem ser os únicos dos cursos corporativos. O ideal, garantem eles, é que haja um mix de aulas convencionais e virtuais. "Para conteúdos técnicos e informativos, a internet é uma beleza, pois o usuário esclarece dúvidas na hora. Mas, se um grupo de executivos precisa fazer um curso de desenvolvimento gerencial, com assuntos densos, a aula tradicional é melhor", ensina Célia Ferraz, diretora de educação e comunicação do grupo Accor, pioneiro no país a instalar uma escola corporativa, em 1992.

Entretanto, muitas universidades corporativas ainda padecem de alguns problemas na hora de buscar autonomia. Um deles é a incapacidade de medir a qualidade de seus próprios cursos - quesito fundamental no mercado de educação empresarial. "Uma coisa é avaliar o que o aluno achou do curso. A maioria das estimativas de resultados se resume a isso no Brasil. Mas o que conta, que deveria ser medido seis meses depois do treinamento, é o que as pessoas realmente aprenderam e aplicaram no trabalho", adverte Roberto Ruas, professor do programa de pós-graduação em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGA/UFRGS). A Associação Brasileira de Ensino a Distância (Abed) está atenta a esse problema. A entidade até montou um grupo de discussão com pesquisadores e gestores para definir quais indicadores são os mais adequados para monitorar o ensino corporativo. "O modelo tem de avaliar o conhecimento, as habilidades e atitudes que as aulas incorporam aos hábitos das pessoas", sugere Herbert Martins, membro especialista em educação corporativa da Abed. Muitas vezes, a única forma de medir a eficácia das UCs é um tanto subjetiva: por meio do desempenho das empresas que as criaram. Se o lucro e o faturamento da companhia crescem, costuma-se simplesmente atribuir a melhora à universidade.

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