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      Edição 193 - Novembro de 2003
 

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Polêmica é a marca registrada de Roberto Requião, o governador que revê contratos no Paraná e incomoda até outros Estados

Tatiana Csordas


É impossível ignorar a figura de Roberto Requião. Esse curitibano de 62 anos foge de qualquer convenção. Mesmo na presença de sisudos ingleses, na recente inauguração de uma fábrica de autopeças em Curitiba, o governador apareceu no seu peculiar estilo informal: calça jeans desbotada e uma indefectível jaqueta azul de couro. Mas é pela acidez de suas declarações e pela disposição para agir em questões delicadas que Requião ganha notoriedade. Em menos de um ano de governo, ele desencavou as questões do Banestado e reviu contratos da Copel. Agora, está questionando os pedágios. E também marca posição ao fazer do Paraná uma zona livre de transgênicos. Embora Requião negue, corre por fora na corrida para a sucessão presidencial de 2006 ou 2010. Ele ocupa espaços à esquerda de Lula, na brecha deixada pela dificuldade que o presidente tem de manter o velho discurso contra transgênicos e privatizações, entre outras bandeiras históricas do PT.

Suas ações no governo do Paraná ganharam repercussão nacional. O senhor pensa em se candidatar à Presidência?
Sou candidato a uma única coisa: a fazer a melhor administração estadual do Brasil, que honre o compromisso da opção pelos trabalhadores e pelos excluídos.

O senhor apóia o governo Lula? Qual sua avaliação sobre as ações do ministro Antonio Palocci?
Apóio amplamente, mas não absolutamente. O Palocci agiu corretamente com relação à política econômica. Se não agisse assim, teria deixado o Lula numa situação semelhante à do Hugo Chávez (presidente da Venezuela). Mas há um limite. Uma vez conquistada a estabilidade, está na hora de resolver os problemas e fazer as mudanças prometidas.

O PMDB foi decisivo nas reformas e nas ações governamentais. Não é hora de o partido participar oficialmente do governo?
Eu acho que nossa obrigação é apoiar o governo do PT. Não estou preocupado com essa história de participação no governo federal.

Por vezes, o senhor chega a ter posições mais radicais que a de muitos petistas. Nunca pensou em se filiar ao partido?
As minhas posições são as clássicas do PT, e boa parte delas, mais à esquerda. Mas eu não agüento o assembleísmo dos petistas. Às vezes se tem uma decisão certa, mas mudam as pessoas que participam da discussão e é preciso retomar tudo.

Mesmo sem ingressar no PT, o senhor apoiará o partido nas eleições municipais em 2004?
Não sou dono do PMDB. Se o partido seguisse a minha opinião, a recomendação seria de que a aliança ocorresse em todos os lugares onde fosse possível, inclusive em Curitiba. Pelo PMDB, há um belo candidato que é o Gustavo Fruet e, pelo PT, o Ângelo Vanhoni.

Jaime Lerner, seu antecessor no governo paranaense, saiu do PDT, foi para o PSB e pretende se candidatar a prefeito do Rio de Janeiro. O que o senhor acha disso?
Há dez anos, eu deixei o Estado com uma dívida de R$ 1,1 bilhão. Quando retornei, após dois mandatos do Lerner, recebi o Estado com uma dívida de R$ 20,5 bilhões. É rigorosamente impagável. Eu acho extraordinário (em tom de ironia). Ele sempre foi um socialista, um homem profundamente voltado para as causas populares. Ele deve ter uma grande identidade com o Miguel Arraes (presidente do PSB).

Lerner foi melhor prefeito que governador?
Ele foi um prefeito razoável e fez coisas muito positivas. Mas foi o pior governador da história do Brasil, não apenas do Paraná. O problema da corrupção no Estado é seriíssimo. Já eliminei mais de R$ 300 milhões de contratos frios de informática. Se é isso que o Rio de Janeiro quer, Jaime Lerner para eles.

O PMDB governa o Sul do país, mas sem a mesma integração que há no Nordeste. Quando Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul deixarão de ser os Estados desunidos do Sul?
Eu, o Rigotto (Germano Rigotto, governador do Rio Grande do Sul) e o Luís Henrique da Silveira (governador de Santa Catarina) começamos juntos. Sou amigo do Rigotto desde o começo do PMDB. O mesmo acontece com o Luís Henrique. Estamos conversando. O Codesul (Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul) está funcionando. Há reuniões periódicas de secretários de Transporte, de Saúde e da Cultura. Estamos governando juntos.

Mas, na questão dos transgênicos, o senhor não apóia o Rio Grande do Sul. Além de proibir o plantio de soja transgênica no Paraná, o senhor também está impedindo o transporte desse tipo de grão. Isso não afeta a distribuição da safra gaúcha?
Vou proibir o plantio e o embarque pelo porto de Paranaguá. Isso não acaba prejudicando o Rio Grande do Sul, pois beneficia o Brasil. O que atrapalha o país é plantar transgênico. Os gaúchos receberam soja transgênica por contrabando, mas não podemos comprometer a safra nacional. Somos o maior competidor dos Estados Unidos. Neste ano, a América Latina produziu 90 milhões de toneladas. Os Estados Unidos, que tiveram uma queda de produção, chegaram a 60 e poucos milhões de toneladas. O principal objetivo dos norte-americanos é dominar a nossa safra. É um absurdo!
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