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É impossível ignorar a figura de Roberto Requião.
Esse curitibano de 62 anos foge de qualquer convenção.
Mesmo na presença de sisudos ingleses, na recente
inauguração de uma fábrica de autopeças em Curitiba,
o governador apareceu no seu peculiar estilo informal:
calça jeans desbotada e uma indefectível jaqueta
azul de couro. Mas é pela acidez de suas declarações
e pela disposição para agir em questões delicadas
que Requião ganha notoriedade. Em menos de um
ano de governo, ele desencavou as questões do
Banestado e reviu contratos da Copel. Agora, está
questionando os pedágios. E também marca posição
ao fazer do Paraná uma zona livre de transgênicos.
Embora Requião negue, corre por fora na corrida
para a sucessão presidencial de 2006 ou 2010.
Ele ocupa espaços à esquerda de Lula, na brecha
deixada pela dificuldade que o presidente tem
de manter o velho discurso contra transgênicos
e privatizações, entre outras bandeiras históricas
do PT.
Suas ações no governo do Paraná
ganharam repercussão nacional. O senhor
pensa em se candidatar à Presidência?
Sou candidato a uma única coisa: a
fazer a melhor administração estadual
do Brasil, que honre o compromisso da opção
pelos trabalhadores e pelos excluídos.
O senhor apóia o governo Lula? Qual
sua avaliação sobre as ações
do ministro Antonio Palocci?
Apóio amplamente, mas não absolutamente.
O Palocci agiu corretamente com relação
à política econômica. Se não
agisse assim, teria deixado o Lula numa situação
semelhante à do Hugo Chávez (presidente
da Venezuela). Mas há um limite. Uma vez
conquistada a estabilidade, está na hora
de resolver os problemas e fazer as mudanças
prometidas.
O PMDB foi decisivo nas reformas e nas ações
governamentais. Não é hora de o
partido participar oficialmente do governo?
Eu acho que nossa obrigação
é apoiar o governo do PT. Não estou
preocupado com essa história de participação
no governo federal.
Por vezes, o senhor chega a ter posições
mais radicais que a de muitos petistas. Nunca
pensou em se filiar ao partido?
As minhas posições são
as clássicas do PT, e boa parte delas,
mais à esquerda. Mas eu não agüento
o assembleísmo dos petistas. Às
vezes se tem uma decisão certa, mas mudam
as pessoas que participam da discussão
e é preciso retomar tudo.
Mesmo sem ingressar no PT, o senhor apoiará
o partido nas eleições municipais
em 2004?
Não sou dono do PMDB. Se o partido
seguisse a minha opinião, a recomendação
seria de que a aliança ocorresse em todos
os lugares onde fosse possível, inclusive
em Curitiba. Pelo PMDB, há um belo candidato
que é o Gustavo Fruet e, pelo PT, o Ângelo
Vanhoni.
Jaime Lerner, seu antecessor no governo paranaense,
saiu do PDT, foi para o PSB e pretende se candidatar
a prefeito do Rio de Janeiro. O que o senhor acha
disso?
Há dez anos, eu deixei o Estado com
uma dívida de R$ 1,1 bilhão. Quando
retornei, após dois mandatos do Lerner,
recebi o Estado com uma dívida de R$ 20,5
bilhões. É rigorosamente impagável.
Eu acho extraordinário (em tom de ironia).
Ele sempre foi um socialista, um homem profundamente
voltado para as causas populares. Ele deve ter
uma grande identidade com o Miguel Arraes (presidente
do PSB).
Lerner foi melhor prefeito que governador?
Ele foi um prefeito razoável e fez
coisas muito positivas. Mas foi o pior governador
da história do Brasil, não apenas
do Paraná. O problema da corrupção
no Estado é seriíssimo. Já
eliminei mais de R$ 300 milhões de contratos
frios de informática. Se é isso
que o Rio de Janeiro quer, Jaime Lerner para eles.
O PMDB governa o Sul do país, mas sem
a mesma integração que há
no Nordeste. Quando Paraná, Santa Catarina
e Rio Grande do Sul deixarão de ser os
Estados desunidos do Sul?
Eu, o Rigotto (Germano Rigotto, governador
do Rio Grande do Sul) e o Luís Henrique
da Silveira (governador de Santa Catarina) começamos
juntos. Sou amigo do Rigotto desde o começo
do PMDB. O mesmo acontece com o Luís Henrique.
Estamos conversando. O Codesul (Conselho de Desenvolvimento
e Integração Sul) está funcionando.
Há reuniões periódicas de
secretários de Transporte, de Saúde
e da Cultura. Estamos governando juntos.
Mas, na questão dos transgênicos,
o senhor não apóia o Rio Grande
do Sul. Além de proibir o plantio de soja
transgênica no Paraná, o senhor também
está impedindo o transporte desse tipo
de grão. Isso não afeta a distribuição
da safra gaúcha?
Vou proibir o plantio e o embarque pelo porto
de Paranaguá. Isso não acaba prejudicando
o Rio Grande do Sul, pois beneficia o Brasil.
O que atrapalha o país é plantar
transgênico. Os gaúchos receberam
soja transgênica por contrabando, mas não
podemos comprometer a safra nacional. Somos o
maior competidor dos Estados Unidos. Neste ano,
a América Latina produziu 90 milhões
de toneladas. Os Estados Unidos, que tiveram uma
queda de produção, chegaram a 60
e poucos milhões de toneladas. O principal
objetivo dos norte-americanos é dominar
a nossa safra. É um absurdo!
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