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Tatiana Csordas
O comandante Rolim Amaro costumava afirmar que
a missão da TAM é sexual. Em primeiro
lugar, a empresa deve agir como uma prostituta,
fazendo de tudo para agradar ao cliente, tudo
mesmo. Em segundo lugar, a companhia precisa levar
o cliente ao orgasmo. Em terceiro, a TAM está
aí para "foder a concorrência"...
Essas frases poderiam chocar boa parte dos consumidores
no mundo. No Brasil, porém, onde o sexo
funciona como banquete para a publicidade, citações
como as de Rolim são encaradas com maior
naturalidade. "O latino é mais sentimental.
Isso norteia a forma com que esses povos compreendem
e encaram a propaganda", observa Dílson
Gabriel dos Santos, professor de Comportamento
do Consumidor da Universidade de São Paulo.
O país do Carnaval, das mulatas e das praias
exuberantes fornece apelos de sobra para promover
produtos ou serviços. Não é
por acaso que o Brasil lidera o ranking mundial
do sexo (e isso não é conversa de
bar). O Atlas Penguin do Comportamento Sexual
Humano, elaborado a partir de uma pesquisa do
Royal College of Physicians da Inglaterra, em
2000, revela que os brasileiros têm relações
sexuais mais freqüentes, mais longas e com
maior diversidade de parceiros que os amantes
de outros países. É claro que todo
esse furor só podia desembocar na publicidade.
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| Símbolos
sexuais: Gisele Bündchen e Rodrigo Santoro
turbinam as vendas de cartão de crédito |
A exploração do sexo na propaganda,
entretanto, é um fenômeno que ultrapassa
as fronteiras do Brasil. "O primeiro gesto
de marketing partiu da serpente de Adão
e Eva", brinca Marcos Cobra, professor de
Marketing da Fundação Getúlio
Vargas (FGV) e autor do livro Sexo & Marketing.
É difícil dissociar desejo, publicidade
e consumo. "Se a propaganda reflete o dia-a-dia
das pessoas, não há como deixar
de falar em sensualidade", assinala Dalton
Pastore, presidente da Associação
Brasileira de Agências de Publicidade (Abap).
Não é à toa que o país
viveu uma verdadeira euforia de comerciais eróticos
com o fim da censura em 1985. "Na época,
o sexo era usado até para vender sorvete
e relógio", recorda Ednei Narchi,
diretor executivo do Conselho Nacional de Auto-Regulamentação
Publicitária (Conar). Para Narchi, o fim
da repressão levou a abusos dos publicitários
e dos veículos de comunicação.
Um anúncio de picolé, por exemplo,
mostrava um casal de adolescentes nus na praia,
no melhor estilo Lagoa Azul, com o mote: "Essa
tentação é melhor que o paraíso".
Freud explica - Quando se quer conquistar o consumidor,
a sensualidade é um recurso quase infalível.
O psicanalista Sigmund Freud foi o pioneiro a
reconhecer - e a explicar - o poder mobilizador
do sexo nas pessoas. Para Freud, há uma
quantidade de energia psíquica em cada
indivíduo. Essa energia, chamada por ele
de libido, reflete o desejo sexual que é
comum a todos. É a vontade de agradar e
ser agradado, de amar e ser amado. O psicólogo
Pedro de Santi, professor do curso de Comunicação
Social da Escola Superior de Propaganda e Marketing,
de São Paulo, identifica dois tipos de
motivação sexual: "A pessoa
adquire um produto para encantar o outro ou para
se satisfazer". Assim, um rapaz pode comprar
um carro para chamar a atenção das
garotas - ou para agradar a si mesmo. "Em
um anúncio, aparecia um cara que fazia
tudo correndo, até transava com a namorada
correndo e, quando sentava no carro, gozava",
descreve Santi.
O homem e a mulher precisam de estímulos
diferentes. Ela valoriza a inteligência
e a beleza expressas pela corpo e pela roupa.
Ele, a agilidade e a sensualidade que estão
no corpo, mas também se transferem para
o carro. "O homem 'veste um automóvel'
como forma de expressar potência e poder
de atração. Já a mulher usa
o perfume como química do processo de sedução",
compara o professor Marcos Cobra, da FGV.
Em dias de muita tensão, com trânsito
congestionado e contas atrasadas, uma propaganda
mais sensual funciona como um convite ao relaxamento.
"As pessoas se entretêm assistindo
a peças com conotação sexual",
acredita a psicóloga e sexóloga
Lúcia Pesca. Entre os mais respeitados
teóricos da administração,
também é possível colher
subsídios para entender por que a propaganda
recorre tanto ao erotismo. Em 1954, Abrahm Maslow
propôs a célebre "pirâmide
das necessidades". Na base aparece aquilo
que é fundamental para a sobrevivência
do indivíduo - as necessidades fisiológicas.
"O sexo é tão importante para
qualquer pessoa quanto saciar a sede e matar a
fome", percebe Cobra. Na virada do século,
o psicanalista Jorge Forbes se deu conta de que
a preocupação sexual era ainda mais
básica: "O homem industrial perguntava
sobre o que sabe e o que não sabe de si
mesmo. Hoje, ele não quer saber mais, quer
gozar mais".
Um estudo realizado pela Universidade de Iowa,
nos Estados Unidos, questiona a eficácia
da propaganda com recursos eróticos ou
violentos. A pesquisa, divulgada no ano passado,
no Journal of Applied Psychology, comparou a lembrança
de marca depois de os telespectadores assistirem
a diferentes tipos de propaganda. Os entrevistados
(324 homens e mulheres, de 18 a 54 anos) foram
distribuídos em três grupos e expostos
a comerciais com teor sexual, violento ou neutro.
Cada grupo assistiu a nove anúncios de
produtos com forte apelo de marca, como refrigerantes,
salgadinhos e sabão em pó. "Imediatamente,
depois de serem expostos à programação,
os participantes lembravam das marcas divulgadas",
relata a pesquisa. No dia seguinte, contudo, um
pesquisador telefonou para os participantes, questionando
sobre o recall dos produtos. Quem assistiu aos
comerciais que recorrem à sensualidade
ou à violência acabou recordando
menos das marcas que os que viram as propagandas
neutras. "Sexo e violência podem atrair
mais audiência, mas desviam a atenção
da marca anunciada", advertem Brad Bushman
e Angelica Bonacci, pesquisadores responsáveis
pelo estudo.
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