Voltar para página inicial
      Edição 193 - Novembro de 2003
 

    Matéria de Capa
    Especial
    Entrevista
    Especial
Capa da edição



 
Quer receber notícias exclusivas da revista Amanhã?

(digite seu email)

 
Imprima esta matéria Dê sua opinião Indique este texto

Apesar das críticas, é quase impossível resistir à tentação de explorar a
sexualidade na propaganda. Ela seduz, envolve, provoca, gera polêmica.
E vende. O problema é que, às vezes, também , ofende...


Tatiana Csordas

O comandante Rolim Amaro costumava afirmar que a missão da TAM é sexual. Em primeiro lugar, a empresa deve agir como uma prostituta, fazendo de tudo para agradar ao cliente, tudo mesmo. Em segundo lugar, a companhia precisa levar o cliente ao orgasmo. Em terceiro, a TAM está aí para "foder a concorrência"...

Essas frases poderiam chocar boa parte dos consumidores no mundo. No Brasil, porém, onde o sexo funciona como banquete para a publicidade, citações como as de Rolim são encaradas com maior naturalidade. "O latino é mais sentimental. Isso norteia a forma com que esses povos compreendem e encaram a propaganda", observa Dílson Gabriel dos Santos, professor de Comportamento do Consumidor da Universidade de São Paulo. O país do Carnaval, das mulatas e das praias exuberantes fornece apelos de sobra para promover produtos ou serviços. Não é por acaso que o Brasil lidera o ranking mundial do sexo (e isso não é conversa de bar). O Atlas Penguin do Comportamento Sexual Humano, elaborado a partir de uma pesquisa do Royal College of Physicians da Inglaterra, em 2000, revela que os brasileiros têm relações sexuais mais freqüentes, mais longas e com maior diversidade de parceiros que os amantes de outros países. É claro que todo esse furor só podia desembocar na publicidade.

Símbolos sexuais: Gisele Bündchen e Rodrigo Santoro turbinam as vendas de cartão de crédito

A exploração do sexo na propaganda, entretanto, é um fenômeno que ultrapassa as fronteiras do Brasil. "O primeiro gesto de marketing partiu da serpente de Adão e Eva", brinca Marcos Cobra, professor de Marketing da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e autor do livro Sexo & Marketing. É difícil dissociar desejo, publicidade e consumo. "Se a propaganda reflete o dia-a-dia das pessoas, não há como deixar de falar em sensualidade", assinala Dalton Pastore, presidente da Associação Brasileira de Agências de Publicidade (Abap). Não é à toa que o país viveu uma verdadeira euforia de comerciais eróticos com o fim da censura em 1985. "Na época, o sexo era usado até para vender sorvete e relógio", recorda Ednei Narchi, diretor executivo do Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar). Para Narchi, o fim da repressão levou a abusos dos publicitários e dos veículos de comunicação. Um anúncio de picolé, por exemplo, mostrava um casal de adolescentes nus na praia, no melhor estilo Lagoa Azul, com o mote: "Essa tentação é melhor que o paraíso".

Freud explica - Quando se quer conquistar o consumidor, a sensualidade é um recurso quase infalível. O psicanalista Sigmund Freud foi o pioneiro a reconhecer - e a explicar - o poder mobilizador do sexo nas pessoas. Para Freud, há uma quantidade de energia psíquica em cada indivíduo. Essa energia, chamada por ele de libido, reflete o desejo sexual que é comum a todos. É a vontade de agradar e ser agradado, de amar e ser amado. O psicólogo Pedro de Santi, professor do curso de Comunicação Social da Escola Superior de Propaganda e Marketing, de São Paulo, identifica dois tipos de motivação sexual: "A pessoa adquire um produto para encantar o outro ou para se satisfazer". Assim, um rapaz pode comprar um carro para chamar a atenção das garotas - ou para agradar a si mesmo. "Em um anúncio, aparecia um cara que fazia tudo correndo, até transava com a namorada correndo e, quando sentava no carro, gozava", descreve Santi.

O homem e a mulher precisam de estímulos diferentes. Ela valoriza a inteligência e a beleza expressas pela corpo e pela roupa. Ele, a agilidade e a sensualidade que estão no corpo, mas também se transferem para o carro. "O homem 'veste um automóvel' como forma de expressar potência e poder de atração. Já a mulher usa o perfume como química do processo de sedução", compara o professor Marcos Cobra, da FGV.

Em dias de muita tensão, com trânsito congestionado e contas atrasadas, uma propaganda mais sensual funciona como um convite ao relaxamento. "As pessoas se entretêm assistindo a peças com conotação sexual", acredita a psicóloga e sexóloga Lúcia Pesca. Entre os mais respeitados teóricos da administração, também é possível colher subsídios para entender por que a propaganda recorre tanto ao erotismo. Em 1954, Abrahm Maslow propôs a célebre "pirâmide das necessidades". Na base aparece aquilo que é fundamental para a sobrevivência do indivíduo - as necessidades fisiológicas. "O sexo é tão importante para qualquer pessoa quanto saciar a sede e matar a fome", percebe Cobra. Na virada do século, o psicanalista Jorge Forbes se deu conta de que a preocupação sexual era ainda mais básica: "O homem industrial perguntava sobre o que sabe e o que não sabe de si mesmo. Hoje, ele não quer saber mais, quer gozar mais".

Um estudo realizado pela Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, questiona a eficácia da propaganda com recursos eróticos ou violentos. A pesquisa, divulgada no ano passado, no Journal of Applied Psychology, comparou a lembrança de marca depois de os telespectadores assistirem a diferentes tipos de propaganda. Os entrevistados (324 homens e mulheres, de 18 a 54 anos) foram distribuídos em três grupos e expostos a comerciais com teor sexual, violento ou neutro. Cada grupo assistiu a nove anúncios de produtos com forte apelo de marca, como refrigerantes, salgadinhos e sabão em pó. "Imediatamente, depois de serem expostos à programação, os participantes lembravam das marcas divulgadas", relata a pesquisa. No dia seguinte, contudo, um pesquisador telefonou para os participantes, questionando sobre o recall dos produtos. Quem assistiu aos comerciais que recorrem à sensualidade ou à violência acabou recordando menos das marcas que os que viram as propagandas neutras. "Sexo e violência podem atrair mais audiência, mas desviam a atenção da marca anunciada", advertem Brad Bushman e Angelica Bonacci, pesquisadores responsáveis pelo estudo.


.


Copyright © Revista Amanhã - Conectt Marketing Interativo