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      Edição 190 - Agosto de 2003
 

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Publicitário consagrado no Brasil e no mundo, Washington Olivetto mostra que há um caminho para tornar a publicidade mais agradável aos olhos de leitores e telespectadores: o bom humor

 


Washington Olivetto é uma espécie de Tom Jobim da propaganda. É presidente e diretor de criação da W/Brasil, uma das mais badaladas agências de publicidade do país. E ostenta a posição de publicitário brasileiro com maior prestígio internacional - um dos três mais premiados do planeta. Assim, não chega a surpreender o fato de Olivetto ser, também, um mestre do bom humor. Pelo menos é isso que ele revela nesta entrevista realizada com três interlocutores de alto calibre: o psicanalista Abrão Slavutsky - autor de livros como A Invenção da Vida: Arte e Psicanálise -, Eduardo Axelrud e Alfredo Fedrizzi, diretor de criação e sócio-diretor da agência Escala Comunicação & Marketing, respectivamente. O bate-papo é uma das atrações do livro O Humor Abre Corações e Bolsos, série de artigos e textos sobre humor organizada por Fedrizzi, cujo lançamento está marcado para o final de agosto. Olivetto prima pelo equilíbrio. Defende a publicidade "politicamente saudável", capaz de mesclar o humor politicamente incorreto com aquele mais comportado. Abaixo, AMANHÃ reproduz alguns trechos da conversa.

<Alfredo Fedrizzi> Como anda o humor na propaganda?
<Washington Olivetto> O humor na propaganda começa a ganhar brilho, visibilidade e a ser percebido como essencial. Durante um grande período, a propaganda foi feita só de informação: "Existe este produto e ele faz isso, faz aquilo e custa tanto". Depois, a propaganda passou a conter, também, a persuasão. As primeiras peças persuasivas foram aquelas que demonstravam o produto com uma conotação dramática. O primeiro comercial que fez isso foi da Volkswagen. Debaixo de muita neve, um cara ia pegar um trator pra limpar o lugar, que estava intransitável, mas aí subia num VW. Isso é demonstração de produto com uma conotação emocional, buscando a persuasão. Logo depois, surgiram peças antológicas com a presença de humor. Por exemplo, as primeiras peças de Alka-Seltzer, o "Mamma mia" etc.

<Abrão Slavutsky> Situa um pouco a época...
<Washington Olivetto> Estamos falando dos anos 60. Essa cultura da persuasão invadiu fortemente a publicidade americana e foi transportada pelo mundo, particularmente para a Inglaterra e para o Brasil. Se você prestar atenção, possivelmente vai perceber que a publicidade brasileira e a inglesa têm algumas parecenças entre si, apesar de o humor dos ingleses ser mais blasé, contido, e o nosso ser mais escancarado. Só na Inglaterra e no Brasil, os publicitários ficam famosos, conhecidos na mídia. O povo inglês, assim como o brasileiro, é muito amigo da publicidade comercial. Ele repete as piadas, encanta-se com aquilo, transforma os personagens da publicidade em personagens do cotidiano. Isso vem de uma descoberta quase simplória: assim como as pessoas preferem conviver com indivíduos bem-humorados, elas também preferem ver comerciais bem-humorados.

<Alfredo Fedrizzi> O criador tem de ter bom humor?
<Washington Olivetto> Não é obrigatório, mas é melhor. Chega a ser gozado que muitas pessoas que escrevem humor não sejam engraçadas.

<Alfredo Fedrizzi> Vide o [escritor Luís Fernando] Verissimo...
<Washington Olivetto> Mas são pessoas com um grande senso de humor. Ou, então, como eu costumo brincar, são pessoas com um grande senso de mau humor. É o cara que tem um ponto de vista crítico em relação à sociedade. Acho mais difícil escrever com bom humor do que de outra forma.


<Eduardo Axelrud> A gente tem visto, principalmente lá fora, em festivais, o humor migrar cada vez mais para o politicamente incorreto.

<Washington Olivetto> O melhor que tem sido feito de humor no mundo é marcado por uma invasão do politicamente incorreto. Mas a questão não está em fazer o politicamente correto, que é chato pra cacete. Nem o politicamente incorreto, que pode resvalar para a má educação. A questão é fazer o que eu chamo de "politicamente saudável" - que é aquilo assim, bacana, inteligente, divertido, gostoso. Esse é o grande caminho. Não há dúvida de que a própria maneira de escrever humor mudou bastante. Uma pesquisa de poucos anos atrás mostrava que as pessoas hoje, com a carga de informação que têm, memorizam menos piadas do que antes. Por isso, as piadas têm de ganhar características mais audiovisuais e cinematográficas, e não só qualidades verbais ou meramente visuais. Na verdade, um dos grandes problemas da publicidade é que as pessoas confundem a idéia prioritária desse negócio, que é fazer com que todo o mundo leve você a sério. Mas para que todo o mundo leve você a sério, você próprio não pode se levar a sério. Fazer pesquisas, por exemplo, é muito difícil. Digamos que você junte um grupo de pessoas e diga que está escrevendo uma história de um rapaz e de uma moça que se adoram, mas são de famílias inimigas. E que, por causa de tanto amor, os jovens acabam se matando no final... Possivelmente, as recomendações da pesquisa serão de que a história é muito boa. Mas que é melhor as famílias serem amigas. E que, no final, os jovens devem se casar em vez de se matar. Pronto: você acabou de recusar Romeu e Julieta. Com o humor, esse tipo de julgamento é mais difícil ainda.

<Eduardo Axelrud> A pesquisa tende a racionalizar?
<Washington Olivetto> É... a questão não é ser contra a pesquisa. São os mecanismos que você usa para fazer a pesquisa. Dependendo do mecanismo, por exemplo, você pode entrevistar mulheres e concluir que não existe nenhum corno no mundo. É impressionante: 100% das mulheres, namoradas, amantes, afirmam não trair seus homens. E não é verdade. Cada vez mais o negócio da comunicação se distancia do Isaac Newton e se aproxima da teoria quântica. Ele fica menos com aquela coisa newtoniana, lógica e racional, e se torna mais abrangente. Nos julgamentos de comunicação, essa ótica é fundamental. No Brasil, foi feito muito bom humor antes do Garoto BomBril. Mas o que o Garoto BomBril fez em 1978 foi implantar um humor coloquial, com conotação de cumplicidade. Aliás, isso é curioso. Na maioria dos casos, o humor mais eficiente em publicidade é para sorrir, não para gargalhar.

<Eduardo Axelrud> O livro Smile in the Mind fala sobre o humor "WIT" - palavra que os ingleses usam para se referir ao sorriso que aparece não necessariamente na sua boca, mas lá dentro, no seu cérebro.
<Washington Olivetto> Para seduzir as pessoas, você precisa deixar um espacinho para que elas complementem a mensagem. Você não entrega a mensagem 100% mastigada. Entrega de uma maneira que deixa o receptor com vontade de interagir. Assim, ele vai participar, vai gostar de você, vai memorizar você.

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