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Desde o final do ano passado, uma publicitária alemã
ainda pouco conhecida vem pisando nos calos dos gurus de RH
com uma proposta incomum: banir a apologia do riso, do bom
humor e de qualquer tipo de diversão do ambiente organizacional.
Judith Mair, sócia da agência Mair und Andere,
do oeste da Alemanha, lançou a polêmica no livro
Schluss mit Lustig (Chega de Diversão, ainda não
editado em português). Conhecida como "Frau Mair",
a autora prega a implantação dos rígidos
valores prussianos no cotidiano corporativo. Defende, por
exemplo, o fim da jornada de flexível - ou a volta
do cartão-ponto. Execra o espírito de equipe
e proíbe conversas pessoais entre os funcionários
por mais de cinco minutos. E, para deixar claro que não
se trata de mero discurso, a matrona deixa um cartaz com dizeres
pouco convidativos na entrada de sua agência: "Aqui
não há lugar para quem pensa que trabalho bom
é aquele que dá prazer".
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| Pausa para descanso:
até o Exército vem adotando métodos mais brandos de gerenciamento |
O que leva Frau Mair a adotar o chicote em plena era da inteligência
emocional, enquanto milhares de companhias se desdobram para
tornar a rotina mais light, dinâmica e prazerosa? Acredite:
ela quer melhorar a qualidade de vida de seus funcionários
e fazer sua agência prosperar. O rigor, a disciplina
e o fim da diversão estimulariam os empregados a dedicarem
as horas de trabalho unicamente ao trabalho - o que significa
dizer que lhes sobraria mais tempo livre após o expediente.
Não por acaso, a autora de Schluss mit Lustig deseja
acabar com alguns conceitos já consagrados no mundo
dos negócios. "Processos como horizontalização,
jornada flexível e gestão de equipes estão
derrubando as barreiras entre a vida privada e a profissional.
As pessoas estão desorientadas com a falta de hierarquia.
Ficam constantemente preocupadas com as pendências da
empresa e, por isso, sofrem cada vez mais de depressão,
estresse e doenças cardiovasculares", ilustra
ela.
Evidentemente, as críticas de Judith Mair mexeram
com os especialistas em RH, que espinafraram sua tese. "A
longo prazo, essas regras podem significar o suicídio
de uma empresa", comenta Iris Santos Diniz, gerente de
executive search da KPMG na Região Sul. Entretanto,
os argumentos da alemã têm pelo menos uma propriedade
interessante: dissecam métodos de gestão que,
de tão badalados, já eram tidos como dogmas
incontestáveis. "Nem sempre o trabalho em equipe
é o mais adequado para as organizações.
O método não é uma panacéia que
resolve tudo", exemplifica Rolando Pellicia, consultor
da Hay do Brasil, uma das principais empresas de recursos
humanos do mundo. Da mesma forma, é errado pensar que
somente um líder bem-humorado e carismático
pode fazer uma companhia crescer, ou que o horário
de trabalho flexível é sempre benéfico
para os funcionários e para sua produtividade. Para
lançar luzes sobre a questão, AMANHÃ
confrontou alguns dos maiores especialistas em gestão
do Brasil com quatro argumentos linha dura de Schluss mit
Lustig. E procurou Frau Mair para conferir até que
ponto a chefe mais durona da Alemanha está equivocada.
Nada de prazer no trabalho
É impossível entender o ranço de Judith
Mair com a diversão sem fazer uma análise do
"admirável mundo novo do trabalho", como
ela própria classifica em seu livro. Nos últimos
anos, a tecnologia possibilitou uma interatividade maior entre
as pessoas e suas empresas. Profissionais passam muito mais
tempo conectados às pendências do escritório
- e até podem levar afazeres para casa. Mas há
efeitos indesejáveis. Os problemas da companhia passam
a influir mais na rotina do lar, por exemplo. Prova disso
é o crescimento dos níveis de estresse. No Brasil,
cerca de 70% dos executivos se dizem estressados e 30% sofrem
de burnout, o nível mais nocivo de tensão. Também
são conhecidos no Japão os casos de karoshi,
mortes ocasionadas por excesso de trabalho - embora a jornada
dos japoneses, oficialmente, seja menor que a dos brasileiros.
Ou seja, está claro que ginástica laboral, yoga
corporativo e outros programas de recursos humanos não
são mais suficientes para atenuar tanto estresse. "Estamos
sob controle social do trabalho tanto dentro das empresas
quanto fora delas. É preciso impor um limite mais claro
entre essas duas esferas", defende Márcio Pochmann,
doutor em Economia do Trabalho pela Unicamp e secretário
de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da cidade de
São Paulo.
* com reportagem de Letícia Pires
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