| Bernt Entschev nasceu na Alemanha,
em 1952, e aterrissou no Brasil quando tinha 7
anos. Até hoje, porém, ele preserva
qualidades típicas dos alemães:
é objetivo, observador e rigoroso mesmo
com simples detalhes. Talvez tenha sido por isso
que Entschev se tornou um dos mais respeitados
headhunters do Brasil, garimpando profissionais
para companhias como Kraft Foods, Inepar, Weg,
Oxford e outras. Nada escapa de seu olhar germânico
durante um processo de seleção.
Nesta entrevista, o atual presidente da Transearch,
uma das principais empresas de seleção
de executivos no Brasil, prova que a etiqueta
é um diferencial para quem almeja um grande
negócio. E mostra que nem sempre a boa
educação é suficiente para
se evitar as gafes corporativas.
Boas maneiras, roupas adequadas, boa
postura... até que ponto a etiqueta nos
negócios pode ser decisiva no marketing
pessoal?
Tudo o que fazemos depende da maneira como nos
relacionamos com outras pessoas. Isso também
vale na hora de se buscar um emprego ou fazer
uma negociação. Não negociamos
com máquinas, e sim com outras pessoas.
Nós, headhunters, tentamos avaliar a pessoa
tanto no aspecto técnico como no comportamental.
E como é que as pessoas julgam, percebem
as coisas? É ouvindo a entonação
de voz, avaliando a postura, a forma de sentar,
de comer, cumprimentar e até de tocar.
Um aperto de mão frouxo diz uma coisa a
seu respeito. Já um aperto de mão
firme diz outra. Tudo isso soma para um conjunto
visual que passa informações a seu
respeito. As pessoas precisam saber lidar com
isso.
Por que é tão comum executivos
cometerem gafes em reuniões e almoços
de negócios?
Muitas vezes, nós esquecemos que a nossa
escala de valores pode ser bem diferente da de
outras pessoas. Posso valorizar coisas que o outro
não valoriza. Digamos que o meu interlocutor
aprecie pessoas que usam gravata em uma negociação.
Ora, se eu não valorizar isso, obviamente
irei encontrá-lo sem gravata. Logo, começarei
perdendo alguns pontos com ele. É claro
que jamais conseguiremos entrar na cabeça
das pessoas para descobrir exatamente o que elas
querem. Mas pelo menos podemos intuir sobre o
que elas pensam e sobre qual é sua escala
de valores. Digamos que eu seja um torcedor fanático
do Figueirense e que o meu time tenha acabado
de perder um jogo para o Palmeiras. Aí
vem o camarada e comenta: “Você viu
a porcaria do Figueirense ontem?”. Pronto:
sem querer, ele criou um baita conflito entre
nós, que tínhamos o objetivo de
compartilhar idéias. Isso não vale
só para o futebol. Vale também para
a religião, para a moral etc. Mas pior
ainda é se o sujeito tenta consertar a
gafe. Isso é uma bobagem. Claro que cometer
a gafe é horrível. Por isso mesmo,
o melhor é deixar ela passar.
Há alguma técnica ou padrão
de comportamento que ajude a evitar as gafes?
A maioria das pessoas sai bem apenas primando
pelo “bom gosto”. Em geral, as pessoas
buscam ter boa educação. Mas, para
ser influente em uma reunião ou entrevista,
o ideal é colher o maior número
de informações sobre a pessoa com
quem se vai conversar. Aí, com base nessas
informações, pode-se selecionar
aquilo que é interessante comunicar. Talvez
eu queira um “não”. Nesse caso,
eu vou à reunião de um jeito que
faça a pessoa me dizer um “não”.
Mas, se eu quero um “sim”, eu vou
de outro jeito. Quanto mais informações
eu tiver sobre o meu “oponente”, ou
a pessoa com a qual vou negociar, mais condições
eu terei para fazer que as percepções
dele captem aquilo que eu gostaria de transmitir.
Quer dizer que vale a pena investigar
a pessoa com a qual você vai negociar?
Não só vale a pena: deve-se investigar.
Imagine a sensação de você
negociar com uma pessoa que você nunca viu
mais gorda. É horrível.
Como fazer essa investigação?
Existem diversas maneiras. Vamos imaginar que
você esteja em busca de um emprego. Se for
uma consultoria de seleção de profissionais,
é preciso saber como é essa consultoria,
como ela funciona etc. Se a entrevista de emprego
for na própria empresa que está
contratando, então é bom ter o maior
número de informações sobre
essa companhia, as pessoas que trabalham nela
etc. Pode-se conseguir isso por meio da consultoria
que está selecionando os candidatos, ou
de pessoas que conheçam a organização.
Entrar no site da empresa também funciona,
pelo menos para saber que produtos ela vende,
qual é sua filosofia, sua área de
atuação. Afinal, tudo isso acaba
influindo no comportamento das pessoas que trabalham
lá. Isso é importante. Não
se deve deixar ao acaso aquela química
que sempre esperamos obter em uma entrevista ou
negociação.
|